Capital e crime organizado contra o povo. Artigo de Raúl Zibechi

Juan Orlando Hernández (Fonte: Reprodução | Youtube)

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12 Mai 2026

“O escândalo Hondurasgate nos permite justamente isso: compreender as entranhas do sistema e confirmar nossas suspeitas mais obscuras, aquelas que muitas vezes não podemos sustentar por falta de informações suficientes. Entre elas, está a estreita colaboração entre o capital e o crime organizado, uma aliança operacional abençoada por Estados e impérios.” A reflexão é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por Desinformémonos, 11-05-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Raramente o poder se mostra nu, revelando suas secreções pestilentas, aquelas que se esforça para ocultar com o apoio submisso da grande mídia e das instituições estatais. Quando isso acontece, temos a oportunidade de compreender as formas de opressão e violência que nos assombram. Em suma, podemos jogar luzes sobre as práticas mais repugnantes, aquelas que jamais serão expostas publicamente.

O escândalo Hondurasgate nos permite justamente isso: compreender as entranhas do sistema e confirmar nossas suspeitas mais obscuras, aquelas que muitas vezes não podemos sustentar por falta de informações suficientes. Entre elas, está a estreita colaboração entre o capital e o crime organizado, uma aliança operacional abençoada por Estados e impérios. Trinta e sete áudios, datados entre janeiro e abril de 2026, foram divulgados, nas quais uma voz identificada como a do ex-presidente Juan Orlando Hernández afirma que seu indulto foi obtido por intermédio do governo israelense.

Há muito tempo, com base nos acontecimentos na Colômbia no contexto da repressão à esquerda e às guerrilhas, observamos uma colaboração ativa entre grandes corporações, militares, paramilitares e o crime organizado. Em julho de 2025, o sistema judiciário colombiano proferiu uma sentença histórica em que condena sete ex-executivos da multinacional Chiquita Brands International por financiarem grupos paramilitares na região de Urabá entre 1997 e 2004. A empresa pagou mais de US$ 1,7 milhão às Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo paramilitar que assassinou camponeses e ativistas comunitários.

Mais recentemente, dois altos funcionários da empresa Desarrollos Energéticos SA (DESA) foram condenados a, respectivamente, 22 e 30 anos de prisão, como coautores do assassinato da ativista ambiental Berta Cáceres, em Honduras, morta por sua oposição ao projeto hidrelétrico de Agua Zarca, no Rio Gualcarque.

Temos também uma série de investigações sobre a relação entre o Estado e o capital com o crime organizado, particularmente com o narcotráfico, que esclarecem de forma contundente essas ligações. Dawn Paley publicou Capitalismo antidrogas: Uma guerra contra o povo em 2020, no qual analisa como a guerra às drogas no México é, na verdade, uma guerra contra os movimentos populares. Em suma, existe um vasto material empírico e analítico sobre o assunto.

O que o escândalo Hondurasgate revela é que os próprios perpetradores estão sendo desnudados. O indulto do ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, após ter sido comprovado que ele facilitou o envio de cerca de 400 toneladas de cocaína em conluio com cartéis como o de Sinaloa, é um excelente exemplo disso. O indulto de Trump serve a vários propósitos: primeiro, atacar os governos progressistas na região, tanto em Honduras quanto no México e no Brasil, países onde atualmente estão no poder.

Segundo propósito: o Pentágono espera transformar Honduras em um enclave estratégico para sua interferência na região. Além da Base Aérea de Palmero, os Estados Unidos pretendem construir outra e expandir as Zonas Econômicas Especiais (ZEDs), com o objetivo de bloquear a influência chinesa na região. Washington já conseguiu limitar a presença da China no Canal do Panamá e agora se prepara para estabelecer uma base militar no porto de Callao, no Peru, para contrabalançar o porto de Chancay, construído pela China. Para isso, o império planeja gastar até US$ 1,5 bilhão.

Mas a questão central, do meu ponto de vista, é como os áudios revelam a proposta de realizar “caçadas” contra os opositores ou a exigência de sangue (“sangue é necessário”, diz Hernández, “para manter as pessoas sob controle”). O ex-presidente invoca Trump e Javier Milei, assim como Pablo Escobar, para justificar a necessidade de controlar o povo hondurenho por meio da violência.

Por fim, essa rede violenta e repressiva conta com o apoio de igrejas evangélicas, como acontece em toda a região. “São as igrejas que garantirão que o passado seja esquecido. E que as pessoas pensem que foi a esquerda que fez isso”, diz Hernández, como parte da batalha cultural em curso. O objetivo dos Estados Unidos é o controle militar dos recursos estratégicos para se reposicionar na região, conter a China e reverter seu declínio hegemônico.

Sei que muitos dirão que já sabíamos disso. Que a longa experiência da Colômbia, do México e das favelas do Brasil testemunha essa aliança entre capital, Estado e crime organizado contra os povos e a esquerda. A diferença, a meu ver, é que com o caso Hondurasgate há um reconhecimento explícito dessa aliança e que o objetivo não é outro senão destruir os movimentos dos povos. E, se necessário, os próprios povos, com o apoio de Israel.

Por essa razão, não devemos separar o Estado do narcotráfico e dos interesses comerciais. Todos fazem parte do capitalismo. Este é o capitalismo que de fato existe, aquele que causa genocídio e morte, o sistema que aspira a apagar povos e territórios inteiros. Devemos nos lembrar disso quando falamos de cidadania e direitos humanos, quando insistimos em exigir justiça de um Estado que jamais a proporcionará porque, como demonstra o caso de Honduras, está a serviço do grande capital ao lado do crime organizado.

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