Como Donald Trump ajudou a extrema-direita colombiana a vencer. Artigo de Cruz Bonlarron Martínez

Donald Trump (Fonte: Reprodução | Youtube)

Mais Lidos

  • Sem sermão para leigos: escolha certa, argumentos errados. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Venezuela abalada por um duplo evento sísmico: um século de energia liberada em uma hora

    LER MAIS
  • As críticas a esta edição da Copa do Mundo “sugerem a existência de movimentos políticos e pessoas preocupadas com outras questões que não só o futebol ou o lucro da copa, como é o caso da FIFA”, avalia o antropólogo

    Copa da diáspora, dos encontros fugazes e das dificuldades de interação com a diferença. Entrevista especial com Arlei Damo

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

26 Junho 2026

O candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella conquistou uma vitória apertada sobre seu oponente de esquerda, Iván Cepeda, na corrida presidencial da Colômbia, após uma grosseira e visível interferência eleitoral do governo dos EUA. O resultado representa uma grande ameaça aos direitos democráticos.

O artigo é de Cruz Bonlarron Martínez, publicado por Jacobin, 25-06-2026.

Cruz Bonlarron Martínez é um escritor independente e foi bolsista Fulbright na Colômbia entre 2021 e 2022. Seus textos sobre política, direitos humanos e cultura na América Latina e na diáspora latino-americana foram publicados em diversos veículos de comunicação, tanto nos EUA quanto internacionalmente.

Eis o artigo.

Após o fechamento das urnas no segundo turno das eleições presidenciais colombianas, na tarde de domingo, o candidato de esquerda Iván Cepeda reuniu seus apoiadores mais fiéis para a cerimônia de encerramento de sua campanha em um teatro lotado no bairro de Chapinero, em Bogotá. Eles esperavam comemorar uma vitória clara da esquerda naquela noite. No entanto, à medida que os boletins da pré-apuração chegavam, ficou claro que a eleição estava muito acirrada. Com 99% dos votos apurados, Cepeda estava atrás de seu oponente de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, por menos de 1% — nem mesmo 250 mil votos em mais de 25 milhões do total computado.

Quando os resultados da pré-contagem ficaram claros, Cepeda subiu rapidamente ao palco para acalmar os ânimos com um discurso que enfatizou a necessidade de contar cada voto nas trinta e três mil seções eleitorais antes de reconhecer a derrota. Ele também destacou a necessidade de um governo que busque unificar a nação e o fato de sua campanha ter atraído mais de um milhão de novos eleitores. Encerrou citando o presidente chileno assassinado, Salvador Allende: “A história é nossa e é feita pelo povo”. Após o discurso, a multidão irrompeu em aplausos e gritos de “Cepeda Presidente”.

Algumas horas depois, o rival de Cepeda, De la Espriella, vestindo a camisa da seleção colombiana de futebol que sua campanha adotou como símbolo, subiu ao palco na cidade litorânea de Barranquilla para proferir um discurso que só pode ser descrito como puro espetáculo. Falando de um camarote à prova de balas, cercado por uma projeção gigante de si mesmo fazendo uma saudação militar, De la Espriella falou da necessidade de reconciliar as diferenças e garantir os direitos da oposição, ao mesmo tempo em que lançava ameaças veladas àqueles que planejavam protestar pacificamente contra seu governo.

No entanto, De la Espriella dedicou a maior parte de seu discurso à retórica de lei e ordem que tem dominado as campanhas da direita em toda a região, atacando o processo de paz colombiano e os esforços do governo de Gustavo Petro para neutralizar grupos criminosos por meio do diálogo. Apesar de ter emitido uma declaração um dia antes ameaçando membros do Congresso que planejavam votar contra sua agenda neoliberal, De la Espriella encerrou o discurso enfatizando seu compromisso com a Constituição e com a governança para todos os colombianos.

