08 Mai 2026
Se tudo correr bem, a nova Flotilha Global Sumud voltará a navegar amanhã de manhã. Partirá do porto de Ierapetra, na costa sul de Creta, para velejar em direção à cidade turca de Marmaris. Após ser interceptada pela marinha israelense na fronteira entre as águas internacionais e gregas — e depois que 181 membros da expedição, incluindo este que escreve, foram detidos por duas noites e um dia em um navio-prisão de Tel Aviv — a missão humanitária está agora pronta para zarpar novamente.
A reportagem é de Andrea Sceresini, publicada por il manifesto, 07-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O objetivo, neste momento da missão, é navegar as mais de 150 milhas que nos separam da península da Anatólia sem incidentes. Depois disso, como os organizadores vêm repetindo há dias, será uma questão de planejar o último grande passo, aquele tão aguardado, em direção à Faixa de Gaza. A embarcação em que estou agora, a "Bianca", é uma das trinta e três embarcações que conseguiram escapar do ataque armado das Idf na noite entre 29 e 30 de abril. Dizem que é um veleiro bastante antigo, da década de 1980, mas com boas velas e um motor robusto. Quando se tratou de acelerar para despistar os supervelozes marinheiros da Shayetet 13, esse velho casco cumpriu sua função. Teremos que voltar a correr novamente nos próximos dias? E, se sim, quantos de nós conseguirão escapar?
Ontem à noite, no pequeno porto de Ierapetra, praticamente não se falava de outra coisa. O trajeto que faremos será quase inteiramente em águas territoriais — primeiro gregas e depois turcas. Haverá, segundo consta, apenas duas passagens por águas internacionais, uma de 12 e outra de cerca de 10 milhas, e ambas serão atravessadas durante o dia. Será possível que as forças armadas de Netanyahu irão escolher justamente esses trechos para nos atacar novamente?
Durante o último ataque, valendo-se do esforço conjunto de nada menos que quatro fragatas, as Idf levaram quase cinco horas para interceptar vinte e duas embarcações. Portanto, se quisessem repetir o feito, considerando que leva menos de duas horas para percorrer 12 milhas, as forças especiais de Tel Aviv teriam que agir, pelo menos em parte, dentro da jurisdição de um país estrangeiro. É um cenário efetivamente plausível? Muito provavelmente não. Por isso, alguns falam em possíveis ataques aéreos com drones ou em eventuais atos de sabotagem no mar.
"Obviamente, estamos preparados para tudo e calculamos cuidadosamente os possíveis riscos que enfrentamos", afirma Simone Zambrin, um dos porta-vozes italianos da
Flotilha. "Neste momento, continuar a missão significa demonstrar que a arrogância de Israel não conseguiu nos dobrar. Significa reafirmar a importância de romper o cerco ilegal de Gaza, apesar de tudo e apesar de todos. Portanto, queremos alcançar logo a Turquia, onde nos aguardam pelo menos mais uma dúzia de embarcações, e onde poderemos nos reorganizar e preparar para os próximos passos."
Durante todo o dia ontem, os barcos da Flotilha ancorados no porto de Ierapetra se viram diante de uma embarcação da guarda costeira grega, que muito provavelmente nos escoltará até o limite das águas territoriais. Seria uma forma de proteção ou, como mais de uma pessoa afirma, uma maneira de nos controlar? No dia seguinte ao ataque israelense, foi o próprio Ministro das Relações Exteriores de Tel Aviv, Gideon Sa'ar, a declarar que as operações contra a Flotilha foram realizadas "em coordenação com o governo grego".
Além disso, quando fomos desembarcados no cais de Atherinolakkos – praticamente no meio do nada – o nosso navio-prisão pôde chegar a poucas centenas de metros da costa, onde foi alcançado pelas embarcações da guarda costeira de Atenas. Naquele momento, nós ainda poderíamos ter soado o alarme, comunicado às autoridades competentes que o cargueiro militar que transportava Thiago Ávila e Saif Abukeshek — os dois porta-vozes da Flotilha atualmente estão na prisão em Ashkelon — estava navegando em águas territoriais gregas. Se não o fizemos, foi porque a polícia grega que guardava o cais nos negou acesso a qualquer telefone por um longo tempo, pelo menos até que a prisão flutuante conseguiu se afastar (quando perguntei a um dos motoristas dos três ônibus presentes se eu poderia ligar para a redação do Il Manifesto com seu celular particular, ele respondeu, textualmente: "No, sorry, the cops don’t want it.")
É compreensível, diante de tudo isso, que grande parte dos ativistas não veja a hora de chegar à Turquia o mais rápido possível. Mas depois? Qual será o próximo passo? Iremos mesmo para Gaza? Os trinta e três barcos sobreviventes estão prontos para navegar novamente para o leste. Um novo amanhecer após tantos dias de escuridão.
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