30 Abril 2026
"Rezamos para que a revisão seja feita e que a decisão de cortar o financiamento da Catholic Charities na Arquidiocese de Miami seja revertida. Seja por mais um mês, seja por muitos anos, o programa que atende crianças desacompanhadas de nossos vizinhos da região contará com suas décadas de experiência para oferecer um excelente atendimento a essas crianças".
O artigo é de Dom Thomas G. Wenski, arcebispo da arquidiocese de Miami, publicado por America, 29-04-2026.
Eis o artigo.
O governo dos EUA decidiu abruptamente encerrar mais de 60 anos de relacionamento com a organização Catholic Charities na Arquidiocese de Miami. Essa parceria começou com a Operação Pedro Pan, que, sob a direção de um então jovem padre irlandês, Monsenhor Bryant O. Walsh, ajudou a reassentar cerca de 14 mil crianças cubanas enviadas sozinhas para os Estados Unidos por pais desesperados que buscavam protegê-las da doutrinação comunista.
Desde então, a organização oferece serviços para crianças migrantes desacompanhadas. Pessoas continuam fugindo da instabilidade política e da perseguição em toda a América Latina, uma região que sofre com instabilidade política e econômica constante. Hoje, uma instalação em Palmetto Bay, chamada Vila Infantil Monsenhor Bryan O. Walsh, pode abrigar até 81 menores. O programa auxilia na colocação de crianças em lares adotivos, reunificando-as com familiares e oferecendo serviços de apoio.
Os serviços da Arquidiocese para esses menores desacompanhados foram reconhecidos por sua excelência e serviram de modelo para outras agências em todo o país, mas o programa foi recentemente privado de financiamento federal e será obrigado a encerrar suas atividades até julho.
Embora seja verdade que o número de menores desacompanhados que entram nos EUA tenha diminuído, de modo que alguns programas devam ser reduzidos ou mesmo eliminados, ainda é desconcertante que o governo americano encerre um programa que seria difícil de replicar. O nível de competência e excelência alcançado pela organização será difícil de igualar caso uma futura onda de menores desacompanhados chegue ao nosso país.
Como escreveram os membros da Câmara dos Representantes, Maria Elvira Salazar e Carlos A. Gimenez, ambos republicanos de Miami, ao Escritório de Reassentamento de Refugiados em abril: “Reduzir a capacidade justamente na região com maior probabilidade de receber esses refugiados não é economicamente viável, é um erro estratégico. A Catholic Charities oferece o que não pode ser substituído rapidamente: equipe treinada, infraestrutura comprovada e décadas de experiência.”
Hoje, esses jovens — meninos e meninas, bebês e adolescentes — não são muito diferentes daquelas crianças cubanas de mais de 60 anos atrás. O desespero que levou os pais dos menores desacompanhados de hoje a enviarem seus filhos para longe não é diferente do desespero que motivou os pais cubanos naquela época.
E sim, muitas dessas crianças têm pais amorosos. Elas não foram abandonadas nas ruas, mas forçadas a migrar desacompanhadas pelas circunstâncias mais extremas. Quando celebrei missa com elas, as crianças sabiam as orações e conseguiam cantar os hinos. A maioria dessas crianças foi criada em lares onde os pais as ensinaram a rezar e as levavam à missa.
O anúncio do fim do financiamento federal coincidiu com o turbilhão de notícias sobre o desentendimento entre o Papa Leão XIV e o presidente Donald Trump. Claramente, as divergências entre Washington e a Santa Sé sobre questões de paz e justiça não deveriam ter nada a ver com o corte de verbas para o programa de assistência a menores desacompanhados da Catholic Charities de Miami. Alguns sugeriram que a decisão do governo de cortar o apoio a esse programa representa uma retaliação política — esperemos que isso não seja verdade, embora tenham ocorrido outras tensões recentes entre os esforços da Charities e alguns membros da nossa atual liderança política.
Antes das últimas eleições nacionais, alguns políticos de extrema-direita no Texas e na Flórida acusaram falsamente a Catholic Charities de conluio com cartéis de drogas mexicanos e centro-americanos no tráfico de crianças. Mas, na verdade, essas crianças, ao chegarem aos Estados Unidos, tornaram-se tuteladas do governo americano. Somente então a organização, devido à sua experiência e conhecimento especializado, foi solicitada pelo governo, por meio do Escritório de Reassentamento de Refugiados, a cuidar desses menores desacompanhados.
Essa agência, que faz parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, inclui em sua missão a promoção da saúde, do bem-estar e da estabilidade de crianças estrangeiras desacompanhadas. Esse compromisso, por si só, já deveria exigir uma revisão completa da decisão de encerrar esse programa histórico e emblemático em Miami.
Rezamos para que a revisão seja feita e que a decisão de cortar o financiamento da Catholic Charities da Arquidiocese de Miami seja revertida. Seja por mais um mês ou por muitos anos, o programa da Catholic Charities que atende crianças desacompanhadas de nossos vizinhos da região contará com suas décadas de experiência para oferecer um excelente atendimento a essas crianças.
Nota dos editores
Este texto foi adaptado de uma declaração divulgada anteriormente por Dom Thomas G. Wenski.
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