29 Junho 2026
Na Venezuela, a terra provoca os tremores, mas a política decide quem morre.
O artigo é de Luis Duno-Gottberg, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Rice (Houston, Texas), publicado por Ctxt, 26-06-2026.
Eis o artigo.
A Venezuela tremeu duas vezes em 2026: um terremoto político em janeiro e um geológico em junho. Ambos abalam o mesmo terreno e expõem as mesmas fraturas, e ambos, em última análise, levantam uma única questão: sobre que bases o país pode ser reconstruído?
As falhas e a emergência nacional
A palavra “falha” existe em dois registros. No registro geológico, refere-se a uma fratura na crosta terrestre, uma fenda onde a tensão se acumula por séculos e é liberada repentinamente. No registro histórico, refere-se às fraturas que atravessam uma sociedade, separando pessoas umas das outras, corroendo instituições e dissolvendo os acordos tácitos de convivência. Não é coincidência que a geologia e a história tenham escolhido a mesma palavra: as sociedades, como os continentes, se desintegram lentamente. A Venezuela há muito vive sobre suas próprias falhas, tanto geológicas quanto políticas, sem saber qual delas cederá primeiro.
Este ano, ambos ruíram quase simultaneamente. Em janeiro, um comando americano sequestrou o presidente no meio da noite e o colocou em um avião rumo a um tribunal de Nova York. Em junho, a terra rachou duas vezes em trinta e nove segundos, sacudindo Caracas e seu litoral. Entre um tremor e outro, passaram-se seis meses, cada um trazendo a mesma revelação. Aquilo que era dado como certo — uma nação, um Estado, o próprio solo — era uma superfície tensa, à beira de explodir.
Escrever sobre o significado de um terremoto enquanto as pessoas ainda estão presas sob os escombros parece um tanto vergonhoso; a interpretação parece um luxo em comparação aos esforços de resgate. Mas escrevo com a mesma urgência com que se move uma viga. Entender por que um país desmorona é parte do que deve ser feito agora, se quisermos que o próximo colapso encontre terreno mais firme. A reflexão, em um país em ruínas, não é o oposto da urgência, é uma forma dela.
A ONU estima que mais de 50 mil pessoas estejam desaparecidas após os terremotos na Venezuela, e o número de mortos passa de 1,4 mil.
— GloboNews (@GloboNews) June 28, 2026
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou que já são mais de 3,2 mil feridos. E 3 mil pessoas perderam suas casas ou não… pic.twitter.com/bW6MN0w9dy
A Terra escolhe uma data
O terremoto que abalou a capital e ceifou milhares de vidas, talvez dezenas de milhares, ocorreu em 24 de junho, data que marca a convergência de três Venezuelas. É o aniversário de Carabobo, que em 1821 selou a independência da Venezuela da Espanha; é o Dia do Exército; e é a festa de São João Batista, celebrada com tambores ao longo da costa central. Sobre essa tríplice memória — a do feito heroico, a dos quartéis militares e a dos tambores — a catástrofe se abateu.
Dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Richter, atingiram a região ao longo do sistema de falhas no norte do país, onde a Placa Caribenha desliza sobre a Placa Sul-Americana alguns centímetros por ano. Prédios desabaram em Los Palos Grandes e Altamira, uma área já conhecida por Caracas devido à sua peculiar falha geológica: um vale formado sobre fraturas ativas e uma espessa camada de sedimentos soltos que amplifica e prolonga cada tremor. O aeroporto de Maiquetía, uma das principais portas de entrada para milhões de venezuelanos, também foi danificado. Mas o maior impacto foi sentido ao longo da costa. La Guaira, declarada zona de desastre, amanheceu com dezenas de prédios desabados, um hotel em Macuto reduzido a escombros e bairros inteiros, de Catia La Mar a Naiguatá, divididos pelo terremoto. Esta não é uma costa qualquer: é a mesma que, em dezembro de 1999, sofreu o deslizamento de terra de Vargas, quando torrentes de chuva desceram da Serra de Ávila, transformando-se em rios de lama e pedras e ceifando entre dez e trinta mil vidas — o pior desastre natural da história da Venezuela. A costa foi reconstruída de forma precária e incompleta após a catástrofe: grande parte do que havia sido destruído já havia sido reconstruída sobre os mesmos leques aluviais que as águas haviam varrido um quarto de século antes, em solo que já havia dado sinais de alerta. O balanço preliminar, com mais de cento e sessenta mortos e quase mil feridos, mal indicava a dimensão da tragédia; modelos sugerem que, após a remoção dos últimos escombros, o número de mortos chegará às dezenas de milhares. Para se pronunciar, a terra escolheu o dia mais comovente do ano, na mesma costa que ressoa todo mês de junho com a celebração do Dia de São João.
