O mais-do-que-humanismo de Francisco e Leão compreende o humano em sua transcendência não apenas em relação a Deus, mas principalmente em seu ir-além em relação à autossuficiência, à autorreferencialidade, ao egoísmo, rumo ao encontro do outro humano e também do outro não humano. Um humano que é sempre mais-do-que-humano, por ser sempre abertura e relação.
A opinião é de Moisés Sbardelotto, professor da PUC Minas, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.
“Sejam humanos!”
Diante de um mundo considerado muitas vezes sem sentido, resignado, hipócrita ou agressivo, o Papa Leão XIV indicou aos jovens espanhóis presentes na vigília de oração em Madri no último dia 06 de junho um mandato imanentemente instigante:
“Perante o vazio da indiferença e do conformismo, perante a violência da guerra e da mentira, sejam vocês mesmos centelha de uma humanidade nova. Agora, quero confiar a todos vocês uma missão: que sejam humanos. Sim, sejam humanos! Homens e mulheres de carne e osso. Não aparências, mas rostos confiáveis. Pessoas que buscam a justiça porque têm fome dela, assim como do pão de cada dia. Pessoas que desejam uma vida honesta e reta, porque fazem de bom grado aos outros o que gostariam que os outros lhes fizessem. Sejam humanos como Cristo, o homem perfeito, o Ressuscitado que compartilha conosco a história em todos os tempos.”
A resposta papal diante da realidade não é ascendente, apontando para um céu abstrato, mas profundamente humana, cotidiana, pé-no-chão. Ser pessoa de carne e osso, de vida honesta, reta, bondosa. Ser humano como Cristo, um “homem perfeito”, que está ressuscitado, sim, mas nem por isso deixa de continuar compartilhando conosco a história humana.
As transformações culturais, tecnológicas e sociais do presente evocam em Leão o chamado a uma missão de humanidade nova, renovada. Em uma época marcada por diferentes formas de fuga e/ou de busca de superação do humano, o papa reitera que um mundo novo não nascerá de um afastamento da condição humana, mas justamente por meio de uma imersão radical nela.
Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, Leão XIV apresenta de modo mais articulado e profundo sua concepção de humanismo.
“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor” (MH 15).
A questão não é tecnológica, mas antropológica, como afirma o papa. O risco está quando a eficiência substitui a dignidade e quando a capacidade de cálculo passa a ser considerada mais importante do que a capacidade de cuidado. Ou seja, quando a experiência da condição tecno-humana se transforma em um paradigma tecnocrático, retomando dois conceitos importantes do Papa Francisco.
Por isso, diante de sistemas digitais altamente avançados, o papa usa a metáfora de Babel para denunciar e condenar a “absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência, do sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição” (MH 7). A imagem bíblica ilumina uma tentação antiga e arquetípica: a construção de um mundo em que o poder humano perde sua referência em relação à alteridade e transforma suas próprias competências em medida última da realidade. O antídoto, porém, não está na negação ou na fuga da técnica, mas em outro modo de habitar a própria condição humana, aceitando “os limites e a fragilidade da humanidade, sem os considerar um erro a corrigir” (MH 12).
Ser e permanecer profundamente humano é compartilhar a mesma humanidade comum, a mesma dignidade infinita de todas as pessoas, sem distinções nem privilégios, muito menos exclusões. A “magnífica humanidade” de que fala Leão XIV encontra sua expressão justamente no reconhecimento da própria incompletude e insuficiência, da igual dignidade alheia e da total interdependência que nos constitui (“‘tudo está interligado’ e ‘ninguém se salva sozinho’”, como reitera Francisco na Laudate Deum, n. 19).
A imanência do humano, portanto, é aberta, e não fechada, àquilo que a transcende. “A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros” (MH 122). Segundo Leão XIV, “há séculos que a tradição cristã afirma que o ser humano não está confinado aos limites da própria natureza, mas é chamado a transcender-se a si mesmo: não para fugir da realidade ou por desprezo dos limites, mas para se realizar no amor” (MH 127).
Não se tratando de uma imanência fechada em si mesma nem apenas transcendente em relação a si mesma, é também aberta ao Transcendente por excelência. Na leitura de Leão, “a fé conhece um ‘além’ que nasce do dom de Deus” (MH 127). Quando o pensamento de Leão ascende ao divino, o exemplo maior continua sendo a imanência transcendente (ou seria melhor dizer a transcendência imanente?) do homem Jesus, “a carne do Filho, pobre e vulnerável”.
