Os lefebvrianos agora correm o risco de se tornarem um problema para Leão XIV. Artigo de Francesco Peloso

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28 Fevereiro 2026

"A sensação, contudo, é de que os lefebvristas estão jogando um jogo arriscado em dois planos: por um lado, levando o embate com Roma às suas consequências extremas (para ver se há margem para manobras), por outro, tornando-se um ponto de referência cada vez mais visível para um catolicismo político nacionalista", escreve Francesco Peloso, jornalista, em artigo publicado por Domani, 25-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A Fraternidade São Pio X não desiste. O grupo tradicionalista fundado por monsenhor Marcel Lefebvre, que não aceita o Concílio Vaticano II e, especialmente, a reforma litúrgica, respondeu com um firme não à proposta de negociação oferecida pela Santa e, sobretudo, manteve sua intenção de prosseguir com as novas ordenações episcopais, sem mandato pontifício, marcadas para 1º de julho. Os lefebvrianos precisam de novos bispos, visto que dos quatro ordenados por Lefebvre em 1988, fato que deu origem à excomunhão latae sententiae (ou seja, automática), restam apenas dois vivos.

O anúncio de seguir em frente com as novas ordenações levou a Santa Sé a tentar reabrir as negociações com o grupo ultratradicionalista. Por esse motivo, em 12 de fevereiro, o Superior da Fraternidade, Padre Davide Pagliarani, e o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Cardeal Víctor Manuel Fernández, reuniram-se no Vaticano. O próprio dicastério anunciou o encontro em um comunicado divulgado no fim da conversa, que relançou uma possível retomada do diálogo teológico para determinar se existem as condições mínimas para o retorno dos lefebvrianos "à plena comunhão com a Igreja Católica". Tudo isso sob a condição de que "a Fraternidade suspenda a decisão referente às ordenações episcopais anunciadas".

Graves consequências

Fernández reiterou que a ordenação de bispos sem mandato papal "implicaria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma), com graves consequências para a fraternidade como um todo".

O caminho do diálogo entre as partes é, em suma, particularmente estreito, porque, enquanto de um lado existe a exigência concreta do grupo cismático de poder contar com novos bispos em sua hierarquia, do outro, a questão não resolvida se mantém a mesma: a aceitação do Concílio Vaticano II como pressuposto para a reintegração à Igreja Católica.

Para Leão XIV, trata-se, em todo caso, de um grande problema. A Santa Sé, neste momento, preferiria qualquer coisa a ter que proceder a uma série de novas excomunhões acompanhadas de acusações de cisma.

Prevost também foi eleito para garantir a unidade da Igreja, buscando superar as divisões com o mundo tradicionalista. Segundo os tradicionalistas, essas divisões foram exacerbadas durante o pontificado de Francisco, particularmente com a Traditionis Custodes, o motu proprio com o qual Bergoglio limitou drasticamente o uso do rito antigo, que Bento XVI havia liberalizado. Mas é difícil admitir na Igreja hoje aqueles que negam o ecumenismo, a sinodalidade, o diálogo inter-religioso ou a missa pós-conciliar. Especialmente para um papa que escolheu abrir a série de catequeses das audiências gerais das quarta-feira em 2026 falando sobre textos aprovados pelo Concílio Vaticano II, seu significado e sua importância para a Igreja.

A decisão dos lefebvrianos não agradou nem mesmo às franjas tradicionalistas que não se identificam com as posições extremistas da Fraternidade São Pio X. Não por acaso o Cardeal Robert Sarah, prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino e uma das vozes mais conservadoras do Colégio Cardinalício, escreveu recentemente um artigo publicado no Foglio, no qual criticava a intenção de prosseguir com as ordenações de novos bispos sem a permissão do Papa. No texto, o cardeal expressa a posição clássica dos grupos tradicionalistas dentro da Igreja, ou seja: é possível discordar de muitas decisões tomadas pelo Papa ou seus antecessores, mas ai de quem se aventurar sair do álveo da Igreja Católica, sob pena de irrelevância e deriva sectária.

Acordo impossível

A sensação, contudo, é de que os lefebvristas estão jogando um jogo arriscado em dois planos: por um lado, levando o embate com Roma às suas consequências extremas (para ver se há margem para manobras), por outro, tornando-se um ponto de referência cada vez mais visível para um catolicismo político nacionalista.

Em sua resposta oficial a Fernández, o Padre Pagliarani, em nome da Fraternidade São Pio X, declarou: "Ambos sabemos de antemão que não podemos concordar no plano doutrinal, com particular referência às orientações fundamentais adotadas após o Concílio Vaticano II", visto que "esse diálogo deveria permitir esclarecer a interpretação do Concílio Vaticano II. Mas essa já está claramente fornecida no pós-Concílio e nos documentos subsequentes da Santa Sé. O Concílio não constitui um conjunto de textos livremente interpretáveis: ele foi recebido, desenvolvido e aplicado há sessenta anos, por sucessivos papas, segundo orientações doutrinais e pastorais precisas." Em suma, os lefebvrianos acreditam que a proposta do Vaticano, na verdade, decorre da intenção de adiar as ordenações e iniciar uma negociação tão longa quanto impossível no plano concreto.

Pagliarani afirma ainda que, nos últimos anos, quando não havia nenhuma ordenação à vista, todas as tentativas de diálogo foram desconsideradas de parte do Vaticano. O próprio Leão XIV não teria respondido quando a Fraternidade solicitou um encontro com ele.

O primeiro consistório extraordinário dos cardeais convocados por Prevost para auxiliá-lo na governança da Igreja universal excluiu da agenda da reunião justamente a questão litúrgica (na qual se enquadrava o problema da missa pré-conciliar), preferindo se concentrar em questões como a sinodalidade e a missão. O que não significa que a questão, mais cedo ou mais tarde, não será abordada: mas eventuais novas excomunhões apenas acentuarão a separação entre a Igreja e o grupo.

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