Uma nação que pode ser lida em seus tremores
A Venezuela também tem o antigo hábito de interpretar seus terremotos. O mais famoso foi o da Quinta-feira Santa, 26 de março de 1812, quando a Primeira República tinha pouco mais de um ano, um projeto incerto. Com as igrejas lotadas, um terremoto devastador derrubou os templos sobre os fiéis e matou cerca de dez mil pessoas em Caracas, quase um terço de seus habitantes. A geografia do desastre pareceu tomar partido: devastou as cidades patriotas e poupou os redutos monarquistas, e o clero do rei considerou suficiente pregar que a terra estava punindo a rebelião. Os republicanos lutaram para arrancar esse significado do evento, até que Bolívar respondeu, em meio aos escombros, com a frase que a tradição lhe atribui e que se tornaria um manifesto: "Se a natureza se opõe a nós, lutaremos contra ela e a faremos obedecer". Geralmente é lida como um gesto heroico ou como arrogância, mas outra interpretação é possível: a natureza havia aberto uma fissura física, e a guerra era uma resposta a uma divisão social. As duas coisas foram confundidas. A Venezuela moderna nasceu debatendo o significado de uma fratura e, dois séculos depois, ainda está envolvida nesse debate.
A terra não descansou. Em 1900, um terremoto de magnitude 7,7, um dos maiores já registrados no país e que o terremoto de junho ainda não igualou, sacudiu mais uma vez a costa central. Atingiu uma Venezuela agrária, desprovida de petróleo, mal emergindo de um século de guerras civis e praticamente sem um Estado funcional. Cipriano Castro, que um ano antes havia tomado Caracas à força, acordou com o tremor na Casa Amarela e, tomado pelo pânico, saltou de uma janela, quebrando o tornozelo. O regime personalista fugiu do terremoto enquanto o país o suportava sem assistência. E dois anos depois, canhoneiras da Inglaterra, Alemanha e Itália bloqueariam aquela mesma costa e bombardeariam Puerto Cabello para cobrar uma dívida; Cipriano Castro então proclamou que “o pé insolente do estrangeiro profanou o solo sagrado da pátria”. A costa que abalou os próprios alicerces da terra foi também o limiar por onde, repetidas vezes, impérios entraram para cobrar o que lhes era devido.
Mas se há algum terremoto na Venezuela que ensina que o número de mortos não é determinado pela terra, mas pela mão do homem, esse terremoto é o de Cariaco. Em 9 de julho de 1997, um terremoto de magnitude 6,9 rompeu a falha de El Pilar, no leste do estado de Sucre, matando cerca de oitenta pessoas. Não foi um terremoto particularmente grande; foi particularmente revelador. Muitas das mortes não ocorreram sob a força do solo, mas sob o desabamento de escolas mal construídas: colunas curtas demais, concreto sem resistência suficiente, prédios erguidos sem qualquer fiscalização das normas. A terra mal se moveu; o que desabou foi a mesquinha economia daqueles que construíram de forma barata em uma falha geológica conhecida. Cariaco obrigou o país a revisar suas escolas e reforçar muitas delas, e deixou uma lição que retornará em junho: a geologia causa o tremor, mas a política decide quem morre. Entre a magnitude do terremoto e o número de caixões, há uma variável que não é natural: a qualidade do Estado que constrói, inspeciona e, se necessário, realiza os resgates.
