25 Fevereiro 2026
"Benito Antonio Martinez Ocasio tem feito um movimento inverso na música global. Em vez de se adequar ao que o mercado estadunidense da música pop deseja ouvir, ele conquistou esse mercado e o mundo mostrando o mais tradicional da sua terra com o requinte da sua genialidade original, criando sons, misturando ritmos e mostrando seu olhar a partir de sua “casita” (casinha) em Porto Rico", escreve Alexandre A. Martins, professor de bioética e ética social na Marquette University em Wisconsin, nos EUA e presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral.
Eis o artigo.
Clareza na sua identidade é necessária para uma relação positiva e de crescimento com o outro. Escutei essa ideia muitas vezes de vários professores quando eu estava na faculdade, há quase duas décadas. Muitos deles argumentavam que não precisamos abrir mão da nossa identidade, de quem somos e de onde viemos para aceitar, respeitar e amar o outro diferente de nós. Ao mesmo tempo, não precisamos forçar que o outro rejeite sua identidade para se relacionar conosco e com nosso grupo. Clareza da identidade e da história não é um obstáculo para a relação com pessoas de outras culturas, crenças, perspectivas, nacionalidades e etnias. Pelo contrário, essa clareza nos ajuda a ver o outro em suas diferenças e nos aproxima para se ter uma relação entre iguais em dignidade, que aprendem e crescem juntos ao se relacionarem entre si.
Identidade não é algo artificial nem resultado de uma mera adesão a um grupo ou a um sistema de crenças e valores. Identidade é algo natural, que vai se configurando ao longo da vida em sua relação com tudo ao seu redor, incluindo contexto, geografia, história, língua, família e comunidades. Identidade não é algo estático que, uma vez presente, se define como um projeto acabado, mas sim um projeto dinâmico, inacabado, que se constrói em uma constante reconstrução a partir de encontros. Identidade não se impõe; ela é naturalmente vivida, e a maioria de nós nem a percebe, pois a vivemos como o ar que respiramos, ou como um peixe não percebe a água onde vive, a não ser quando dela é retirado. Identidade não é perfeição, mas é história e humanidade que reconhecem belezas, limitações e a necessidade de confrontar suas tragédias.
Vivemos em um mundo no qual grupos impõem uma “identidade” sobre outras, sobre pessoas diferentes. Se há imposição, não é identidade, mas sim opressão, com base na manipulação de que ser como um grupo específico é um modo superior de ser em relação a qualquer outro grupo e à sua identidade. Isso faz com que grupos e culturas historicamente marginalizados se sintam inseguros da sua própria identidade, a ponto de alguns indivíduos se imporem uma autocensura identitária para se assimilar a um grupo dominante e, assim, serem aceitos. Mas tal aceitação será sempre marcada por um selo de segunda classe. Claro que isso se passa como resultado de uma força opressora que vem de fora desses grupos marginalizados. Tal força constrói uma falsa identidade e uma narrativa para justificar sua ação de domínio pelo poder e pelo medo. Os EUA do governo Trump e seus apoiadores mais fiéis atualizam e executam de forma explícita o uso dessa força, que sempre existiu por aqui, mas não de forma tão clara e agressiva desde o fim da era do movimento pelos direitos civis.
Dentro desse contexto, em um país de grande diversidade cultural, sobretudo com grande presença da cultura latina e da língua espanhola (44,9 milhões, isto é, 1 em cada 7 habitantes, falam espanhol nos EUA, sem contar os três milhões de pessoas em Puerto Rico, tornando os EUA o segundo país com mais falantes de espanhol do mundo, atrás apenas do México, segundo o Censo de 2024), a força de uma narrativa artificialmente criada tem feito com que muitos que estão fora dessa “identidade” neguem sua própria identidade. Um exemplo disso são pais latinos, imigrantes que praticamente não falam inglês, com medo de que seus filhos aprendam espanhol em casa e, consequentemente, falem inglês com sotaque latino. Em sua simplicidade, proteger os filhos desse perigo é um modo de garantir que eles não sofram preconceito no futuro. Outros exemplos são latinos com vergonha de serem quem são e da cultura de onde vieram; pessoas que só veem coisas negativas em seus países de origem; pessoas que se acham inferiores por não serem estadunidenses de origem europeia e sonham em ser caucasianas ao estilo do que Frantz Fanon descreveu no seu clássico Pele negra, máscaras brancas.
Diante dessa crise de identidade, ver um artista porto-riquenho, latino e famoso globalmente fazer uma performance no evento mais assistido da TV estadunidense mostrando com orgulho a sua identidade latina, é um momento de kairós e um oásis de esperança por meio da beleza, da alegria e da festa, que questiona um sistema que persegue o diferente. Bad Bunny, que há pouco mais de uma semana fez história no mundo da música com seu disco “Debí Tirar Más Fotos”, ao ser o primeiro álbum em língua espanhola ao ganhar o principal Grammy do ano, ou Benito Antonio Martinez Ocasio, nome de batismo com o qual ele mesmo se apresentou ao iniciar sua performance, mostrou que o modo como devemos lidar e enfrentar essa força que persegue, oprime e marginaliza outras identidades, como a latina nos EUA, não é negar quem somos, não é sentir vergonha das nossas origens e história, nem fingir uma assimilação que a cor da nossa pele e o movimento do nosso corpo não conseguem esconder. Benito mostra que é com a própria identidade que engajamos com o outro e mostramos o amor que é maior do que o medo e o ódio que o cria.
Bad Bunny trouxe para o palco do Super Bowl o orgulho de ser latino e sua paixão por sua terra, Porto Rico. A música título do seu premiado disco, Debí Tirar Más Fotos (Deve tirar mais fotos) foi a escolhida para encerrar seu show, depois de falar sua única frase em inglês: “God bless America,” seguida pelos nomes de todos os países da América, do Chile e do Uruguai, passando pelo Brasil e todos os demais países até o Canadá. Essa é a América de muitas identidades que se encontram e se comunicam; não uma América que deseja fazer dos outros seu quintal.
Benito Antonio Martinez Ocasio tem feito um movimento inverso na música global. Em vez de se adequar ao que o mercado estadunidense da música pop deseja ouvir, ele conquistou esse mercado e o mundo mostrando o mais tradicional da sua terra com o requinte da sua genialidade original, criando sons, misturando ritmos e mostrando seu olhar a partir de sua “casita” (casinha) em Porto Rico. Segundo artigo publicado no The New York Times após o Super Bowl: “Debí Tirar Más Fotos é um álbum ambicioso, tanto narrativa quanto sonoramente, sobre a restauração da conexão com o lar e com a herança cultural. Parte de compreender a história é honrá-la, e parte de compreendê-la é saber quando chamar a atenção para suas tragédias.”
Em um momento tão difícil para as comunidades latinas e demais imigrantes nos EUA, ver e escutar o artista mais popular do mundo no momento mostrar sua identidade sem medo e fazer um tributo a seu país e às suas origens humildes, que não se resume ao show no Super Bowl, reforça o que aprendi com meus professores há quase duas décadas: clareza na sua identidade é necessária para uma relação positiva e de crescimento com o outro. Assim, podemos amar mais do que odiar, pois, como diz Benito, "a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor."
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