ICE mata imigrantes, Trump pressiona o Brasil e o Super El Niño anunciado. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 18 Julho 2026

Mortes de imigrantes voltam a chocar os Estados Unidos, enquanto o ICE tenta se esconder atrás da Copa do Mundo: até quando a discrição vai disfarçar a violência? Enquanto o Brasil resiste à intervenção trumpista, Cuba vive sob ameaça militar direta dos Estados Unidos: soberania é um direito de todos, ou só de quem tem força para exigi-la?

Com a chegada de um Super El Niño, tempestades já castigam o Rio Grande do Sul e o calor extremo mata milhares na Europa: o Brasil está pronto para o próximo desastre, ou vamos repetir os mesmos erros? Diante de tanta vigilância, controle e destruição, ainda é possível pensar em cuidado: a esperança nas resistências locais que insistem em florescer no meio do caos.

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Imigrantes mortos pelo ICE

Nos Estados Unidos, as operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, ICE, voltaram ao centro das atenções. Em menos de dez dias, o país somou pelo menos quatro mortes de imigrantes nas mãos de agentes de imigração.

Algumas pessoas morreram tentando fugir de abordagens da imigração. Um homem mexicano foi atropelado por um caminhão. Outro morreu durante uma perseguição. E um venezuelano de 45 anos morreu sob custódia do ICE em um centro de detenção na Geórgia. Em outro episódio que causou revolta, Johan Sebastián Durán Guerrero permaneceu algemado mesmo depois de morto.

As mortes deveriam ter rosto e nome. Mas boa parte delas nem isso recebe: viram só estatística. Entre os poucos que conseguimos nomear estão Lorenzo Salgado Araújo, em Houston; Johan Sebastián Durán Guerrero, no Maine; e Jesús Manuel Arenas Silva, na Geórgia. A repercussão dessas mortes obrigou o próprio ICE a suspender temporariamente algumas operações rodoviárias. Mas a interrupção não significa mudança de política. Ela apenas evidencia o custo humano de uma estratégia baseada no medo.

Soberania ameaçada por Trump e Bolsonaros

Se dentro dos Estados Unidos a vida de quem migra já vale menos, resta perguntar o que isso diz sobre como Washington enxerga a soberania de outros países.

Durante décadas, a América Latina conheceu de perto o significado da palavra intervencionismo. Golpes de Estado, bloqueios econômicos, operações secretas e pressões diplomáticas marcaram a relação dos Estados Unidos com o continente. Muitos acreditavam que essa lógica havia perdido força. Mas os acontecimentos desta semana mostram que ela está longe de ter terminado.

Donald Trump voltou a colocar o Brasil no centro de sua estratégia internacional. Na madrugada de quarta para quinta-feira, o Brasil recebeu de Washington uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, e as medidas entram em vigor já no dia 22 de julho.

A nota oficial do Planalto, classifica o 15 de julho de 2026 como um "marco lastimável" nas relações entre Brasil e Estados Unidos e repudia formalmente a decisão americana, alegando não haver justificativa para medidas unilaterais contra o país.

Super El Niño e a falta de preparação para eventos extremos

Há um mês, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos confirmou a formação do fenômeno climático natural El Niño, que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. A confirmação já era esperada por meteorologistas, depois de meses de aquecimento gradual do oceano.

Ainda sem saber ao certo qual será o tamanho da sua intensidade, o órgão americano aponta que há 63% de chances de que o El Niño seja classificado na categoria “muito forte” entre 2026 e 2027. Na prática, já podemos perceber alguns efeitos do aquecimento global.

Em Eldorado do Sul, um dos municípios mais devastados pela enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, um temporal deixou mais de 700 desalojados. Segundo o site ClimaInfo, o evento climático teve ventos de até 45 km/h e granizo, causando estragos em casas, derrubando árvores e deixando milhares de moradores sem energia elétrica e água.

De acordo com a MetSul Meteorologia, o Rio Grande do Sul deve enfrentar uma sequência de tempestades nos próximos dias, já sob influência do El Niño, com a possibilidade do estado registrar até sete dias consecutivos de instabilidade e previsão de chuvas intensas, granizo e alagamentos.

Antropologia do cuidado

Vivemos em um mundo onde a vigilância é promovida como uma ferramenta potente para os mais poderosos tentarem controlar a sociedade: vigilância dos corpos, do local de nascimento, da raça, do status financeiro, onde você mora e para onde vai se mudar. Vigiam para decidir se você é bom ou ruim… aos olhos deles…

O teólogo Leonardo Boff, em artigo publicado pelo IHU, nos convida a pensar sobre como as formas de vigilância atuais, instrumentalizadas e potencializadas pela Inteligência Artificial, também contribuem para a degradação da natureza. “Trata-se da vigência do paradigma do dominus (ser o dono), imperante em toda a modernidade sem o ser humano sentir-se parte da natureza”.

Boff ainda destaca como as big techs utilizam esse método para além do processo econômico, que eles tanto insistem em idolatrar: “Não tem em vista o processo econômico, mas o controle e a vigilância das pessoas. Peter Thiel parte de uma antropologia extremamente reducionista: ”o homem é um ser perigoso, marcado por paixões, naturalmente, inclinado ao conflito, necessitando de contenção. Essa estratégia de controle e de vigilância devido à crise climática enfrentará grandes distúrbios sociais. Pretendendo salvar a humanidade de sua perversidade natural, a subjuga totalmente.”

Como um contraponto a essa lógica perversa, Boff aponta para a antropologia do cuidado e da prevenção: “O cuidado representa uma relação não agressiva e amigável para com tudo o que existe e vive. Se as Big Techs e a IA fossem imbuídas de cuidado e do princípio da prevenção de males possíveis, jamais poriam em risco a vida humana e o futuro do planeta com toda a sua biodiversidade”.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.