Corpos enfileirados aguardam identificação na Venezuela após terremotos.#DWNoticias pic.twitter.com/64px0vVg2C
— DW Brasil (@dw_brasil) June 29, 2026
Os terremotos de janeiro
A diferença decisiva entre 1967 e 2026 não reside na magnitude dos terremotos, mas na sociedade que os recebe: a Venezuela de 1967 estava construindo; a Venezuela de 2026 mal tenta descobrir sobre o que reconstruir. O verdadeiro terremoto do ano não chegou em junho, com a terra, mas em janeiro, com a política.
Nas primeiras horas de 3 de janeiro, uma operação militar dos EUA capturou Nicolás Maduro e o levou a julgamento. Poucas horas depois, o homem que governara por mais de uma década desapareceu do Palácio de Miraflores. Mas decapitar um regime não é o mesmo que mudá-lo; uma certa “estrutura geológica” persiste.
É importante levar isso a sério. Em geologia, uma formação é um conjunto de estratos depositados ao longo de eras, camada sobre camada, até que o tempo os compacte em uma rocha que parece natural, mas é história sedimentada. A formação social venezuelana é um exemplo disso. Sob a fina crosta do regime anterior, pode-se reconhecer o estrato do Estado petrolífero do século XX e, abaixo deste, o estrato da antiga propriedade colonial, comprimidos em uma única rocha de clientelas, rendas e lealdades que nenhuma operação noturna consegue dissolver. O que um avião atingiu em janeiro foi a camada superficial, não a formação inteira. E uma falha geológica, quando se desloca, não corta apenas um estrato: corta todos de uma vez. É por isso que, quando a terra se rompeu em junho, apenas confirmou o que janeiro havia deixado sem solução: que aquela rocha ainda estava lá, tão tensa como sempre, sob o novo governo, assim como estava sob o antigo.
Essa continuidade foi eloquentemente ilustrada em junho. Quando o terreno finalmente cedeu, foi Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e agora presidente interina, quem se apresentou para enumerar os danos e pedir calma — um Estado herdado dela, sem um mandato legítimo, administrando uma catástrofe sobre as ruínas de outra. A política venezuelana, portanto, experimentou seu próprio duplo sísmico: primeiro o golpe que derrubou o líder, depois o prolongado tremor secundário, no qual a estrutura subjacente mal se alterou.
A geografia das fissuras
As fraturas expostas pelo terremoto político são anteriores a ele e irão perdurar após sua destruição. Há uma divisão demográfica e emocional, a dos quase oito milhões que deixaram o país desde 2014, separados de suas famílias, e cujo retorno, se algum dia ocorrer, dependerá de garantias ainda inexistentes. Há uma divisão cívica, aberta por anos de polarização, que corroeu até mesmo a capacidade de imaginar um futuro compartilhado. E, sobretudo, há uma falha do Estado: instituições capturadas, esvaziadas de seus recursos, confundidas com redes de poder e, por vezes, com o crime organizado, incapazes de reagir quando o terreno se move. Avançaram silenciosamente, como placas tectônicas, acumulando uma tensão que ninguém mensurou. É por isso que o terremoto de junho encontra a Venezuela transformada em uma geografia de fissuras: em sua infraestrutura, em sua confiança, em sua memória coletiva e até mesmo na própria ideia de nação.
Catástrofes não inventam fraquezas: elas as expõem. Um hospital em ruínas ou uma estrada destruída contam uma história que antecede o terremoto. Desastres são auditorias que examinam décadas de decisões políticas em questão de horas e publicam impiedosamente os resultados.
This earthquake video from Venezuela is absolutely insane and sad. pic.twitter.com/faw6fwhHSj
— Ed Krassenstein (@EdKrassen) June 29, 2026
O solo da prosperidade
Portanto, a questão deixada pelos dois terremotos de 2026 não é como reconstruir, pois isso se faz com cimento, mas sim sobre o que se constrói. É tentador acreditar que a calma retornará por si só assim que os poços forem reativados: a promessa de que o petróleo bruto resolve tudo é tão antiga quanto a própria república rica em petróleo, mas hoje esse alicerce não é limitado pela geologia, mas pela governança, e ninguém investe capital onde não há regras estáveis, tribunais para aplicá-las ou autoridade indiscutível. O terreno firme necessário não é uma jazida de petróleo, mas uma construção política: um Estado legítimo, instituições que funcionem independentemente de quem esteja no poder, um sistema de justiça previsível, um acordo mínimo sobre as regras do jogo. Nada disso pode ser improvisado, e nada disso existe ainda: remover a cabeça do regime limpou o palco, mas deixou o terreno tão instável quanto antes, e a prosperidade não se constrói sobre areia movediça, mas, na melhor das hipóteses, sobre a próxima ruína.
