30 Abril 2026
"O breve momento em que a Irmã Irmingard dá uma mordida em seu kebab revela mais do que uma simples anedota. Revela um encontro entre dois mundos: um modo de vida tradicional e uma esfera pública digital em busca de histórias autênticas."
O artigo é de Steffen Zimmermann, editor no escritório correspondente do katholisch.de em Berlim, publicado por Katholisch.de, 29-04-2026.
Eis o artigo.
É um vídeo encantador — embora retrate aparentemente uma cena perfeitamente comum do dia a dia: alguém comendo um döner kebab. Mas na publicação viral do Instagram das freiras dominicanas de Arenberg, o icônico prato germano-turco não está sendo saboreado, como de costume, por um adolescente, mas sim pela Irmã Irmingard — que já tem 92 anos e está comendo um döner kebab pela primeira vez na vida.
"Estou absolutamente encantada", diz a freira no vídeo, com um sorriso travesso. Por um breve instante, ela até corrige sua idade para 82 anos — como se o kebab a tivesse instantaneamente rejuvenescido dez anos. O momento foi filmado pela Irmã Clarita, de 28 anos, que publicou o vídeo no Instagram das Irmãs Dominicanas de Arenberg, tornando-se um sucesso viral. Desde que o curto vídeo foi publicado há cinco dias, já foi visto mais de sete milhões de vezes.
O vídeo das freiras dominicanas de Arenberg não é um caso isolado. Ordens religiosas frequentemente alcançam um público enorme nas redes sociais. As freiras beneditinas de Osnabrück também compartilham momentos de suas vidas no TikTok e, da mesma forma, atingem milhões de espectadores. Isso parece paradoxal à primeira vista: enquanto a maioria dos mosteiros na Alemanha enfrenta dificuldades com a falta de novos membros, as comunidades diminuem e casas são obrigadas a fechar, as ordens religiosas ganham repentinamente uma enorme visibilidade no ambiente digital.
Um dos motivos para esse sucesso reside no elemento surpresa. Os membros de ordens religiosas são geralmente associados a uma expectativa clara: uma vida de silêncio, caracterizada por oração, ordem e tradição. Quando essas mesmas pessoas comem kebabs, dançam ou participam, de forma bem-humorada, de tendências nas redes sociais, cria-se um contraste que imediatamente atrai a atenção. "Os membros de ordens religiosas têm uma clara vantagem na batalha pela nossa atenção", afirma Meike Kohlhoff, responsável pelas redes sociais do katholisch.de. "Só as suas vestimentas já os tornam o que se conhece como um 'bloqueador de polegar'". Na lógica das redes sociais, isso significa que os usuários param de navegar porque algo parece diferente do fluxo habitual de conteúdo.
Germania, il primo kebab di suor Irmingard a 92 anni: "Sono entusiasta!" - la Repubblica https://t.co/OylGtp7tnC
— IHU (@_ihu) April 27, 2026
Mas não se trata apenas da aparência externa. Há também um tipo especial de autenticidade que caracteriza muitos desses vídeos. Os vídeos raramente parecem encenados ou perfeitamente produzidos. Em vez disso, mostram momentos simples e espontâneos: uma conversa, uma refeição compartilhada, uma piada rápida. Para muitos espectadores, isso cria a impressão de vislumbrar genuinamente um mundo que, de outra forma, permanece oculto. "Você se sente como se estivesse olhando pelo buraco da fechadura", é como Kohlhoff descreve esse fascínio. Justamente porque a vida monástica é desconhecida para muitas pessoas, surge a curiosidade. O que acontece por trás dos muros de um mosteiro? Como vivem realmente os membros de ordens religiosas? As redes sociais, de repente, fornecem respostas facilmente acessíveis a essas perguntas.
Humor, autoironia e pequenas histórias pessoais
Essa acessibilidade é outra chave para o sucesso. O conteúdo religioso nas postagens não aparece como um sermão ou apelo moral, mas sim inserido em situações cotidianas. Humor, autoironia e breves anedotas pessoais substituem explicações teológicas complexas. Isso reduz a barreira inicial para o engajamento com a fé cristã. Ao mesmo tempo, muitas das postagens bem-sucedidas transmitem uma atmosfera positiva: alegria, comunidade, serenidade. Em um mundo frequentemente dominado por notícias de crises, esse conteúdo funciona quase como um contraponto — leve, acessível e, às vezes, até reconfortante.