Para o papa, justamente “nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu” (MH 231). A própria salvação cristã não vem de uma desumanização espiritualizante, mas sim de uma humanização plena, cuja medida é a perfeição humana do próprio Jesus de Nazaré, em sua confiabilidade, justiça, honestidade, retidão, como afirmou o papa aos jovens espanhóis.
Em sua imanência divinamente criada, o ser humano é capaz de (se) transcender: “Quando aceitamos esta possibilidade de nos transcendermos a nós mesmos com a graça de Deus, não nos negamos a nós próprios nem nos tornamos menos humanos” (MH 128).
À luz dessas reflexões, podemos dizer que Leão XIV compartilha com o Papa Francisco a perspectiva daquilo que poderíamos chamar de “mais-do-que-humanismo”. A respeito disso, Leão cita seu antecessor: “Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro” (MH 128).
O papa estadunidense continua: “Aqui reside a diferença radical em relação aos sonhos prometeicos: o que salva o ser humano não é a autossuficiência aperfeiçoada, mas uma relação que liberta, uma comunhão que transforma”. Esse mais-do-que-humanismo compreende o humano em sua transcendência não apenas em relação a Deus, mas principalmente em seu ir-além em relação à autossuficiência, à autorreferencialidade, ao egoísmo, rumo ao encontro do outro humano e também do outro não humano. Um humano que é sempre mais-do-que-humano, por ser sempre abertura e relação.
Essa capacidade humana de transcendência deriva da própria escolha divina de imanência, de um Deus que se humaniza por amor. “O que salva o ser humano é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente” (MH 232). Parafraseando Leonardo Boff, todo ser humano sempre quis ser rei, e todo rei sempre quis ser Deus, mas só Deus quis ser humano. A humanidade, à luz da fé cristã, é divina por geração e por opção. E por isso também é magnífica.
Em meio à era das inteligências artificiais generativas, das crises ambientais e da fragmentação social, o desafio, portanto, é “permitir o crescimento da técnica sem deixar regredir o coração” (MH 126), ou seja, sem abrir mão daquilo que mais nos caracteriza como humanos: a capacidade de sentir-com e de amar.
Nesse horizonte, o mais-do-que-humanismo de Francisco e Leão – que identificam, ambos, a crise contemporânea como uma crise das relações humanas que se manifesta também no campo técnico – aponta para a necessidade de uma humanidade nova em sua abertura, relacionalidade, fraternidade incondicionais. A pessoa humana é e permanece sempre em construção, porque sua identidade emerge de suas relações: com os outros, com o mundo criado, com Deus. A magnífica humanidade, divinamente desejada e compartilhada, se manifesta precisamente nesse movimento de abertura, no qual a vulnerabilidade se transforma em possibilidade e capacidade de comunhão.
Esse mais-do-que-humanismo é uma resposta teológica direta ao transhumanismo tecnológico contemporâneo: enquanto este busca a superação da finitude através do melhoramento e da autossuficiência maquínicos, o magistério de Francisco e Leão XIV aponta que o verdadeiro salto para além de nós mesmos não se dá pela negação da fragilidade da nossa carne, mas pela sua transfiguração no encontro com o Outro. Ao abraçar a vulnerabilidade em vez de tentar extirpá-la maquinicamente, esse pensamento deixa uma fresta para uma provocação ainda mais radical: a de que o cristianismo, longe de ser guardião de um humanismo estático e anacrônico, reconhece o humano como realidade sempre aberta, em transformação e convidada a participar de uma vida que ultrapassa seus próprios limites, inclusive a morte. Como afirma Ilia Delio, na Magnifica humanitas “Leão lançou as bases antropológicas para um argumento mais ousado”, embora não o desenvolva mais profundamente.
De nossa parte, poderíamos dizer que a fé cristã traz em si as sementes de um “pós-humanismo cristão”, não aquele que abandona o humano pelo maquínico, mas aquele que o compreende como criatura em contínuo processo de criação. Ou, nas palavras de Teilhard de Chardin, um “ultra-humanismo”, que compreende o humano em uma evolução convergente rumo a uma maior complexidade e consciência.
E se a novidade radical do cristianismo estiver justamente em afirmar que o humano nunca foi apenas humano? E se sempre fomos pós-humanos, ultra-humanos, e por vontade divina? Por enquanto, fica a pergunta, a ser aprofundada em outro momento.