A mão nua
De tudo isso emerge uma imagem que vale mais do que qualquer diagnóstico. Um homem cava sozinho entre os escombros de sua casa: usa apenas uma luva em uma das mãos e, na outra, um balde de plástico. Sem máquinas, sem equipe de trabalho, sem intervenção governamental: uma mão seminua e um balde diante de uma montanha de concreto.
Vale a pena parar para observar essa fotografia: as catástrofes são lembradas por meio de suas imagens, e esta encapsula o que os números escondem. Há apenas uma luva: não era suficiente para as duas mãos, ou talvez não houvesse mais nenhuma, e essa falta diz muito. É o emblema do trabalho precário dos esforços de resgate, o tipo de trabalho que, onde o Estado atua, é realizado por equipes com capacetes, cães e sensores, mas que aqui recai sobre o vizinho e o forasteiro que cavam com o que têm à mão. Em Altamira, enquanto um prédio de vinte e dois andares jazia em ruínas, eram os voluntários que escalavam os escombros gritando nomes desconhecidos: na Venezuela, o primeiro socorro não é fornecido por uma instituição, é improvisado pela solidariedade daqueles que estão ao redor. E a diáspora, de Miami ou Bogotá, começou listas online para registrar os desaparecidos, porque nem mesmo o censo dos mortos podia mais ser confiado ao Estado.
Há uma divisão de trabalho nessa cena que é um mapa de poder. As máquinas pesadas ainda não chegaram enquanto escrevo estas linhas; quando chegarem, virão em aviões estrangeiros: equipes de busca e resgate enviadas, talvez, da Virgínia e da Califórnia pelo mesmo poder que veio buscar o presidente em janeiro. A soberania venezuelana está dividida hoje em dois gestos simétricos: uma mão sem luvas que remove o concreto e o resgate, assim como o petróleo, delegado a quem tiver os meios. O Estado que não conseguiu proteger seu povo não consegue nem mesmo desenterrá-lo.
E também contém uma obscenidade implícita: este homem está cavando em um dos maiores campos de petróleo do planeta, com o petróleo sendo bombeado enquanto ele remove os detritos com um balde. O oleoduto e o balde são dois lados da mesma fratura: imensa riqueza fluindo em uma direção e uma mão nua cavando na outra. A imagem não acusa, não precisa; simplesmente mostra o que resta de um país quando tudo o que deveria sustentá-lo é retirado, deixando apenas o cidadão para enfrentar a ruína.
Aquilo que diz respeito à política
Os geólogos não eliminam falhas geológicas: eles as identificam e constroem de acordo com elas. O mesmo se aplica às sociedades: a diferença entre prosperar e entrar em colapso não reside em ter ou não falhas geológicas, mas em saber onde elas estão e não construir sobre elas como se não existissem. A Venezuela enfrenta mais uma vez essa escolha: um regime antigo governa um país novo que ainda nem ousou nascer.
A terra falou, com a voz seca dos terremotos, e disse o que sempre diz: que nada é verdadeiramente firme, e que, mais cedo ou mais tarde, devemos olhar para baixo, para as tensões que ninguém mais vê. As questões que ela deixa, porém, não pertencem à geologia, mas inteiramente à política e à vontade. Mas não à vontade que Bolívar invocou entre os escombros de 1812, a vontade de dobrar um terreno hostil, porque dominar a falha pela força é o que Janeiro já tentou sem sucesso. A vontade necessária é como a do geólogo, que não dobra a falha, mas a compreende e constrói com ela. Enquanto isso, em Los Palos Grandes, esse homem permanece sozinho diante dos escombros com sua luva e seu balde. E qualquer reflexão honesta sobre o futuro do país deve começar ali também.
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