07 Abril 2026
Nesta segunda-feira (6), o Brasil completa dois meses de estouro do prazo dado pelo presidente Lula para que quatro ministérios apresentassem ao CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) as diretrizes para a formulação de um mapa do caminho para superar a dependência nacional de combustíveis fósseis. É um atraso inadmissível, que expõe os padrões duplos de um país que busca liderar a discussão internacional sobre o tema ao propor um mapa do caminho global enquanto não faz o que precisa dentro de casa para dar o exemplo.
A reportagem é de Solange A. Barreira, publicada por Observatório do Clima, 06-03-2026.
As pastas da Fazenda, do Meio Ambiente, de Minas e Energia e da Casa Civil foram encarregadas da tarefa de propor os termos de referência para o roadmap nacional no final do ano passado, poucas semanas depois de Lula ter liderado a discussão da transição energética para longe dos fósseis na COP30. Num despacho de 8 de dezembro, o presidente havia dado 60 dias para os ministérios construírem uma proposta.
As reuniões entre as pastas, porém, começaram apenas em meados de janeiro, marcadas por divergências fundamentais entre Fazenda e Meio Ambiente, de um lado, e Minas e Energia, do outro. Enquanto os ministros Fernando Haddad e Marina Silva defendiam um processo próprio para o mapa do caminho nacional, o ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, quer diluir o roteiro dentro de propostas já existentes do planejamento energético brasileiro. Isso significaria, na prática, não ter um mapa do caminho, já que o planejamento energético brasileiro prevê ampliação dos investimentos em fósseis.
Com a saída de Haddad e Marina para concorrer nas eleições deste ano, a tendência é que Silveira – que permanece ministro – prevaleça, e que o mapa do caminho doméstico seja desfigurado ou enterrado. Isso prejudica a imagem de Lula, que empenhou o único ativo internacional de que o Brasil dispõe, a confiança, e atrapalha a construção do mapa do caminho global pela presidência da COP30.
O Palácio do Planalto precisa arbitrar essa discussão em favor de uma proposta robusta de mapa do caminho, que vá muito além do business-as-usual desejado pelo MME. Num momento em que a agressão israelo-americana ao Irã expõe o preço da dependência dos combustíveis fósseis, dar para trás no roteiro nacional seria um desperdício de reputação e de oportunidade.
“A resistência do MME em participar da elaboração do mapa do caminho para afastamento dos combustíveis fósseis, infelizmente, é coerente com a posição do ministério de bloquear medidas mais efetivas de descarbonização no setorial de energia do Plano Clima. Na prática, agem como negacionistas, não reconhecem a gravidade da crise climática” afirma Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
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