Papa Leão e a arcebispa Mullally: “Vamos superar as divergências”. Artigo de Francesco Peloso

Papa Leão XIV com a Arcebispa Mullally. (Foto: Vatican News)

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30 Abril 2026

O encontro que poucos esperavam de fato aconteceu: a primeira Arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, apertou a mão de Leão XIV no Vaticano, os dois líderes cristãos rezaram juntos e, em seguida, proferiram discursos de amizade que foram claros em pelo menos dois pontos: primeiro, defenderam a necessidade de continuar o caminho ecumênico, apesar das dificuldades e dos obstáculos que eventualmente surgem de tempos em tempos, a fim de dar maior força à proclamação do Evangelho; ao lado disso, ambos reiteraram a urgência de fortalecer o empenho e o testemunho comum pela paz, pelo diálogo e pelo espírito de fraternidade nos tempos complexos que estamos vivendo.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Domani, 27-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma mensagem forte, portanto, esta que vem de Roma, onde Sarah Mullally esteve numa peregrinação de quatro dias para fortalecer, entre outras coisas, o caminho ecumênico iniciado por Paulo VI juntamente com o então Primaz da Igreja da Inglaterra, Michael Ramsey, em 1966, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, cujo 60º aniversário é celebrado este ano.

Encontro entre o Papa Leão e a Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullaly, ocorreu no Palácio Apostólico. (OSV News Photo/Simoni Risoluti/Vatican Media)  

Mas certamente não pode ser esquecido que as ordenações sacerdotais e também episcopais das mulheres constituem um fator de divisão entre Roma e Canterbury, bem como dentro da própria Comunhão Anglicana; diversas igrejas africanas de orientação tradicionalista, de fato, opuseram-se à eleição de uma mulher como nova Arcebispa de Canterbury. No entanto, o convidado de pedra dessa história é o escândalo dos abusos sexuais que levou o antecessor de Mullally, Justin Welby, a renunciar em 2024. Welby havia sido acusado de acobertar durante muitos anos os abusos sexuais de John Smyth, um influente advogado evangélico dentro das estruturas eclesiais, acusado de abusar de aproximadamente 130 garotos na África e no Reino Unido. Welby e outros membros da Igreja da Inglaterra não teriam tomado medidas para impedir o homem, mesmo tendo conhecimento dos fatos.

A eleição de Sarah Mullally nasce, portanto, dentro desse contexto e do desejo de um grande número de leigos e prelados anglicanos de pôr um fim definitivo a essas histórias de silêncio e de abusos. Por essa razão, foi escolhida uma mulher (ex-bispa de Londres) com formação teológica e boas capacidades de diálogo e, ao mesmo tempo, de mentalidade aberta e determinada em seguir seu caminho.

Papa Leão XIV com a Arcebispa Mullaly. (OSV News Photo/Simoni Risoluti/Vatican Media)  

Por outro lado, não se pode esquecer que, em outubro passado, Charles III da Inglaterra e sua esposa Camilla visitaram Roma e o Vaticano. Charles, ainda que apenas formalmente, é o chefe da Igreja da Inglaterra e, na ocasião, rezou com o pontífice. Naquelas semanas, já se sabia que a nova arcebispa seria Mullally, tanto que o papa — no dia de sua posse oficial, 25 de março — enviou uma mensagem de felicitações à nova líder. Não houve, portanto, nada de improvisado no encontro que ocorreu no Vaticano. Nos últimos dias, também não faltaram críticas dirigidas ao papa por ter se encontrado com a arcebispa, a começar pelo grupo cismático dos lefebvrianos, que frequentemente dá voz aos pensamentos tácitos da galáxia católica ultraconservadora. Nesse caso, entre outras coisas, é contestado o reconhecimento, pelo papa, do título de "arcebispa" para Mullally.

Em relação às divisões dentro das igrejas cristãs, e entre anglicanos e católicos em particular, o Papa afirmou: "Esse caminho ecumênico certamente tem sido complexo. Embora muitos progressos tenham sido feitos em algumas questões historicamente geradoras de divisão, novos problemas surgiram nas últimas décadas, tornando mais difícil discernir o caminho para a plena comunhão."

"Sei que a Comunhão Anglicana também enfrenta muitos desses mesmos problemas", acrescentou. "No entanto, não devemos permitir que esses desafios nos impeçam de aproveitar todas as oportunidades possíveis para anunciar juntos Cristo ao mundo. Como o Papa Francisco disse aos Primazes da Comunhão Anglicana em 2024, "seria um escândalo se, por causa de nossas divisões, não cumpríssemos nossa vocação comum de dar a conhecer Cristo." De minha parte, eu acrescentaria que seria igualmente escandaloso se não continuássemos a trabalhar para superar as nossas divergências, por mais irreconciliáveis que possam parecer."

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