O cisma anglicano, uma cruz também para Roma. Artigo de Luigi Sandri

Foto: Mike Bird/Pexels

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03 Março 2026

"Estamos diante de um cisma intra-anglicano que inevitavelmente coloca problemas graves para o Papa: Leão XIV dialogará apenas com Canterbury ou também com a Gafcon? E como reagirá a Santa Sé em relação às duas questões que levaram ao cisma? É possível fundamentar a exclusão das mulheres dos ministérios "altos" (diaconato, presbiterado, episcopado) nas Escrituras? Será que Roma pode continuar a adiar até mesmo a ordenação de diáconas? E como lidará com a situação no fim de março, quando Mullally for consagrada Arcebispa de Canterbury?", escreve Luigi Sandri, jornalista italiano, em artigo publicado por L'Adige, 02-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um cisma interno na Comunhão Anglicana provavelmente acontecerá esta semana na África, trazendo graves problemas não apenas para a sede de Canterbury, mas também para o papado, que, há 60 anos, ou seja, desde o Concílio Vaticano II, manteve um diálogo frutífero com o anglicanismo, perturbado, no entanto, pela admissão de mulheres aos ministérios ordenados.

De 3 a 6 de março, será realizada uma reunião solene da Conferência Global sobre o Futuro da África (GAFCON) em Abuja, Nigéria, que possivelmente vai sancionar a separação de várias Igrejas Anglicanas de Canterbury, para fundar uma nova Comunhão de Igrejas Anglicanas "ortodoxas".

Por que tanta confusão? Devemos começar por Jerusalém. Em junho de 2008, duzentos bispos e mil fiéis anglicanos de vários países reuniram-se lá, unidos pela rejeição de duas "novidades" — a ordenação de bispas e o reconhecimento do casamento de casais homoafetivos — aceitas por Canterbury. Assim nascia a Gafcon, o encontro dos anglicanos que rejeitam escolhas morais ou eclesiais que, em sua visão, são estranhas à Bíblia.  A escolha, em outubro passado, de uma mulher (Sarah Mullally, mãe de dois filhos) como a nova Arcebispa de Canterbury é a prova, para a Gafcon, de que o anglicanismo — seguido por oitenta milhões de fiéis em todo o mundo — deve ser refundado sobre fundamentos bíblicos.

Ao anunciar o encontro em Abuja, onde se reúnem os primazes das igrejas nacionais contrárias à Canterbury, Laurent Mbanda, primaz anglicano de Ruanda e atual presidente da Gafcon, afirmou: "Agora o anglicanismo somos nós, e certamente não aquele liderado por uma mulher. Acreditamos que a Bíblia não prevê as bispas". Se as previsões pré-conferência se confirmarem, os primazes anglicanos de vários países africanos — ou seja, Uganda, Quênia, Tanzânia, Sudão e Nigéria — seguirão Mbanda. A escolha do primaz da África do Sul e a do anglicanismo anti-Canterbury nos países ocidentais são, por enquanto, desconhecidas.

Estamos diante de um cisma intra-anglicano que inevitavelmente coloca problemas graves para o Papa: Leão XIV dialogará apenas com Canterbury ou também com a Gafcon? E como reagirá a Santa Sé em relação às duas questões que levaram ao cisma? É possível fundamentar a exclusão das mulheres dos ministérios "altos" (diaconato, presbiterado, episcopado) nas Escrituras? Será que Roma pode continuar a adiar até mesmo a ordenação de diáconas? E como lidará com a situação no final de março, quando Mullally for consagrada Arcebispa de Canterbury? A questão da moralidade das uniões das pessoas LGBTQ+ divide o "não" oficial da Cúria Romana e de uma parcela do mundo teológico, da crescente onda de muitos "sim". Sobre a ordenação de mulheres a ministérios "altos", todos os papas do pós-Concílio reiteraram seus "não"; e sobre o diaconato, Leão também afirmou que, "por ora", o assunto não vai ser discutido. E assim o debate continua: uma parte do episcopado reitera seu "não", mas outra (incluindo o novo Arcebispo de Viena, Joseph Grünwidl) se inclina cada vez mais ao "sim".

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