15 Julho 2026
A discussão para evitar mais uma guerra entre Equador e Peru parecia estagnada devido a recriminações mútuas quando, de repente, o então presidente do Equador, Alfredo Palacio, tirou de sua bolsa um cantil amassado. Bem no centro, havia um grande buraco deixado por uma bala.
"Pertencia ao meu avô. Ele o carregava consigo durante o último conflito; o buraco foi feito por soldados de Lima. Talvez precisemos encontrar outra solução para seguir em frente..." Os dois vizinhos-rivais latino-americanos começaram a encontrar tal solução naquele dia de 2005, a partir de um gesto inesperado e desnorteador. "Uma pessoa disse 'basta'. Lembrando o sofrimento suportado por um ente querido. Rompeu o cerco. E isso exige grande coragem", enfatizou o Cardeal Pietro Parolin, citando um exemplo concreto de construção da paz. Uma das muitas recordações pessoais que ele quis compartilhar com o público de Bibione.
Ao dirigir-se à grande plateia reunida na Igreja da Assunção, na noite de sábado, para o festival dos jornais “Avvenire” e “Il Popolo”, ele não falou apenas com a linguagem formal do Secretário de Estado. Em vez disso, decidiu trazer a sua própria experiência de homem e pastor, há anos dedicado à diplomacia da Santa Sé, para encontrar, inventar, forjar alternativas contra a "inútil carnificina" da guerra. Uma tarefa difícil, aparentemente impossível, que, acima de tudo – ele nos contava - exige coragem. No entanto, o conceito de paz muitas vezes acaba sendo associado ao seu oposto na narrativa dominante...
A paz é coragem. Acima de tudo, é coragem de vencer a nós mesmos. Nos últimos anos — e até bem recentemente —, muitas autoridades vieram me dizer que concordam com a posição da Santa Sé sobre a paz. Sempre respondo: "Então digam, proclamem; façam suas vozes serem ouvidas e unam-nas àquelas dos outros que compartilham essa visão. Porque a coragem da paz é encontrada quando estamos juntos. Claro, existem os heróis, capazes de atos extraordinários e contracorrente, na maioria das vezes realizados sem grande visibilidade. Contudo, um apelo coletivo é crucial para dar força à criação de alternativas à violência.
A entrevista é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 14-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
O senhor mencionou um exemplo da América Latina, um continente que ambos amamos profundamente. Nesse sentido, há algum país em particular ao qual mais de afeiçoou ao longo de sua missão?
Em meu serviço — e por isso agradeço realmente ao Senhor —, tive experiências maravilhosas em muitos países. Recordo-me, por exemplo, do trabalho realizado no Vietnã para tentar abrir espaços cada vez mais amplos também para as atividades da Igreja, a fim de garantir liberdade religiosa. Foi um período muito interessante que despertou em mim um profundo afeto pelo Vietnã. No entanto, a nação que mais está perto do meu coração é a Venezuela, onde tive a graça de servir como Núncio Apostólico entre 2009 e 2013.
Apaixonei-me por aquela terra intensa e pelo seu povo, capaz de fortes paixões e muito generoso nas relações humanas. É por isso que me entristece o imenso sofrimento que o país tem enfrentado nos últimos anos, levando ao êxodo de milhões de pessoas devido à crise econômica e política. Houve, além disso, a intervenção dos EUA, que pouco contribuiu para melhorar a situação. E agora, esse terrível terremoto provocou um desastre que deve despertar a nossa generosidade.
O ano de 2026 começou justamente com a crise venezuelana e, desde então, os conflitos e os focos de instabilidade se multiplicaram. Como definiria o cenário global atual?
Dramático. Em pouquíssimo tempo, entrou em colapso o sistema estabelecido após as experiências terríveis das duas guerras mundiais do século passado. Justamente após os imensos sofrimentos vividos, os líderes internacionais — a começar pelos europeus no centro da convulsão bélica — compreenderam a urgência de trabalhar seriamente para evitar que tais tragédias se repetissem. Isso levou à construção de um arranjo que, apesar de suas limitações, garantiu um período de paz, embora mais no Velho Continente do que em outras partes.
