24 Junho 2026
Declaração foi feita pelo secretário Matheus Xavier em reunião na Câmara nesta terça (23), convocada pelo vereador Pedro Ruas (PSOL).
A reportagem é de Lucas Azeredo, publicada por Sul21, 23-06-2026.
Na manhã desta terça-feira (23), a Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab), discutiu na Câmara de Vereadores, a falta de urbanismo para as pessoas em situação de rua em Porto Alegre, além de medidas para aliviar os impactos de um inverno rigoroso. “Problema antigo de Porto Alegre com fenômenos que agravam a situação”, destacou o vereador Pedro Ruas (PSOL), presidente da Cuthab, em sua fala de abertura.
O encontro reuniu representantes de entidades sociais que trabalham com a população de rua e organizações como o Conselho Municipal de Assistência Social para debater o assunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas), o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) e a Guarda Civil Metropolitana (GCM). O Departamento Municipal de Habitação (Demhab) também foi convidado, porém não se fez presente.
Hoje, se estima que 7 mil pessoas estejam em situação de rua na Capital. Essas são informações disponíveis no Consulta, Seleção e Extração de Informações do Cadastro Único (Cecad), plataforma do Governo Federal em que as próprias pessoas definem sua condição socioeconômica. O Cecad também auxilia na identificação de indivíduos que possam receber benefícios de programas sociais.
Para Renato Farias dos Santos, membro da coordenação da Pastoral do Povo da Rua, presente na discussão, os dados podem estar subestimados. A razão se deve à quantidade de pessoas que desconhecem o Cecad. Já Matheus Xavier, secretário municipal de Assistência Social, também na mesa de debate, afirmou que é justamente o contrário.
“Não adianta dizer que tem 7 mil pessoas em situação de rua que, na minha humilde opinião, não é a realidade.”, afirmou o secretário. “A gente já tem, em diversos locais da cidade, fraudes em relação ao Cadastro Único para a população de rua”, acusou Xavier, alegando que pessoas utilizam o sistema para obter os benefícios do Bolsa Família.
“Em 2025, dentro dos nossos equipamentos, 5,8 mil pessoas foram atendidas. E, dessas pessoas, mais de 1 mil superaram a situação de rua”, garantiu Xavier.
Além da divergência sobre os dados, o secretário discordou da ideia de que a Capital não oferece vagas suficientes em serviços de acolhimento, ou que a Prefeitura não invista em uma estrutura qualificada.
Hoje, 445 pessoas estão em albergagem, com 363 recebendo acolhimento 24 horas, conforme os números da Smas, apresentados ao Conselho Municipal de Assistência Social.
“Nós tínhamos 250 vagas no início do ano passado e, hoje, temos mais de 450. Nossas casas de passagem, que eram para ser de três a seis meses, viraram abrigos quase permanentes. Nós abrimos mais de 150 vagas em casas de passagem, dobramos o atendimento 24 horas para a população”, ressaltou Matheus Xavier, afirmando que houve o incremento de R$ 20 milhões no orçamento municipal para essa pauta.
“Dentro desse ano e meio, em nenhum momento tivemos a lotação máxima desses equipamentos. Nós tínhamos uma média, desde o início da operação, de 80 vagas disponíveis por dia. Nos últimos dias, sobraram 20”, apontou o secretário.
Para Renato Farias, a “sobra de vagas” é resultado da regionalização dos albergues e outros pontos de assistência social, que acabam concentrados nas mesmas áreas de Porto Alegre. Ele exemplificou com o novo albergue no Ginásio Ararigboia, no bairro Petrópolis, com cem vagas.
Farias garantiu que as vagas logo vão se esgotar, contrariando a afirmação do secretário Matheus Xavier. “Quem mora no Menino Deus, quem mora na Cidade Baixa, não vai para a região do Floresta”, observou Renato.
O vereador Pedro Ruas chamou a atenção para outro problema dos albergues: o horário de saída. Todos os dias, às 7h da manhã, independente do clima ou estado da pessoa, é necessário sair do local. “Sair às 7h da manhã? Nesse frio? Tem gente que nem vai para o albergue para não ter que sair”, disse Ruas ao Sul21.
