A casa e seus contrastes: notas sobre a casa no filme ‘Valor Sentimental’. Comentário de Flaviana Tannus

Foto: Reprodução/Mubi

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18 Março 2026

Não há medida comum entre o ser humano e seu habitat. O que um lugar de pertencimento pode revelar daquilo que não se reconhece?

O comentário é de Flaviana Tannus, psicanalista e membro da Appoa, publicado por Sul21, 17-03-2026

Eis o artigo.

Barro, madeira, galho, cipó. Materiais naturais com cores análogas. Sem contrastes. Quando o homem deixou de perambular, migrou da condição natural de sobrevivência para um campo de invenção. Será que, para os sons virarem palavras, o homem precisou aquietar-se? Nunca tinha pensado nisto, mas isto é outra história. Prossigo. Criou instrumentos como machados de pedra polida e peças para escavação. Amalgamou materiais. Foi preciso tempo, artesania, curiosidade e, como dizemos hoje, bater a cachola.

Com esta mestria, criou espaço de permanência, ajuntamento e passou a enterrar seus mortos. Inventou uma forma coletiva de habitar – aquilo que conhecemos como casa – abrigo para o desamparo típico da nossa espécie. Nesse tecido nada natural e extremamente sofisticado, ao longo do tempo o habitar descolou da ideia de abrigo e expandiu-se para uma outra condição: a casa como lugar. Lugar simbólico, adornado pelo acúmulo de objetos que contam histórias das experiências de seus habitantes – e muitas quinquilharias mais. Aos poucos, o destino da casa parece ter tomado corpo: tornar-se guardiã da memória.

Gaston Bachelard, no ensaio A Poética do Espaço, explorou o interior da casa como experiência subjetiva. Lugar da intimidade, a casa serve de refúgio e enraíza paisagens internas da memória, criando um território de pertencimento e um acervo anímico: “estar em casa”, “sentir-se em casa” ou “voltar para casa” são expressões que revelam a acomodação do sujeito ao seu habitat.

Mas há também algo que escapa, que se escava como falta ou como perda. Há contrastes nas expressões “não me sinto em casa”, “sinto-me como estranho” ou “estou fora do meu lugar”. Revelam algo do sujeito desenraizado. Não há medida comum entre o ser humano e seu habitat. O que um lugar de pertencimento pode revelar daquilo que não se reconhece? O que expõe essa fissura entre o sujeito e o lugar de habitar?

Em Valor Sentimental, Joachim Trier oferece algumas pistas. A trama possui muitas camadas. Minha proposta aqui é percorrermos a casa da família, que parece disputar com a protagonista o papel principal na obra.

A história, construída como capítulos de um livro, começa ao som de Dancing Girl, de Terry Callier. A câmera desliza por três planos na paisagem: árvores, cidade e montanhas ao fundo. Ainda em movimento, as árvores ocupam toda cena e, sob suas copas, surge um cemitério. Em seguida, um novo enquadramento se aproxima lentamente de uma antiga casa de madeira trabalhada.

Uma casa onírica e lírica. Fora do tempo.

Marrom, vermelho e verde contrastam entre si e também com a cidade em construção. A câmera, como um olho, aproxima-se da casa. Contorna suas bordas, espia, roça, toca, cheira. Exibe-a como pele. Detalhes de suas janelas, arbustos, cantos, parede, roseira, varal. No canto de um beiral, o acúmulo de sujeira revela a letra R entalhada à mão, esmaecida pelas camadas de tinta e reboco. Como uma velha tatuagem no corpo. Um entalhe ressalta um detalhe que insiste em permanecer.

A música dá lugar a uma voz. O narrador conta que Nora, protagonista, certa vez precisou escrever uma redação como se fosse um objeto. Escolheu escrever sobre a centenária casa da família. A câmera percorre a casa como uma tecelã, por dentro e por fora. Pele e órgãos.

Acompanhamos seu relato como quem observa um bordado: a agulha fura o tecido e revela arremates e avessos. Nora amalgama seu corpo à casa. Descreve sensações – a barriga sacodindo quando ela e a irmã corriam pela escada – e pergunta se o chão gostava de ser pisado, se as paredes sentem cócegas ou se já sentiram dor. Cenas poéticas e lúdicas dessa casa guardiã de segredos.

Nora perguntou ainda se a casa prefere ser vazia e leve ou cheia e pesada. Esses adjetivos ganham relevo. Vazio é leve? Ela os mobiliza ao falar da separação dos pais. Interroga sobre o barulho e sobre a falta dos sons do pai. E diz que pior que o barulho é o silêncio. Parece querer saber da casa algo que ainda não sabe de si.

Se, com sua escrita, Nora empresta seu corpo à casa, ao longo do enredo a casa – agora personagem – parece desabar. O pai conta que havia um defeito de construção, descoberto depois de pronta: uma fissura no alicerce que ameaçava a estrutura. Como se a casa estivesse afundando, desmoronando.

Essa falha abriu uma rachadura que atravessa a parede da base ao topo. um desenho. Uma fissura sulcada como um mapa. Uma linha. Linhagem.

Como Joachim Trier desfaz a imagem idílica da casa como abrigo?

O título do filme surge numa fala. Nora entra na casa enquanto a irmã a esvazia após a morte da mãe. Diz:

– Guarde o que você quiser e jogue fora o resto.

A irmã responde:

– Mas há muitas coisas boas aqui. Coisas com Valor Sentimental.

Nora escolhe um vaso que a irmã havia separado. Não escolhe uma coisa qualquer. Escolhe a escolha da irmã. O que insinua o vaso – objeto que contorna o vazio?

Quando as coisas saem do lugar para esvaziar a casa, o que se desloca? Agora vazia, o que resta da casa e de suas histórias? Como “jogar fora os restos” e seguir a vida sem aquilo – e sem aqueles – que já não são e nem estão?

Com a casa restaurada e esvaziada, outra montagem entra em cena. Os três rostos – pai e filhas – se mesclam, alternam e se fundem num jogo de contrastes entre sombra e luz. O vórtice dessa cena, evidencia uma trama de laços consanguíneos que não se desmontam nem se esvaziam.

Formam uma trança feita de tropeços, embaraços, falhas – e também restos, traços, sobras, trincas e fissuras daquilo que se herda e de que não se escapa.

Se “a vida é um instante no ar”, como diz o pai, como escapar de onde não há saída?

Ao escrever sobre a casa, Nora menciona um atalho que a levava à estrada – um ponto de onde a casa já não podia vê-la. Desenreda-se. Aponta uma fuga que, ao som de Cannock Chase de Labi Siffre, Joachim Trier corta a cena, abre espaço e deixa escoar uma delicada e sutil saída.

Com seus contrastes.

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