Bernardino de Sahagún, o desconhecido frade espanhol que preservou a memória dos indígenas do México

Bernardino de Sahagún (Fonte: Wikimedia Commons)

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29 Mai 2026

O frade espanhol Bernardino de Sahagún (1499–1590), uma figura pouco conhecida no México e ainda menos na Espanha, teve um papel essencial como “guardião da língua náhuatl”. Assim o define, em seu subtítulo, a biografia escrita pelo conhecido historiador e divulgador mexicano Juan Miguel Zunzunegui, publicada pela Fundação Banco Santander em sua coleção Biografias de História Fundamental.

A reportagem é de Fernando Díaz de Quijano, publicada por El Cultural, 27-05-2026.

Zunzunegui, que está nesses dias em visita à Espanha e com quem também conversamos sobre outro livro que veio apresentar, sobre Hernán Cortés, detalhou, nesta terça-feira, na sede da fundação, o importantíssimo trabalho de Bernardino de Sahagún, um homem que dedicou 60 anos de sua vida a preservar a língua e a cosmovisão dos povos nahuas, após a conquista do México. “Não trabalhou para a Igreja, nem para a Coroa, nem para o seu próprio ego, mas para os indígenas”, afirma o autor de sua biografia.

Bernardino de Sahagún (nome adotado a partir da localidade leonesa onde nasceu, embora seu nome real fosse Bernardo de Rivera) embarcou rumo à Nova Espanha, atual México, em 1529. Fez isso como parte de uma segunda leva de missionários franciscanos, depois que Frei Antonio de Ciudad Rodrigo retornou à Espanha para buscar mais religiosos que auxiliassem nas tarefas de evangelização.

Realizou a travessia no mesmo navio em que retornavam à Nova Espanha os 400 indígenas tlaxcaltecas que haviam acompanhado Hernán Cortés em sua primeira viagem de volta à península. “Teve 14 semanas de viagem para conhecê-los e ir se apropriando de sua língua, uma língua complexíssima que ninguém jamais havia ouvido e que não estava relacionada a nenhuma outra”, explica Zunzunegui.

A obra de Sahagún, especialmente sua monumental História Geral das Coisas da Nova Espanha, é considerada precursora da etnografia e da antropologia modernas. Segundo Zunzunegui, o missionário não apenas buscava evangelizar, mas também desenvolveu um método inovador baseado em entrevistas, questionários e colaboração com sábios indígenas para documentar uma cultura que corria o risco de desaparecer.

Bernardino de Sahagún entendeu que quando uma civilização perde sua memória, perde também sua alma”, afirma o autor, destacando a relevância do frade na construção da identidade mexicana.

Uma ponte entre dois mundos

O livro aprofunda como Sahagún, formado na Universidade de Salamanca, tornou-se um elo cultural sem precedentes. Entre seus feitos, destaca-se a fundação do Colégio de Santa Cruz de Santiago Tlatelolco, em 1536, o primeiro projeto educacional mestiço das Américas destinado às elites indígenas, onde se ensinava gramática, retórica e latim, enquanto os frades aprendiam a língua náhuatl.

Zunzunegui enfatiza que esse esforço intelectual desmente a ideia de uma imposição cultural absoluta: “Compreender Sahagún ajuda a entender que não houve uma conquista como tal, mas um processo de migração, mistura, fusão e mestiçagem”.

O autor acrescenta uma reflexão contundente sobre a intenção desses missionários: “Você não elabora a gramática da língua de um povo que deseja exterminar. Você elabora a gramática da língua de um povo com o qual deseja se entender”.

Zunzunegui sustenta que Sahagún “é um homem excepcional, mas não é uma exceção. Como ele, havia outros 200 frades entregues de corpo e alma, convencidos de que era preciso proteger esses povos”.

O autor do livro ressalta que, ao pisar pela primeira vez em Veracruz, Sahagún estava descalço. Essa prática era compartilhada por outros frades da ordem franciscana. Zunzunegui menciona, por exemplo, que Frei Junípero Serra também chegou descalço e caminhou nessas condições da Cidade do México até a Califórnia, fundando missões ao longo do caminho. O próprio Sahagún, acrescenta o autor, chegou a subir o vulcão Popocatépetl, a mais de 5.000 metros de altitude, e certamente foi “descalço ou com sandálias”.

Perseguição e legado esquecido

Apesar de sua importância fundamental, Sahagún enfrentou sérios obstáculos. Foi perseguido pela Inquisição e teve seu trabalho confiscado por seus superiores, que consideravam seu interesse pelas tradições indígenas suspeito de “conivência” ou até mesmo de ser “satânico”. Sua obra permaneceu praticamente esquecida por quase 400 anos, até ser recuperada por pesquisadores no século XX.

Francisco Javier Expósito, responsável pela área de História na Fundação Banco Santander, descreve Sahagún como “um aventureiro do espírito que exerceu sua humanidade desenvolvendo uma atividade sobre-humana até os 90 anos”.

O volume não apenas narra sua biografia, mas também explora mitos fundacionais como a morte do Quinto Sol e a queda de Tenochtitlán, situando o leitor no complexo contexto do século XVI.

Com esse lançamento, busca-se não apenas homenagear um “conector de mundos”, mas também recordar que “somos um só povo”, com uma história compartilhada.

Juan Miguel Zunzunegui explica que suas principais fontes para a redação do livro foram os trabalhos de Ángel María Garibay e de seu discípulo mais destacado, Miguel León-Portilla, a quem define como os dois grandes sábios mexicanos do náhuatl.

O autor destaca que Garibay foi um sacerdote e filólogo pioneiro na primeira metade do século XX, enquanto classifica León-Portilla como uma “mente extraordinária”, fundamental por sua capacidade de traduzir e resgatar a obra de Sahagún do náhuatl, tornando compreensíveis ao público moderno textos tão complexos como o Códice Florentino.

Além dessas referências, Zunzunegui menciona ter recorrido à edição de Francisco del Paso y Troncoso da própria obra de Sahagún, bem como às crônicas de Jerónimo de Mendieta e Torquemada.

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