Obstáculos legais, retórica violenta

Naquela noite, apoiadores de Cepeda foram às ruas protestar contra o que muitos consideravam uma eleição roubada pelas elites que governaram a Colômbia até a eleição de Petro em 2022. Os protestos ocorreram em cidades por toda a Colômbia, incluindo a capital, Bogotá, onde centenas de pessoas se reuniram em frente à Universidade Nacional da Colômbia e à Corferias, um dos maiores centros de votação do país. Advogados acompanharam os manifestantes para iniciar o processo de apuração e garantir que a recontagem refletisse com precisão os verdadeiros resultados dos votos depositados na eleição de domingo.

No momento em que este texto foi escrito, a apuração dos votos ainda estava em andamento. Mas é evidente que muitos colombianos sentem que o clima eleitoral foi hostil à campanha de Cepeda desde o início, devido a entraves burocráticos que não foram aplicados de forma igualitária a todos os candidatos, a um sistema político com corrupção enraizada e à interferência aberta de Donald Trump e dos setores mais reacionários de seu governo.

Desde o início da campanha, o Pacto Histórico, partido de esquerda que apoiou Cepeda, enfrentou obstáculos que a direita não encontrou. No ano passado, o partido teve que superar entraves legais ao se transformar de coalizão em partido formal. O Conselho Nacional Eleitoral, órgão eleitoral do país, inicialmente impediu que todos os partidos que o compunham se consolidassem em um único partido devido a um processo burocrático complexo que se arrastou por meses.

Após o término da batalha judicial e a consolidação do partido, este foi impedido de participar de primárias interpartidárias com outros partidos de esquerda e centro-esquerda. Em contrapartida, outros partidos de centro-direita foram autorizados a realizar primárias interpartidárias. Esse obstáculo legal impediu que a campanha ganhasse impulso e atraísse eleitores que poderiam ter votado nas primárias centristas.

Os apoiadores de Cepeda também destacaram a corrupção e as ameaças de violência endêmicas ao sistema político colombiano. No domingo, houve denúncias de compra de votos em várias partes do país. Essa prática, infelizmente, foi normalizada por muitos partidos de direita e tradicionais da Colômbia. Também houve relatos de irregularidades em seções eleitorais nas embaixadas colombianas no exterior, onde testemunhas observaram o uso de documentos de identidade falsos por eleitores em potencial, e pressão da campanha de De la Espriella em frente às seções eleitorais nos Estados Unidos, onde o candidato de direita obteve 80% dos votos.

A retórica de De la Espriella era agressivamente provocativa: ele prometeu desmantelar a esquerda e celebrou abertamente os grupos paramilitares que mataram quase cem mil pessoas no conflito armado do país. De la Espriella também recebeu o apoio do maior grupo armado ilegal do país, o Ejército Gaitanista de Colombia, também conhecido como Clã do Golfo.

O Departamento de Estado americano designou esta organização paramilitar de direita e de narcotráfico como um grupo terrorista. É um dos principais grupos sucessores da aliança paramilitar que De la Espriella representou em sua carreira como advogado. A organização exerce controle territorial em cidades por todo o departamento de Antioquia, região que foi fundamental para garantir a vitória de De la Espriella na pré-contagem de domingo.

Intervenção dos EUA

Obstáculos burocráticos, corrupção e retórica hostil já ocorreram de alguma forma em eleições anteriores. No entanto, a intervenção hiperagressiva do Departamento de Estado de Trump é algo exclusivo desta eleição, fazendo parte da “Doutrina Donroe”, um novo padrão de intervenção aberta dos EUA na região.

A Doutrina Donroe materializou-se na forma de apoio aberto a candidatos de direita em toda a região e ameaças de uso da força bruta para impor a vontade de Trump. Vimos a intervenção direta de Trump para apoiar a extrema-direita nas eleições na Argentina e em Honduras, combinada com ameaças de tomar o Canal do Panamá e o sequestro ilegal sem precedentes do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Ao longo de junho, a Colômbia testemunhou o pleno impacto da doutrina no processo eleitoral do país, a começar pela publicação de Trump no Truth Social em 2 de junho, na qual ele endossava De la Espriella. O presidente estadunidense afirmou que seu candidato preferido “teria enorme sucesso em levar a Colômbia a um crescimento econômico, à criação de empregos, à promoção do comércio, ao combate à imigração ilegal, à repressão ao crime e às drogas e à restauração da lei e da ordem”. Ele rotulou Iván Cepeda como um “marxista de esquerda radical” e declarou que a eleição era “muito importante para o futuro da Colômbia e para sua relação com os Estados Unidos”.

