11 Fevereiro 2026
"É preciso reconhecer: a cultura não pede autorização para florescer. E vozes historicamente marginalizadas já não aceitam mais sussurrar, tampouco esperar” escreve Marcus Tullius no artigo a seguir, por ele enviado ao IHU. E completa; “Por isso, sem hesitação: Deus me livre de não ser latino.”
Marcus Tullius é mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024 e integra o Grupo de Reflexão sobre Comunicação (Grecom) da CNBB. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).
Eis o artigo.
O mundo todo está falando da final do Super Bowl. E com razão. O intervalo mais caro, mais disputado e com a maior audiência do planeta ultrapassou as fronteiras esportivas da final do campeonato anual da National Football League (NFL) - a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos. Desta vez, porém, o que se viu no maior palco midiático do mundo foi mais do que entretenimento: foi uma afirmação explícita de identidade cultural. O artista porto-riquenho Bad Bunny, o mais escutado em 2025, levou ao centro da cena global uma latinidade sem disfarces — expressa em língua, corpo, estética, ritmo e narrativa.
A comunicação, como já propunha Jesús Martín-Barbero, não pode ser reduzida aos meios. Ela precisa ser compreendida a partir das mediações culturais: os modos de vida, as identidades, os afetos e as histórias que atravessam as mensagens. O show de Bad Bunny expressa isso com clareza. De algum modo, todos esperavam uma performance à altura do evento. Ainda assim, a postura assumida pelo artista surpreendeu em gênero, número e grau.
O impacto pode ser medido por diversos indicadores: as reações imediatas nas plataformas digitais; a apresentação mais vista da história do Super Bowl, com estimativas de cerca de 135 milhões de espectadores acompanhando ao vivo apenas nos Estados Unidos; as manchetes nos jornais no dia seguinte (sim, isso ainda existe!); e os números de consumo musical. Segundo a Spotify, o catálogo de Bad Bunny registrou um salto de 210% nas reproduções globais, enquanto no Brasil o crescimento foi ainda mais expressivo: 426% em relação à semana anterior.
Diante dessas evidências, torna-se cada vez mais clara a intencionalidade daqueles minutos em um evento historicamente marcado pela centralidade cultural anglo-saxã. A presença de Bad Bunny cantando em espanhol reposiciona o imaginário sobre o que é — e sobre o que não é — a América. Ela não se resume aos Estados Unidos. Não são apenas as músicas, as coreografias, as cores ou os discursos: tudo exalava latinidade. Isso acontece porque o artista não fala para os latinos; ele fala desde a latinidade — mesmo sendo oriundo de um território politicamente vinculado aos Estados Unidos, mas culturalmente enraizado no Caribe.
Essa “onda Bunny” — e o deslocamento simbólico que ela provoca — gerou aplausos, emoção, incômodo e, sobretudo, identificação. É possível que, dentro de alguns dias, esse pico de atenção diminua. No ambiente digital, tudo se dissipa rapidamente. A vida cotidiana é atravessada pela velocidade, pela efemeridade dos conteúdos, pela lógica da atenção, pela fragmentação dos sentidos, pela mediação algorítmica da experiência e pela performatividade constante.
É nesse contexto que Byung-Chul Han, em No enxame, alerta que essa dinâmica não produz necessariamente comunidade. Com frequência, resulta em enxames marcados pela reatividade e pela ausência de vínculos duradouros — sem jamais chegar a um verdadeiro “nós”. O filósofo sul-coreano descreve ondas de indignação eficazes para mobilizar e concentrar atenção, mas insuficientes para gerar engajamento consistente e duradouro.
Se a performance e o sucesso de Bad Bunny eram esperados, também era previsível a reação irritada de Donald Trump, que classificou a apresentação como “absolutamente terrível”. Raso em seus argumentos — ao alegar, por exemplo, que o espetáculo não fazia sentido ou que o público não compreendia o que estava sendo cantado —, o presidente estadunidense demonstrou ter se sentido diretamente atingido. A reação diz muito mais sobre ele do que sobre o próprio Bad Bunny.
O incômodo, afinal, é simbólico. O que parece incomodar não é a música, mas o fato de milhões de pessoas, em rede mundial, vibrarem com uma expressão cultural que não pede licença, não exige tradução e não se ajusta aos moldes hegemônicos. O país mais populoso da América Latina, inclusive, não fala espanhol — e nem por isso deixa de reconhecer e corroborar esse gesto. Muitas vezes sentindo-se estrangeiros em sua própria pátria-continente, ver manifestações tão autênticas de latinidade amplia a capacidade de gerar pertencimento.
É preciso reconhecer: a cultura não pede autorização para florescer. E vozes historicamente marginalizadas já não aceitam mais sussurrar, tampouco esperar. Por isso, sem hesitação: Deus me livre de não ser latino.
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