Por último, os vídeos virais seguem uma lógica narrativa simples. Funcionam porque são fáceis de entender e têm um desfecho claro. "Freira de 92 anos come seu primeiro kebab — e fica encantada" — essa é uma história que funciona sem qualquer conhecimento religioso prévio e evoca emoções imediatamente. São precisamente esses tipos de narrativas simples e surpreendentes que são preferencialmente disseminadas pelos algoritmos das plataformas de mídia social, explica Kohlhoff.
Para as próprias ordens religiosas, essa atenção crescente abre novas possibilidades. As redes sociais podem tornar as comunidades e os mosteiros mais acessíveis e reduzir qualquer receio em relação ao contato. Aqueles que veem membros de ordens religiosas rindo, comendo ou compartilhando pequenos momentos do cotidiano os percebem menos como autoridades religiosas distantes e mais como pessoas com um estilo de vida particular. "Quando você percebe: 'Essas pessoas também são apenas pessoas', você se sente muito mais à vontade para se aproximar de um membro de uma ordem religiosa", diz Kohlhoff. No melhor cenário, isso pode até levar as pessoas a se envolverem mais profundamente com a vida religiosa — talvez por meio de uma visita ou um retiro em um mosteiro. Mesmo que a entrada efetiva em uma ordem religiosa raramente resulte de um vídeo viral, um efeito importante permanece: a fé continua visível em uma sociedade cada vez mais secular.
As tendências também acarretam riscos
Ao mesmo tempo, essa tendência também acarreta riscos. A forte simplificação que caracteriza muitos vídeos de sucesso pode criar uma imagem distorcida. Quando a vida religiosa é retratada principalmente por meio de cenas humorísticas ou cotidianas, outros aspectos facilmente ficam em segundo plano: a vida espiritual, a profundidade teológica e o engajamento social de muitas ordens religiosas. "Há o perigo de se perceber os membros de ordens religiosas como menos competentes", alerta Kohlhoff. No entanto, muitos deles são altamente instruídos e atuantes tanto na Igreja quanto na sociedade.
Questões éticas também surgem, particularmente em relação ao tratamento de membros idosos de ordens religiosas. Nem todos compreendem totalmente o alcance potencial de um vídeo viral e quantas pessoas o verão. É crucial ser transparente sobre o que acontece com as imagens e envolver adequadamente os envolvidos, afirma Kohlhoff, que cita a conta original do Instagram das freiras do mosteiro austríaco de Goldenstein como um exemplo negativo: lá, apoiadores postaram vídeos, às vezes sem o conhecimento das irmãs idosas.
Kohlhoff enfatiza que a percepção pública também desempenha um papel crucial. Conteúdos virais de mosteiros tendem a retratar um mundo idílico. Conflitos, ambivalências ou questões subjacentes complexas são frequentemente omitidos. A aparente simplicidade dos vídeos contrasta fortemente com a complexidade da realidade da Igreja.
No entanto, a experiência de muitas contas bem-sucedidas administradas por ordens religiosas mostra que as redes sociais podem ser mais do que apenas entretenimento superficial. Muitas vezes, vídeos virais são apenas o ponto de partida. Aqueles que acompanham os canais por um período mais longo geralmente encontram conteúdo mais aprofundado: inspiração para a fé, informações sobre projetos sociais e testemunhos pessoais. Essa combinação de fácil acesso e conteúdo aprofundado pode ajudar a transmitir uma imagem mais realista.
Talvez aí resida seu verdadeiro potencial. O breve momento em que a Irmã Irmingard dá uma mordida em seu kebab revela mais do que uma simples anedota. Revela um encontro entre dois mundos: um modo de vida tradicional e uma esfera pública digital em busca de histórias autênticas. O fato de esse encontro alcançar tantas pessoas diz algo não apenas sobre os mecanismos das redes sociais, mas também sobre a curiosidade persistente a respeito do que acontece por trás dos muros do mosteiro.
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