Entre a tolerância zero e a presunção de inocência: um teste para a Igreja. Artigo de María Noel Firpo

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13 Julho 2026

"A Igreja precisa permanecer firme diante de qualquer abuso. Não pode recuar. Mas também precisa impedir que o medo substitua o discernimento."

O artigo é de María Noel Firpo, psicóloga, publicado por Religión Digital, 13-07-2026.

Eis o artigo. 

A Igreja aprendeu tarde demais que o silêncio pode tornar alguém cúmplice de abusos. Durante décadas, muitas vítimas não foram ouvidas, foram desacreditadas ou foram instruídas a permanecer em silêncio "para o bem da instituição". Portanto, a política de tolerância zero não nasceu de uma tendência cultural, mas de um imperativo moral: proteger as pessoas acima do prestígio.

No entanto, surge para mim uma questão ou um novo desafio: como proteger alguém que possa ter sofrido abusos, ao mesmo tempo que se preservam a reputação e a dignidade do acusado até que a verdade seja conhecida?

O caso do Cardeal Cristóbal López Romero, salesiano espanhol, coloca-nos novamente naquela posição desconfortável em que a prudência se faz mais necessária do que nunca. As informações divulgadas até o momento trazem acusações de “conduta considerada inadequada em relação a mulheres adultas”. O próprio cardeal decidiu afastar-se temporariamente da vida pública para facilitar uma investigação transparente. Este gesto deve ser interpretado, no mínimo, como uma disposição para permitir que os fatos sejam esclarecidos sem interferências.

Mas essa questão levanta para mim uma pergunta que vai além de um nome específico. Vivemos em uma cultura onde reputações podem ser destruídas em questão de horas. Uma suspeita rapidamente se torna manchete; a manchete, um julgamento social; e o julgamento social, muitas vezes, um veredito que precede qualquer investigação.

A psicologia sabe muito bem que as relações humanas são complexas. Existem agressores. Existem vítimas. E existem também diferentes interpretações do mesmo evento, conflitos emocionais, feridas, ressentimentos e, em casos excepcionais, acusações feitas para ganho pessoal ou motivadas por interesse próprio. Negar essa possibilidade seria também ignorar a verdade.

Isso não significa desconfiar sistematicamente de qualquer pessoa que denuncie um crime. Isso seria profundamente injusto. Sabemos o quão difícil tem sido para tantas vítimas encontrar a voz para contar o que aconteceu. Mas também não significa que toda denúncia deva ser automaticamente entendida como prova de culpa. A reputação é um dos bens mais frágeis que uma pessoa possui. Pode levar uma vida inteira para ser construída e apenas algumas horas para ser irreparavelmente danificada. Mesmo quando uma investigação conclui que nenhum crime foi cometido, a sombra da suspeita raramente desaparece. No imaginário coletivo, sempre permanece a sensação de que "eles devem ter feito alguma coisa".

A psicologia sabe muito bem que as relações humanas são complexas. Existem agressores. Existem vítimas. E existem também diferentes interpretações do mesmo evento, conflitos emocionais, feridas, ressentimentos e, em casos excepcionais, acusações feitas para ganho pessoal ou por motivos egoístas. Negar essa possibilidade seria desrespeitar a verdade.

Eu sabia do caso de um padre que mantinha um relacionamento consensual com uma mulher adulta. Quando ele decidiu terminar o relacionamento, ela continuou insistindo e tentando persuadi-lo a continuar. Algum tempo depois, ela apresentou uma queixa por abuso, com as consequências pessoais e profissionais que isso acarretou. Mais detalhes não vêm ao caso aqui. Casos como esse, sem generalizar ou torná-los a norma, nos lembram que também pode haver uso injusto dos mecanismos de denúncia. É justamente para isso que existe a justiça. Não para proteger automaticamente o acusado, nem para acreditar em qualquer acusação sem investigação, mas para investigar rigorosamente, ouvir todas as partes e distinguir fatos de interpretações.

A Igreja precisa permanecer firme diante de qualquer abuso. Não pode recuar. Mas também precisa impedir que o medo substitua o discernimento.

A vítima sempre merece toda a proteção possível. Mas, quando uma acusação é infundada, também existe uma vítima. Somente quando tanto o acusador quanto o acusado são protegidos simultaneamente por meio de um processo sério, independente e respeitoso, a verdade deixa de ser um mero slogan e se torna uma forma genuína de cuidar das pessoas. Porque a verdade não precisa de pressa. Ela precisa de tempo, coragem e justiça.

A Igreja, precisamente por respeito a essas vítimas, deve assegurar que seus processos sejam impecáveis, pois uma investigação rigorosa protege o acusador quando os fatos são verdadeiros e protege o inocente quando não o são. Não se trata de dois sistemas de justiça diferentes. É a mesma justiça.

Talvez hoje a verdade sofra em meio a manchetes, algoritmos e julgamentos precipitados. Porque quando deixamos de ouvir e nos limitamos a crer ou desconfiar, não buscamos mais a verdade: buscamos confirmar o que queremos pensar. E, nesse processo, deixamos de ver as pessoas. Isso não só empobrece a justiça, mas também o Evangelho, que sempre começa olhando para um rosto antes de proferir uma sentença.

O maior ato de justiça é nunca desistir de buscar a verdade, mesmo que leve tempo para alcançá-la. Como escreveu Santa Teresa de Ávila: "A verdade sofre, mas não perece."

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