11 Mai 2026
Dez dias após serem detidos por soldados israelenses em águas internacionais a bordo de uma embarcação de bandeira italiana da Flotilha Global Sumud, Thiago Ávila e Saif Abu Keshek estão sendo transferidos da prisão de Ashkelon para um centro de deportação e podem ser enviados de volta aos seus países de origem ainda hoje. As autoridades de Tel Aviv não anunciaram oficialmente a notícia, mas na manhã de ontem, o Shabak (agência de inteligência interna de Israel) comunicou a decisão à ONG Adalah, que ofereceu apoio jurídico aos dois membros da Flotilha durante todo o período de detenção.
A informação é de Mario Di Vito, publicada por il manifesto, 10-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
A confirmação veio também do Ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, que informou Sally Issa, esposa de Abu Keshek, sobre a iminente libertação dos dois. A decisão foi tomada após diversos apelos contra o que desde o início pareceu ser um ato arbitrário. Houve diversas pressões, inclusive da ONU, sobre Israel, o que, na prática, apenas confirmou seu modus operandi para tais situações: detenções breves e nenhum verdadeiro processo.
Afinal, trata-se apenas de uma questão de conveniência. Muitos problemas diplomáticos sem nenhuma vantagem clara.
"Saudamos essa notícia como uma vitória da mobilização popular e da pressão constante exercida em todo o mundo nos últimos dias", informam da Sumud. "Mas não vamos parar de protestar até que Saif e Thiago estejam finalmente em casa, sãos e salvos."
A expulsão provavelmente ocorrerá pela passagem de fronteira de Taba, no Egito. De lá, serão organizados voos de volta para os respectivos países. Neste exato momento, tanto a equipe jurídica da expedição humanitária quanto os governos dos países de origem dos dois ex-detentos estão trabalhando em sua repatriação. "Continuaremos a exigir explicações da União Europeia sobre o ocorrido", insistem da Flotilha, "e sanções imediatas contra Israel por esse sequestro ilegal e pelas contínuas violações do direito internacional e dos direitos humanos do povo palestino."
A prisão do brasileiro Ávila e do espanhol-palestino Abu Keshek ocorreu a 1.000 quilômetros das águas territoriais israelenses, e nenhuma acusação formal foi apresentada contra eles, embora tenham se falado de acusações de "ajuda ao inimigo em tempos de guerra", "participação em organização terrorista", "favorecimento de uma organização terrorista" e "contato com um agente estrangeiro". No entanto, durante as audiências no tribunal de Beer Sheva (a última estava marcada para esta manhã, mas não aconteceu), os documentos eram classificados e os advogados da Adalah não puderam ter acesso a eles. Em protesto, os prisioneiros iniciaram uma greve de fome após a prisão, e Abu Keshek decidiu parar de beber durante a última audiência, que ocorreu há três dias, depois que os guardas se recusaram a lhe trazer água na sala do tribunal, apesar dos repetidos pedidos de seu advogado.
Além disso, as condições de detenção foram bastante severas. Segundo seus advogados, Ávila e Abu Keshek foram mantidos em celas geladas com as luzes acesas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eles foram repetidamente interrogados pelo Shabak, que buscava informações sobre as atividades da Flotilha. Fortes protestos contra o comportamento de Israel vieram tanto da Espanha quanto do Brasil. O ministro Albares convocou duas vezes a encarregada de negócios de Tel Aviv a Madri para exigir a libertação imediata dos detidos, enquanto o presidente brasileiro Lula falou em "detenção injustificável" e "grave violação do direito internacional".
Reações bem menos veementes vieram da Itália, onde, mesmo assim, a Procuradoria de Roma abriu um processo por sequestro de pessoa. Os procuradores Lucia Lotti e Stefano Opilio também estão investigando o que aconteceu com a Flotilha em outubro passado, que também foi interceptada por Israel. Os supostos crimes no caso incluem tortura, sequestro, roubo e dano com risco de naufrágio. Os documentos traduzidos dessa investigação finalmente chegaram ao Ministério da Justiça, que agora terá que decidir se encaminha ou não a carta rogatória a Israel, buscando uma improvável cooperação judicial para descobrir os nomes dos soldados que intervieram e que, portanto, deveriam ser incluídos no registro de suspeitos.
Por isso, a Flotilha exige "esclarecimentos do governo italiano a respeito dos eventos em águas internacionais e em embarcações que arvoram a bandeira italiana, para apurar todas as responsabilidades e para que se tome uma posição imediata e clara sobre a suspensão dos acordos com Israel". Ninguém no governo parece disposto a dar tal passo, e também se mantém em silêncio sobre as cartas rogatórias pedidas pela Procuradoria de Roma. O Ministério da Justiça tem o poder de bloqueá-las se considerar que a segurança nacional está em risco. Se a investigação continua ou não, portanto, será uma escolha política.
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