O grito da Terra e dos pobres. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 27 Junho 2026

As ondas de calor extremo na Europa colocam em xeque a segurança climática do planeta. No Brasil, o frio bate recordes e expõe as desigualdades ambientais. Com a chegada do El Niño e a ascensão da extrema direita na América Latina, como os governos estão se preparando para catástrofes ambientais? As contradições da Copa do Mundo de 2026 como a edição que mais emitiu gases de efeito estufa da história do esporte e quais os limites da Magnifícia Humanitas na abordagem climática?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Ondas de calor extremo na Europa

Há quase dez anos atrás, o escritor, teólogo e filósofo, Leonardo Boff publicou um artigo no IHU abordando a relação da humanidade com o planeta. Ele apontou o Dia da Sobrecarga na Terra, quando a demanda da humanidade por recursos naturais excede a capacidade do planeta de regenerá-los no mesmo ano, como um exemplo de que não estamos cuidando da nossa “casa comum”. Nas palavras de Boff, “Nossa presença na Terra é agressiva, movemos uma guerra total à Gaia, atacando-a em todas as frentes. A consequência direta é que a Terra fica doente”.

Uma década depois, a Terra continua doente, gritando um pedido de socorro que ecoa cada vez mais alto. Adoecido pelo desenvolvimentismo humano, que consome recursos naturais como se eles fossem infinitos, o planeta mostra sintomas cada vez mais claros de que é necessário repensar a nossa relação com a natureza. Eventos climáticos extremos se tornam mais comuns e afetam a vida de todos, principalmente dos mais pobres.

Na Europa, uma onda de calor histórica demonstra como essa mudança de paradigma é urgente. Nesta semana, a França registrou a noite mais quente desde que o país começou a medir temperaturas, em 1947. O indicador nacional, uma média entre as temperaturas diurnas e noturnas de 30 estações meteorológicas, chegou a 29,8°C segundo dados provisórios da Meteo-France. A temperatura mínima média do país bateu 21,6°C, superando o recorde anterior, de julho de 2019.

Os dados reproduzidos pelo site EcoDebate, em reportagem de Henrique Cortez, também apontam que esse não é um caso isolado. Cidades como Bordeaux e Poitiers, no sudoeste e centro-oeste da França, bateram suas marcas históricas absolutas de temperatura máxima, com termômetros passando dos 41°C. Desde o início da medição das estações, há quase um século em alguns casos, estes números nunca foram vistos.

Frio no Brasil e a desigualdade social exposta

Ondas de calor sufocante de um lado do planeta, mortes por frio no outro. O aquecimento global está impulsionando os extremos climáticos e quem sofre, novamente, são as populações mais vulneráveis e expostas à desigualdade mundial.

Com o início do inverno, o Brasil também começou a enfrentar a primeira onda de frio da estação. Uma série de temperaturas baixas e recordes de frio foram registrados na quinta-feira desta semana, afetando principalmente as regiões do Sudeste, Norte e Sul.

Segundo informações do Climatempo, capitais como Florianópolis, Curitiba e Rio Branco enfrentaram a madrugada mais fria do ano, até o momento. Em São Paulo, a máxima de quarta-feira, dia 24 de junho, foi de apenas 13,5°C. A empresa brasileira que oferece serviços de Meteorologia apontou que essa foi a menor temperatura máxima para um dia de junho na capital paulista em 30 anos.

Cidades como Mogi das Cruzes, em São Paulo e Pelotas, no Rio Grande do Sul, já registraram a morte de pessoas em situação de rua por conta dessa onda de frio intenso. Em uma reunião em Porto Alegre para debater urbanismo para esta parte da população na cidade, cuja estimativa é de mais 7 mil, o secretário municipal de Assistência Social do governo Melo, Matheus Xavier, afirmou que esse tipo de situação é uma falácia

O impacto dos data centers no clima e a falta de preparação para eventos extremos

O negacionismo e a subserviência para setores que estão ligados à destruição ambiental preocupa, ainda mais nesse cenário de eventos climáticos extremos. A Argentina de Milei, por exemplo, possui aproximadamente 45 instalações ativas de data centers, tendo a região metropolitana de Buenos Aires um dos principais locais das construções. Conforme o governo do país, a OpenAI ainda planeja construir data center de inteligência artificial na Patagônia, sem considerar os impactos climáticos dessa ação.

