16 Junho 2026
A guerra no Irã caminha para um fim sem vencedores, mas o acordo de cessar-fogo tem um claro perdedor: Benjamin Netanyahu.
A reportagem é de Antônio Pita, publicada por El País, 16-06-2026.
O grau de fracasso estratégico da campanha que ele lançou em fevereiro, juntamente com os Estados Unidos, tem poucos precedentes na história de Israel. Além disso, para Netanyahu — que esteve no poder por quase 19 dos 78 anos do país —, atacar a República Islâmica não era apenas um "sonho" de quatro décadas (em suas próprias palavras) para o qual ele não tinha um parceiro disposto na Casa Branca. Se tivesse sido bem-sucedido, teria sido uma espécie de redenção pessoal e política pelo outro imenso fiasco de segurança de seu mandato: o ataque do Hamas em outubro de 2023. Os poderosos serviços de inteligência não conseguiram antecipar o plano surpresa, e os militantes palestinos tiveram horas para matar e sequestrar quase 1.500 pessoas antes da chegada dos reforços necessários.
Netanyahu é o único líder, político ou militar, daquele dia que não renunciou nem pediu desculpas, e também obstruiu uma comissão estatal independente de inquérito sobre o assunto. A vitória sobre o Irã teria sido o ápice de sua tentativa de reformular a narrativa em torno daquele dia: do mais sangrento da história de Israel ao alvorecer de um novo Oriente Médio.
Quatro meses antes das eleições, nas quais as pesquisas indicam que é improvável que ele mantenha sua atual coalizão governista, Netanyahu tentou, na segunda-feira, em sua primeira coletiva de imprensa em três meses, apresentar-se ao povo israelense como seu salvador e convencê-lo do sucesso da campanha militar. "Que fracasso? Olhem para Israel em 7 de outubro e agora. Como vocês podem comparar?", afirmou ele em seu tom defensivo habitual diante da imprensa. "Não cometi nenhum erro."
O principal sucesso da operação, ressaltou Netanyahu, foi ter salvado os israelenses da "ameaça imediata de aniquilação", pois o Irã "já teria a arma nuclear". Ele vai ter que usar muita linguagem rebuscada ultimamente — ou tirar um de seus melhores truques da cartola — porque o pacto entre Teerã e Washington não cumpre nenhum dos objetivos pelos quais Israel promoveu a guerra e acabou transformando a — às vezes constrangedora — lua de mel de Netanyahu e Trump em ordens e insultos semanais.
"Israel agora está pagando o preço pela rodada de confrontos com o Irã, na qual Trump esteve envolvido. O homem que prometeu vitória total e afirmou que o regime cairia, o homem que pensou que seria um passeio no parque, no qual a superioridade militar, aérea e operacional israelense-americana sobre o Irã produziria um resultado esmagador e absoluto, agora está juntando os cacos de sua própria arrogância e esperando sobreviver", escreveu o conhecido comentarista do jornal Maariv, Ben Caspit, na segunda-feira.
Na manhã de segunda-feira, os arquivos são implacáveis com Netanyahu. Após a guerra anterior no Irã, em junho de 2025, ele falou de "uma vitória histórica que durará por gerações", tendo "eliminado duas ameaças existenciais": armas nucleares e 20.000 mísseis balísticos. Levou-lhe pouco mais de oito meses para lançar a operação que agora termina contra a sua vontade. "O objetivo da operação é eliminar a ameaça representada pelo regime do aiatolá no Irã", disse ele ao lançá-la. "Ela continuará pelo tempo que for necessário. Se não os detivermos agora, eles se tornarão invulneráveis."
Promessas
Um dos representantes desse mesmo regime iraniano apertará a mão de Trump nesta sexta-feira em Genebra, quando o acordo for finalizado. O Irã resistiu ao assassinato de seu líder supremo, Ali Khamenei, e a semanas de bombardeios por duas das forças armadas mais poderosas do mundo. Promessas de manifestações em massa nas ruas do Irã, um avanço curdo a partir do Iraque ou uma operação militar para apreender urânio enriquecido não se concretizaram ou foram abortadas.
Netanyahu não possui uma única conquista significativa em seu currículo, nem mesmo em sua principal bandeira: o programa nuclear iraniano. Há anos, ele retrata o país como uma ameaça à humanidade, prestes a desenvolver uma bomba nuclear, contradizendo as avaliações de especialistas e de seus próprios serviços de inteligência. No fim, o acordo deixa a questão em aberto para negociação nos próximos 60 dias. O programa não será interrompido e não está claro como o material nuclear com enriquecimento acima de 60% será diluído.
Foram dois meses de guerra e mais dois de cessar-fogo, para no fim retornar a algo aparentemente semelhante ao acordo nuclear de Barack Obama. O mesmo acordo que o presidente americano abandonou durante seu primeiro mandato e contra o qual Netanyahu fez manobras, chegando ao ponto de se aproveitar do controle republicano da Câmara dos Representantes dos EUA para discursar lá, incitando-os a sabotá-lo. Tudo isso a um custo diário para o tesouro israelense de um bilhão de shekels (quase 300 milhões de euros) apenas em despesas militares.
Futuro
Amos Harel, comentarista de defesa do jornal Haaretz, escreveu na segunda-feira que, "após o fracasso desta guerra", é difícil "imaginar que qualquer futuro presidente dos EUA — provavelmente também menos amigável a Israel — apoiaria um primeiro-ministro israelense em uma futura guerra com o Irã, no cenário bastante plausível de que o regime possa um dia decidir construir uma bomba nuclear".
Antes da guerra, Netanyahu também falou — e longamente — sobre duas outras questões: o programa de mísseis balísticos de Teerã e seu apoio às milícias aliadas no Oriente Médio. Meses depois, essas duas questões estavam tão ausentes das negociações com Teerã que até Netanyahu parou de mencioná-las. Elas sequer constam do texto do memorando de entendimento a ser assinado em Genebra.
A guerra também significou o colapso da relação de Netanyahu com Trump. O primeiro-ministro israelense sabia como bajulá-lo com seu inglês impecável e alimentar seu ego: sugeriu que ele era o melhor dos 45 presidentes que os EUA já tiveram e o indicou ao Prêmio Nobel da Paz. O sentimento era mútuo. Há apenas seis meses, Trump chamava Netanyahu de "herói" e pressionava o presidente israelense, Yitzhak Herzog, para que lhe concedesse indulto nos três casos de corrupção em que era acusado. Mas quando seus interesses em relação ao Irã divergiram, ele o abandonou à própria sorte e começou a insultá-lo semana após semana. Nos últimos oito dias, chamou-o de "maluco do caralho" e "um cara muito complicado" sem "um pingo de bom senso".
Assim, nesta segunda-feira, o novo Oriente Médio prometido por Netanyahu há quase três anos consiste no Hamas ainda detendo o poder em partes de Gaza; no Hezbollah lutando contra as tropas israelenses no sul do Líbano; e no regime de Teerã emergindo vitorioso, fortalecido e com sua economia estrangulada prestes a receber milhões de dólares com o desbloqueio de seus fundos em bancos ao redor do mundo. Enquanto isso, o Israel de Netanyahu matou quase 80.000 pessoas em Gaza, Líbano, Síria e Cisjordânia; ocupa mais território do que nunca desde 1982 ("indefinidamente" no Líbano e na Síria, como enfatizou o Ministro da Defesa Israel Katz nesta segunda-feira); e enfrenta um processo por genocídio no Tribunal Penal Internacional em Haia, com o próprio Netanyahu preso como suspeito de crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza.
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