China e Estados Unidos transformam laboratórios de biotecnologia em um novo campo de batalha

Foto: Sangharsh Lohakare/Unplash

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03 Agosto 2026

Em Pequim e Washington, sabe-se que quem liderar essa indústria estratégica terá uma vantagem decisiva na economia mundial, comparável à proporcionada pelo petróleo no século XX.

A informação é de Isidre Ambrós, publicada por El Diario, 02-08-2026. 

“Noventa por cento dos antibióticos são fabricados na China, a Europa não produz um único grama de paracetamol e não existem reservas de emergência para crises de saúde.” Com essa constatação contundente, Josep Borrell, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, expressou-se durante os primeiros meses de 2020, no auge da pandemia de Covid-19, para alertar sobre a vulnerabilidade do Ocidente aos laboratórios do gigante asiático.

Sua declaração prenunciou uma nova frente de disputa entre a China e os Estados Unidos, que se tornou realidade seis anos depois: a biotecnologia. Esse setor de alta tecnologia é crucial para alcançar a liderança global, pois o país que dominar essa área controlará a economia, a saúde e a segurança do século XXI.

A competição entre as duas maiores economias do mundo é acirrada e não se resume mais à fabricação dos semicondutores mais avançados ou dos melhores algoritmos para inteligência artificial. Envolve também o domínio do campo da biotecnologia, uma indústria que promete transformar a medicina, a agricultura, a alimentação, os materiais industriais e até mesmo a defesa.

Em Pequim e Washington, existe um claro entendimento de que quem liderar esse setor estratégico terá uma vantagem decisiva na economia global, comparável à proporcionada pelo petróleo no século XX. Isso explica por que ambas as superpotências competem para controlar esse campo, transformando a biotecnologia em um novo campo de batalha. Esse cenário é sugerido pelas recentes ações da Casa Branca em resposta aos avanços promovidos por Zhongnanhai, a sede do governo chinês.

Não é coincidência que os Estados Unidos tenham recentemente adicionado a biotecnologia ao seleto grupo de tecnologias consideradas cruciais para sua segurança nacional. Tampouco é coincidência que a China a inclua entre as chamadas "novas forças produtivas da qualidade", conceito com o qual o presidente chinês Xi Jinping pretende promover uma economia baseada na inovação e menos dependente de tecnologia estrangeira.

A questão para os Estados Unidos e a Europa é que, em apenas quinze anos, os laboratórios na China se tornaram atores importantes no cenário mundial. Eles passaram de um papel secundário na produção de medicamentos genéricos a desenvolver medicamentos inovadores e conceder licenças de produção para multinacionais ocidentais. Essa mudança de paradigma foi impulsionada por financiamento público maciço, regulamentações favoráveis ​​e cooperação entre universidades, hospitais e empresas. Essa combinação de fatores permite que as empresas de biotecnologia chinesas desenvolvam medicamentos mais rapidamente e com melhor custo-benefício do que seus concorrentes americanos e europeus.

Os números são impressionantes. De acordo com a Administração Nacional de Produtos Médicos da China, órgão regulador do setor farmacêutico do país, empresas de biotecnologia do gigante asiático assinaram acordos de licenciamento transfronteiriços no valor recorde de US$ 60 bilhões no primeiro trimestre de 2026. Além disso, até o momento, neste ano, elas representaram 69% do valor total das transações globais nesse setor, segundo o banco de investimentos Jefferies.

Além disso, segundo relatórios do setor, mais de 70% das substâncias farmacêuticas utilizadas em medicamentos genéricos consumidos nos Estados Unidos e na Europa provêm da China e da Índia, cujos laboratórios dependem de matérias-primas chinesas. Ademais, as empresas de biotecnologia do gigante asiático representam agora mais de 30% do conjunto global de medicamentos inovadores em desenvolvimento, em comparação com apenas 4% em 2014.

Os Estados Unidos observam esse rápido desenvolvimento dos laboratórios chineses com crescente preocupação. Washington está particularmente apreensivo com o fato de que, em 2024, a China já os havia ultrapassado em número de ensaios clínicos registrados e que, um ano depois, empresas americanas assinaram acordos de licenciamento com empresas chinesas no valor recorde de US$ 45 bilhões, em comparação com US$ 3,5 bilhões no ano anterior.

A resposta de Washington tem sido enérgica, erguendo barreiras regulatórias sem precedentes. No ano passado, o Congresso dos EUA aprovou a Lei de Biossegurança. Essa legislação visa romper a cooperação e os laços econômicos com a indústria biotecnológica chinesa. Ela proíbe agências federais americanas de financiar ou contratar empresas que utilizam os serviços de firmas desse setor de alta tecnologia do gigante asiático, consideradas de risco.

Essa iniciativa afetou diretamente grandes empresas chinesas que, até alguns meses atrás, atuavam como parceiras de importantes multinacionais americanas. Entre elas, estão a gigante estatal BGI Group, dedicada ao sequenciamento genético, e a WuXi AppTec e a WuXi Biologics, parceiras estratégicas de grandes multinacionais farmacêuticas americanas na produção de medicamentos inovadores.

A Casa Branca também reforçou a proteção de dados genéticos e promoveu incentivos para recuperar parte da produção farmacêutica considerada essencial.

A preocupação do governo americano é bem fundamentada. Quem controlar os grandes bancos de dados genômicos, as plataformas de inteligência artificial biomédica e as patentes de novos tratamentos terá uma enorme vantagem competitiva nas próximas décadas. Portanto, para ambas as superpotências, a biotecnologia já se tornou uma infraestrutura estratégica de alta prioridade.

Tudo indica, portanto, que a rivalidade tecnológica entre a China e os Estados Unidos se intensificará nos próximos anos. Além da competição pelos chips mais avançados, pela inteligência artificial e pelo controle de elementos de terras raras, a biotecnologia, incluindo a pesquisa farmacêutica, também entra em jogo. A diferença, porém, é que essa nova batalha não terá apenas consequências econômicas. Ela também afetará a saúde, a expectativa de vida e a segurança de sociedades inteiras.

Hoje, a desconfiança mútua entre a China e os Estados Unidos está paralisando projetos conjuntos. Amanhã, esses mesmos receios poderão tornar a saúde pública o refém mais vulnerável em uma nova Guerra Fria. 

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