A publicação foi rapidamente republicada por diversos republicanos de origem hispânica nos Estados Unidos e por políticos colombianos de direita, inclusive na conta oficial da Embaixada dos EUA em Bogotá, o que configura o uso de recursos públicos estadunidenses para uma campanha política estrangeira. Nos dias que antecederam a eleição, Trump publicou mais mensagens semelhantes para manter seu apoio a De la Espriella em evidência no noticiário colombiano.

O apoio fez parte de uma estratégia mais ampla de Trump e seu governo para sustentar a agenda de extrema-direita de De la Espriella, que inclui uma longa lista de políticas direitistas, desde o fraturamento hidráulico em territórios protegidos até a privatização da saúde, a construção de megaprisões e a saída da Colômbia de instituições internacionais como a ONU e a Organização dos Estados Americanos. Outro elemento-chave da estratégia foi uma campanha de desinformação liderada pelo Subsecretário de Estado Christopher Landau e pelo próprio De la Espriella que defendia a revogação dos vistos de qualquer pessoa acusada por ele de manipular as eleições colombianas. Essa manobra foi usada para deslegitimar os apoiadores de Cepeda sem qualquer prova.

Uma das formas mais grotescas de intervenção do governo Trump foi a detenção do jornalista colombiano e solicitante de asilo Franklin Humberto Coral Garrido, conhecido como Beto Coral nas redes sociais. Agentes do Departamento de Segurança Interna detiveram Coral em 16 de junho, pouco depois de ele participar de um protesto organizado pela diáspora colombiana na Flórida contra De la Espriella.

Segundo o New York Times, Coral foi detido no mesmo dia em que o Secretário de Estado Marco Rubio assinou um memorando afirmando que sua presença nos Estados Unidos “prejudica os interesses da política externa estadunidense nos processos democráticos da Colômbia”. Tuítes publicados por De la Espriella pouco antes da prisão de Coral, que faziam alusão a notícias iminentes para a diáspora colombiana, indicam que ele pode ter estado diretamente envolvido na detenção.

Desde que foi detido, Coral tem sido transferido para vários locais. Segundo sua família, Coral denunciou abusos físicos por parte de agentes do Departamento de Segurança Interna durante a detenção e sofrido pressão para assinar sua própria ordem de deportação. Apesar disso, o senador estadunidense Bernie Moreno, nascido na Colômbia e aliado de De la Espriella, comemorou a detenção de Coral: “Você não pode vir para os Estados Unidos, pedir asilo e depois agir como um agente estrangeiro… Tenha uma boa vida de volta à Colômbia.”

A prisão de Coral enviou uma mensagem clara à diáspora colombiana nos Estados Unidos: quem se manifesta contra De la Espriella corre o risco de ser perseguido. Esse temor pode ter afetado a participação eleitoral de domingo entre a diáspora e até mesmo entre aqueles que possuem visto estadunidense, mas residem na Colômbia.

O império contra-ataca

No dia seguinte à eleição, o presidente Trump declarou vitória com orgulho: “Eu o apoiei. Ele estava em décimo lugar e ganhou a eleição”, acrescentando que De la Espriella ligou para agradecê-lo assim que os resultados foram divulgados e que as relações entre os Estados Unidos e a Colômbia agora seriam muito melhores. O senador Bernie Moreno também comemorou o resultado: ele insistiu que “QUALQUER cidadão colombiano que solicitou asilo deve retornar à Colômbia” e que De la Espriella garantirá sua segurança.

Se o resultado final confirmar o triunfo da extrema-direita, os colombianos poderão enfrentar um retorno a alguns dos períodos mais sombrios da história do país, dado o desprezo de De la Espriella pelos direitos humanos e pelas instituições democráticas. Após a intervenção de Trump no mês passado, o questionamento permanece: é realmente possível realizar eleições livres e justas na América Latina quando Washington interfere descaradamente no processo eleitoral?

 Leia mais