O jesuíta Castiglione enfeitiçou a Cidade Proibida: uma de suas pinturas agora vale 20 milhões de euros

Foto: Cencial | Pexels

Mais Lidos

  • O colapso do capitalismo, a necessidade de pensar novos mundos. Entrevista com Sabrina Fernandes

    LER MAIS
  • Parque Nacional do Albardão inspira encontro sobre preservação, fotografia e turismo regenerativo

    LER MAIS
  • Leão XIV concede a mais alta honraria diplomática ao embaixador do Irã — em meio à guerra

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Mai 2026

Uma pintura do clérigo que viveu na corte imperial chinesa no século XVIII bateu o recorde em um leilão em Hong Kong. É o capítulo mais recente de uma história repleta de aventuras, que também se cruza com os eventos da revolução.

A reportagem é de Gianluca Modolo, publicado por La Repubblica, 13-05-2026

Pintada para o Imperador Yongzheng. Escapou, séculos depois, do terrível incêndio que assolou a Cidade Proibida. Levada por outro imperador — o último — Puyi. Mais tarde, dada de presente ao filho de um dos mais poderosos senhores da guerra que governaram a China nas décadas de 1910 e 1920. E, posteriormente, também fez parte da coleção de Soong Mei-ling, esposa de Chiang Kai-shek, o generalíssimo nacionalista e opositor de Mao Tsé-Tung durante a Guerra Civil Chinesa. “Encontro de Dois Sinais Auspiciosos”, uma rara pintura do pintor jesuíta italiano Giuseppe Castiglione, parece saída diretamente de um romance. A obra foi vendida por quase 180 milhões de dólares de Hong Kong (20 milhões de euros) em um leilão da Sotheby's na antiga colônia britânica: um recorde para as obras do artista. O comprador permanece anônimo por enquanto. “Um licitante por telefone, representado por Nicolas Chow, presidente da Sotheby's Ásia, comprou o imóvel por HK$ 179,9 milhões”, segundo a revista chinesa Caixin.

Detalhe da pintura "O Encontro de Dois Signos Auspiciosos", de Giuseppe Castiglione, que foi leiloada em Hong Kong.

A pintura, criada em 1723, está entre as primeiras obras de Castiglione para a corte Qing que sobreviveram. Castiglione desembarcou em Macau alguns anos antes, em 1715, e depois seguiu para Pequim, adotando o nome de Lang Shining. Trabalhou na corte Qing (a última dinastia chinesa) por mais de 50 anos, tornando-se um dos pintores mais influentes da época e servindo a três imperadores (Kangxi, Yongzheng e Qianlong). Faleceu em Pequim em 1766 e está sepultado na capital chinesa.

"O estilo artístico de Castiglione fundiu a técnica ocidental com o gosto e a temática chineses. Muitos dos eventos históricos mais significativos de meados da dinastia Qing foram imortalizados para a posteridade através de seu pincel", observa a Sotheby's na descrição do produto. O encontro de dois sinais auspiciosos foi tão bem recebido que, poucos dias após Castiglione concluir a pintura, um decreto imperial concedeu-lhe seis alunos aos quais ele poderia ensinar pintura.

Existe uma pintura gêmea (atualmente na coleção do Museu do Palácio de Taipei) criada durante o mesmo período, bem como uma terceira pintura, também com o mesmo título, criada no terceiro ano do reinado do Imperador Yongzheng (atualmente na coleção permanente do Museu de Xangai). As flores de lótus e outras plantas representadas no vaso simbolizam o governo virtuoso do Imperador Yongzheng e sua legitimidade como sucessor ao trono imperial.

"Historiadores consideram esta obra destinada a fortalecer a legitimidade divina do imperador após uma disputa turbulenta e rumores de que o decreto imperial que o nomeava herdeiro havia sido forjado", relata a imprensa chinesa.

Após a morte de Qianlong, o Imperador Jiaqing ordenou que a pintura fosse preservada no Palácio Jianfu da Cidade Proibida. Com a queda da Dinastia Qing e o início da era republicana na China, a pintura escapou milagrosamente da série de roubos que assolavam o palácio e do incêndio que o devastou em 1923. No ano seguinte, Puyi, o último imperador da China, foi expulso da Cidade Proibida e levou a pintura consigo para a cidade de Tianjin. Ele então a doou a Zhang Xueliang, filho de Zhang Zuolin, um dos mais importantes "senhores da guerra". Zhang, posteriormente, a repassou para a influente família Soong. A obra permaneceu na posse de Soong Mei-ling, esposa de Chiang Kai-shek, "permanecendo na família Soong desde então até seus últimos anos", como explica a Sotheby's. "A casa de leilões Sotheby's adquiriu a pintura diretamente da família Soong", explica a Caixin.

Leia mais