O multilateralismo — assim se chama esse sistema — busca enfrentar juntos as disputas entre os Estados decorrentes de interesses conflitantes por meio de uma série de mecanismos. No lugar desses mecanismos, repentinamente deixados de lado, está agora se instalando a "cultura do poder", como afirma o Papa Leão XIV na “Magnifica humanitas”. Para usar um slogan eficaz: a força do direito está sendo substituída pelo direito à força.
Mas a paz é realmente possível, ou não passa de um sonho ingênuo e devemos nos resignar à guerra?
A guerra, como afirma o Concílio, nasce de um profundo desequilíbrio no coração humano. A tarefa primordial, portanto, é uma conversão contínua que nos afaste do egoísmo que nos permeia, tanto como indivíduos quanto como comunidades.
No entanto, a paz é possível; devemos acreditar nisso. É, contudo, algo que se constrói dia a dia, um trabalho artesanal, como dizia o Papa Francisco. Não envolve grandes empresas nem produção em série. É tarefa de cada um de nós, alcançada pela superação contínua do conflito e sua transformação em oportunidades para o crescimento das relações humanas e sociais.
Qual é o segredo para ser um bom negociador?
Uma atitude de confiança em relação ao interlocutor. A convicção de que é possível construir algo em conjunto. A atitude oposta compromete qualquer negociação desde a raiz. Naturalmente, além disso, é preciso ser muito leal. Um negociador diz o que pode dizer e apenas o que pode dizer, sem fazer promessas vazias, se atém aos fatos e busca, com base neles, construir relacionamentos com os outros em boa-fé. E investe no diálogo uma forte carga humana, indo além dos meros papéis. Apenas a humanidade nos permite realmente nos aproximar dos outros, encontrar uma conexão, uma sintonia.
Existe alguma negociação em especial que tenha sido desafiadora para o senhor?
A negociação atual — que, infelizmente, ainda não existe — para acabar com a guerra na Ucrânia, um conflito que já dura mais de cinco anos. Enquanto isso, a Santa Sé está muito empenhada na ajuda humanitária, no retorno de crianças ucranianas da Rússia e nas trocas de prisioneiros.
O senhor mencionou a Ucrânia. Qual das muitas regiões do mundo assoladas pela violência mais lhe preocupa?
O Oriente Médio, onde não se consegue resolver o problema de fundo, ou seja, a situação dos palestinos. Há pelo menos uma década, a Santa Sé assinou um acordo com a Palestina, reconhecendo na prática a solução dos dois Estados. Agora, após a tragédia de Gaza, muitos outros países fizeram o mesmo.
No entanto, a situação no campo torna-se cada vez mais difícil: o território da Cisjordânia, onde o Estado da Palestina deveria ser criado, está sendo corroído por assentamentos de colonos israelenses. É uma situação extremamente complexa, na qual encontrar uma saída parece difícil. Isso não significa que não exista. Talvez precisemos recorrer a uma dose extra de criatividade.
Mas a guerra pode ser "justa"?
Na “Magnifica Humanitas”, o Papa afirma que esse conceito precisa ser profundamente reformulado. Na interpretação católica, a "guerra justa" — isto é, moralmente justificável — é a guerra de legítima defesa, desde que cumpra uma série de critérios, sendo a proporcionalidade o principal deles.
A atual presença de armas de destruição em massa, no entanto, altera a perspectiva. E exige uma nova reflexão. Não nos esqueçamos, além disso, que as guerras também são alimentadas por enormes interesses econômicos, particularmente no que diz respeito ao rearmamento. Muitos lucram com a proliferação dos conflitos.
Que conselho o senhor daria àqueles que desejam trabalhar pela paz?
Que não se resignem ao pessimismo ou à ansiedade pelo resultado, mas acreditem no Evangelho: nada de bem que é semeado acaba perdido. Cada ato de bondade, cada ato de amor, cada ato de caridade encontrará o seu espaço.
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