Em discurso na Semana de Ação Climática de Londres, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu às empresas de inteligência artificial mais transparência quanto às suas pegadas ambientais. E reforçou que tanto a crise climática quanto a energética são alimentadas pela mesma fonte destrutiva: os combustíveis fósseis. “Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa ser honesta sobre o seu custo atual”, afirmou Guterres.

Outra preocupação também está na falta de preparação dos governos para os impactos do clima e desastres naturais. Nesta semana, a Venezuela sofreu com dois fortes terremotos que atingiram o país, deixando até o momento 589 mortos e 2.980 feridos. Prédios inteiros e casas desabaram em Caracas e em outras cidades venezuelanas.

A engenheira civil e sismóloga Gina Villalobos destaca que as mortes não são causadas diretamente pelos tremores, mas sim pela falta de estrutura dos edifícios, que deveriam ser preparados para estes eventos. “Terremotos não matam pessoas. Se você for atingido por um terremoto de magnitude 7,5 no meio de um campo de futebol ou em um terreno baldio, a vibração o derrubará, mas o risco de perder a vida é mínimo. O verdadeiro perigo reside nas estruturas civis; são os edifícios que não atendem aos requisitos de engenharia sísmica que desabam e causam tragédias humanas”, destaca a especialista.

Com a possível chegada de um Super El Niño, essa falta de preparação também fica evidente em toda a América Latina. "As periferias das cidades já sofrem com impactos acumulados por vários desastres. Não temos quase nada pronto para adaptar nossas comunidades a esse cenário", afirma Thaynah Gutierrez, secretária executiva da Rede por Adaptação Antirracista, citando as periferias de Porto Alegre, em reportagem publicada por Deutsche Welle.

A Copa do Mundo mais emissora de gases de efeito estufa da história do esporte

Nesse contexto de eventos climáticos extremos e falta de governança, damos evidência a Copa do Mundo de 2026, que está sendo disputada num país cujo presidente é um dos maiores negacionistas climáticos do planeta. Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, desmontou as políticas ambientais americanas e, em momento algum da organização do torneio, demonstrou qualquer preocupação com a pegada de carbono do evento.

A FIFA, que tem metas oficiais de reduzir 50% das emissões de seus eventos até 2030 e atingir neutralidade de carbono até 2040, também optou pelo silêncio. "É uma completa negligência, como se as mudanças climáticas não existissem", avaliou Alexis Normand, CEO da plataforma de contabilidade de carbono Greenly.

Os números explicam a gravidade do silêncio. Esta é a Copa do Mundo mais emissora de gases de efeito estufa da história do esporte. Disputada em três países, 16 cidades e com um recorde de 48 seleções, o torneio vai gerar 7,8 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes, segundo a Greenly, o dobro da Copa do Catar em 2022. O think tank britânico New Weather Institute estima um número ainda maior: 9 milhões de toneladas. Para ter uma ideia do que isso representa: é equivalente às emissões anuais de 1,7 milhão de carros a combustível circulando durante um ano inteiro.

O principal responsável por esse recorde é o transporte aéreo. Oitenta e sete por cento de todas as emissões da Copa virão de voos. A distância média percorrida por cada torcedor nesta edição é de 19,4 mil quilômetros, contra 13 mil no Catar. O torneio é 10 dias mais longo e tem o triplo de torcedores.

Os limites da Magnifica Humanitas no contexto ambiental

O debate em torno da Magnifica Humanitas continua. E uma das lacunas que pesquisadores e teólogos não deixaram passar é o clima. A encíclica não aborda os impactos ambientais da IA, e eles são enormes.

Os data centers que sustentam os grandes modelos de linguagem consomem quantidades colossais de energia e água. A construção das infraestruturas digitais devora minerais extraídos em condições que frequentemente destroem territórios e comunidades.

O Papa fala em proteger os mais vulneráveis, mas os mais vulneráveis às mudanças climáticas são exatamente os mesmos que mais sofrem com a expansão desregulada da tecnologia: os pobres, os periféricos, os invisíveis do sistema global. Essa conexão a encíclica não fez.

O jornalista e teólogo Moisés Sbardelotto, analisando a Magnifica Humanitas à luz da tradição social da Igreja, aponta que o documento representa uma continuidade com o pontificado de Francisco, que havia colocado a questão ambiental no centro do magistério papal com a Laudato Si'. Leão XIV dialoga com esse legado, mas desloca o foco para a tecnologia digital, sem articular as duas crises como faces do mesmo problema. A crise climática e a crise digital não são paralelas, são parte de um mesmo modelo de desenvolvimento que concentra poder, externaliza custos e distribui destruição de forma profundamente desigual.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.