“Ok, [quem está lá] ganha uma sopa, ganha um banho, tem onde dormir. Mas sai às 7h da manhã e não tem para onde ir. Está na rua, está 6°, não tem sol, está chovendo…”, destacou o vereador, especialmente com a onda de frio dos últimos dias e que deve perdurar ao longo da semana, com riscos para essa população.
Em maio de 2025, Ruas denunciou a morte de dois homens em situação de rua na mesma noite ao Sul21. As vítimas, identificadas como André e “Mano”, estavam na rua Voluntários da Pátria e foram encontrados sem vida após uma madrugada de frio intenso na Capital. André morreu por conta de uma broncopneumonia — agudizada por hipotermia — e Mano foi vítima de hiportermia.
Para Matheus Xavier, a “narrativa” de que uma pessoa pode vir a falecer na rua nos períodos de maior frio é uma “falácia gigantesca”, uma vez que ela está em risco de vida todos os dias. “De janeiro até maio desse ano, 11 pessoas faleceram na rua. A situação de rua é extremamente desumana e perigosa”, afirmou.
Outra situação que atravessa a população de rua da Capital é a violência. Ela pode ser direta, como no caso de denúncias que a Cuthab recebeu contra agentes da Brigada Militar, ou subjetiva, como a arquitetura hostil em bancos de praça, viadutos e espaços que não permitem que pessoas em situação de rua encontrem conforto.
Sobre a Brigada Militar, Ruas informou que reclamações e queixas são “de violência e são, sim, em relação aos cobertores retirados e coisas do gênero”, assim como “há erros, sim, e são erros muito graves” que devem ser corrigidos pela gestão municipal. O que chega à Comissão é que, para além da violência física, brigadianos confiscam itens e cobertores.
Mas a crítica não é exclusiva à Brigada. O DMLU é acusado de, nas manhãs em que passam limpando as vias da Capital, molhar pessoas em situação de rua. Já a GCM estaria confiscando colchões, lonas, barracas e demais objetos. O superintendente-comandante adjunto da Guarda, Marcos Lucas, admite a ação de retirada, mas reitera que os guardas jamais confiscam pertences pessoais essenciais.
“Não adianta distribuir cobertores e esses cobertores serem retirados das pessoas. Não adianta o assistente social lutar para fazer um documento para a pessoa, porque daqui a pouco ela vai deixar a mochila pelo caminho. Ou destruir alguns espaços, como, por exemplo, o coreto“, enfatizou Renato Farias, chamando a atenção para o fim dos “espaços mínimos” usados pela população de rua para se proteger.
“Temos que ter soluções permanentes. Temos que pensar alternativas para que essas pessoas possam realmente sair da rua. Para onde vão essas pessoas?”, provocou.
Segundo o secretário de Assistência Social, quem quer sair da situação de rua em Porto Alegre tem acesso uma oferta de serviços e tem à disposição uma rede “extremamente completa” para retomar sua vida. Contudo, na avaliação do o secretário, há aqueles que não querem sair dessa condição, usam dela para cometer crimes ou abusar do sistema, o que demanda políticas públicas próprias.
“Nós temos que pensar todo o caminho da situação de rua, como a questão da saúde, como a questão da segurança, não só da assistência. É importante deixar muito claro também que o nosso principal desafio, junto com todas essas dificuldades que temos, é separar quem está em situação de rua e precisa de acolhimento, de quem usa da rua para cometer crimes”, avaliou Matheus Xavier.
Em tempo
Do jornal Zero Hora, editorial do dia 21-06-2026:
"O começo do inverno aprofunda uma disparidade social no Rio Grande do Sul e redobra a exigência de atenção a um problema cada vez mais comum nas cidades gaúchas. Enquanto parte da sociedade desfruta os atrativos típicos do frio, que movimentam parte importante da economia em regiões como a Serra, outra parcela, desamparada, sofre na pele os efeitos do clima gélido. Dados recentes mostram que a população vivendo nas ruas cresce em um ritmo alarmante.
Um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais, revela que esse contingente saltou 142,5% em cinco anos no Estado e somou, em 2026, 17,5 mil pessoas. Os números se baseiam nos registros do Cadastro Único (CadÚnico), do governo federal, e são classificados como “críticos” pelo relatório. Porto Alegre experimentou um crescimento ainda mais galopante: 253% a mais em meia década".
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