18 Março 2026
Juventude da direita argentina vê Javier Milei como modelo de homem, o que não aconteceu aqui com Bolsonaro.
O artigo é de Moisés Mendes, jornalista, publicado por Extra Classe, 11-03-2026.
Eis o artigo.
Um dos ídolos dos machos inseguros brasileiros se chama Andrew Tate, mas poucos sabem quem é esse americano acusado de promover discurso do ódio e de estupros. Na Argentina, qualquer um sabe quem é o guru dos machos jovens.
O ídolo deles é Javier Milei, considerado um “leão” disruptivo, que enfrenta o sistema e as mulheres que questionam suas machezas. O macho jovem argentino politizou mais do que o jovem brasileiro sua condição de homem inseguro.
Para ser um ativista do machismo, na vida real e nas redes virtuais, é preciso ser declaradamente mileinista. É como se aqui os jovens decidissem que o leão deles seria Bolsonaro, o imbrochável.
Mas Bolsonaro não consegue aqui o que uma pesquisa divulgada pelo jornal El Destape revela sobre o poder de Milei. O estudo se chama “Os significados das masculinidades entre jovens homens eleitores de Milei” e foi realizado ano passado pelos pesquisadores Guido Bonano, Esther Solano, Pablo Romá e Cecilia Feijoo.
A principal conclusão das conversas com rapazes de16 a 25 anos é essa: o ativismo do macho jovem inseguro argentino foi politizado com a ascensão de Milei como liderança disruptiva e de extrema-direita.
O machismo do jovem argentino é mileinista e sustentado pela imagem de Milei e vai além da militância digital na chamada machofesra. A percepção dos jovens em relação às mulheres é a consagrada nesses contingentes, em toda parte: elas são impositivas, insubmissas, têm vantagens no mercado de trabalho e devem ser enfrentadas como inimigas.
A reportagem do El Destape informa: “A fuga definitiva reside na machosfera, um ecossistema digital de influenciadores como Dannan, El Temach e Agustín Laje. Nesses espaços, os jovens encontram validação e o que percebem como “coragem” diante do consenso social.
Ali, o conteúdo que consomem, desde conselhos de autoestima como “não implore às mulheres” até críticas ferozes ao aborto, os conduz gradualmente a uma “politização de direita” em questões econômicas e geopolíticas”.
É como acontece no Brasil, mas sem o componente argentino: o presidente é o ídolo deles. Porque a base do mileinismo é a juventude, ao contrário do que acontece aqui com o bolsonarismo como expressão de extrema-direita. O jovem brasileiro não é majoritariamente bolsonarista nem se enxerga em Bolsonaro.
Mas a realidade argentina é confusa. Milei é misógino, como reafirmou no 8 de março, Dia da Mulher, ao declarar que as pautas em defesa delas são “agendas ideológicas”. Fechou o Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade, transformado em uma subsecretaria.
Faz declarações misóginas e homofóbicas com frequência (diz que gays são pedófilos) e se apresenta como um macho que já teve três mulheres famosas.
Todas são celebridades e passaram correndo ela sua vida amorosa, com namoros que duraram em torno de um ano: a cantora Daniela Mori, a atriz e humorista Fátima Flórez e a apresentadora de TV Amalia Yuyito González.
Milei é uma figura pública, que faz declarações em nome das liberdades e ouve o que não deseja, como homem exposto a todas as controvérsias que ajuda a provocar. Esse homem de relações instáveis não tem nada do macho clássico argentino.
O marqueteiro Gastón Alberdi, que ajudou Milei a criar o partido Liberdade Avança e foi seu amigo muito próximo, hoje é um inimigo que diz publicamente: Milei é gay. Alberdi entende que as pessoas devem saber que um gay com poder ataca gays.
Segundo o ex-assessor, o presidente “vive uma contradição interna que o leva a odiar aqueles que compartilham com ele a mesma identidade”. Alberdi já pediu publicamente que Milei saia do armário.
Esse drama pessoal de Milei é explorado pela política, com um argumento a ser considerado: como pode um gay ser tão cruel com a comunidade LGBTQIA+? Como presidente, Milei deveria tentar, segundo Alberdi, assumir-se como gays.
Como fez, como figura pública, o governador gaúcho Eduardo Leite em 2022. Com uma diferença elementar diante de todos esses contextos: Leite não é homofóbico, como Milei é, descaradamente.
Pois esse argentino que namora celebridades por um ano, que ataca mulheres, que odeia gays e que foge do padrão do macho latino, essa figura é o ‘leão’ dos jovens, assim definido na pesquisa sobre os homens inseguros da terra do tango.
É um paradoxo. Os jornais, inclusive os de direita, apresentam Milei como alguém que os jovens não enxergam: um sujeito dominado pelo poder da irmã, Karina, sua secretária-geral da presidência.
O macho que desqualifica as lutas das mulheres é dominado por uma mulher. A fragilização do homem latino, e nesse caso o homem jovem, leva a situações como essa enfrentada pela Argentina, em que o modelo de macheza também é frágil e inseguro.
Há um consolo para os brasileiros: aqui, Bolsonaro é, para pelo menos 30% da população, apenas modelo de disruptivo fascista. O homem feito se identifica com Bolsonaro, mas o jovem brasileiro está longe disso.
É o que mostram as pesquisas desde 2018. O bolsonarismo não é uma tentação para os jovens daqui como o mileinismo é para os argentinos e o trumpismo para os jovens americanos.
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