"Ele preferia uma Igreja não perfeita, mas sem medo da mudança". Entrevista com Matteo Zuppi

Foto: Vatican News

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23 Abril 2026

"Sem medo de mudar as coisas." As últimas palavras que recebeu de Francisco foram um legado e uma missão para o Cardeal Matteo Zuppi. O que uniu o Papa, que veio "quase do fim do mundo", e o antigo pároco do subúrbio romano de Torre Angela, agora presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), era precisamente a Igreja dos pobres.

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 21-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O que ligava o senhor a Bergoglio?

Em primeiro lugar, uma paixão pelo Evangelho em suas duas dimensões nunca divergentes entre si: a de edificar a Igreja por meio da comunicação do Evangelho e a do amor concreto, físico e fraterno pelos pobres. Seu limite eram as colheitas que amadurecem. A Igreja não vive para si mesma. Isso seria trair seu fundamento. Vive no mundo e não tem medo de dialogar com todos porque tem o amor de Jesus, a compaixão por esse hospital de campanha ao qual o mundo está reduzido. E hoje há tantos feridos que nem sequer têm um hospital de campanha. Esses também estão sendo destruídos. O Papa ajudava a todos a enfrentar o sofrimento, a não serem indiferentes, a serem cristãos na vida para serem cristãos na oração e na dimensão espiritual.

Vocês se entenderam imediatamente?

Ele sabia que eu tinha sido pároco no bairro de Torre Angela e conhecia minha história na comunidade de Santo Egídio, que sempre atuou nas periferias movida pela atenção pelos pobres e pela comunicação do Evangelho. Quando Francisco veio a Roma, eu era bispo auxiliar do centro da cidade. Era fácil estabelecer comunicação com ele devido à sua empatia, à memória formidável e afetiva com que recordava tantos acontecimentos pessoais e porque nos envolvia na sua paixão e no seu amor pela Igreja e pelo mundo. Ele não dava razão, mas sabia tocar o coração e ajudava a compreender que aquilo que procuramos e aquilo de que precisamos é aquilo que o Senhor nos dá e nos pede.

Como é que ele lhe confiou a missão no conflito russo-ucraniano?

Estava preocupado em procurar todas as formas possíveis de fazer algo em favor da paz. Sentia o horror da violência e da guerra e estava convicto de que só o diálogo e o encontro poderiam parar as armas. A sua intenção era tentar, de todas as formas, promover a paz e aliviar o sofrimento. Ninguém se salva sozinho e todos podem fazer alguma coisa. Dizia-se que ele tinha um plano de mediação, tanto que houve perplexidades iniciais. Francisco disse-me para tentar tudo o que fosse necessário e tentar todas as formas possíveis de ajudar. Ele não tinha um plano, mas sim a paixão pela paz. Sempre que conversávamos, ele dizia: 'com o que precisar, saiba que eu sempre te ajudarei'.

Como reagia às guerras?

Com a atitude de assumir para si a dor das vítimas da guerra, para que a Igreja pudesse ser sempre e em todo lugar uma mãe próxima aos sofrimentos. A dor deles era sua dor. Para parar as guerras e promover a paz, ele usava os meios tradicionais da diplomacia, mas também os informais, toda relação que fosse útil. Como quando foi à embaixada russa após a invasão da Ucrânia, ou quando ele e o Arcebispo de Canterbury receberam os líderes do Sudão do Sul, ajoelhando-se e beijando seus pés.

Conteúdo em primeiro lugar?

Sim. Com seus gestos, ele dizia: não importa que eu seja o Papa, eu imploro que vocês busquem a paz. O importante para ele era que a dignidade servisse para parar a guerra. Ele tinha prioridades claras, e a forma vinha depois do conteúdo. Ele não esperava para fazer algo quando tudo estivesse claro ou porque sabia que terminaria bem. Francisco ensinava a fazer as coisas mesmo quando parecem inúteis ou impossíveis.

O importante é iniciar processos, plantar sementes, tentar agir sobre as situações. Estava livre da tentação da performance; acreditava na força do espírito e confiava nisso. Não se deve esperar, repetia o Papa, para ter tudo primeiro. É preciso tentar, mesmo que se tenha apenas cinco pães, depois vai se dar um jeito de multiplicá-los, não quando já se tem tudo.

Trump atacou Leão XIV a respeito da guerra no Irã, assim como fez dez anos atrás com Francisco por causa do muro anti-imigração no México.

Nenhum dos dois mudou sua agenda após o ataque de Trump. Seguir em frente sem se deixar condicionar faz parte da história, da tradição e da liberdade do Bispo de Roma, que continua a servir com liberdade o Evangelho e, portanto, a humanidade, a começar pelas vítimas. A primeira palavra que Leão pronunciou foi ‘paz’. Como sempre, continuidade, novidades, acréscimos. A verdadeira tradição não é conservação ou, como Francisco teria dito, com um dos muitos neologismos que nos legou, ‘retrocedismo’. Leão XIV acrescentou a globalização da impotência à globalização da indiferença e apela para que se escolha sempre o caminho do diálogo para combater as guerras, que são todas mundiais. Todas nos dizem respeito, também porque somos todos irmãos.

Qual era o seu método?

Ele sabia que a semente daria fruto, mas deve ser lançada na terra. Para ele, melhor uma Igreja não perfeita do que uma Igreja perfeita que preserva a si mesma. Lembro-me da última audiência, falamos sobre a Igreja italiana. Estava ciente dos problemas, mas tinha esperança. Foi encorajador e reconfortante. Disse para não ter medo de mudar as coisas, para colocar sempre no centro Jesus e seus irmãos mais necessitados, os pobres.

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