24 Janeiro 2026
Deus não é mais concebido como um sujeito sobrenatural que intervém de fora na história, mas como o Mistério imanente da realidade.
O artigo é de Gilberto Borghi, teólogo leigo, filósofo e psicopedagogo clínico italiano, publicado Vino Nuovo, 19-01-2026.
Eis o artigo.
A terceira forma de encarnação que apresento (as outras duas aqui e aqui) é a teologia pós-teísta. Essa linha teológica representa uma das tentativas mais radicais de repensar a fé cristã para além das categorias do teísmo clássico. Autores como Paolo Gamberini, John Shelby Spong, Roger Lenaers e José María Vigil partem da convicção de que a imagem tradicional de Deus não é mais sustentável, nem cultural nem teologicamente, para a humanidade contemporânea. Nesse contexto, a doutrina da encarnação também passa por uma profunda reinterpretação.
No pós-teísmo, Deus não é mais concebido como um sujeito sobrenatural que intervém na história de fora, mas como o Mistério imanente da realidade, o fundamento último do sentido, a abertura para a profundidade da humanidade (Gamberini, Deus duepuntozero). Nessa perspectiva, Deus não "entra" no mundo, porque nunca esteve fora dele; não age como uma causa entre causas, nem suspende as leis da natureza. A revelação não consiste em intervenções sobrenaturais, mas na consciência histórica da presença do Mistério na experiência humana.
Nesse contexto, a encarnação é radicalmente reinterpretada. Não se trata mais da união metafísica de duas naturezas, divina e humana, nem do evento em que Deus "assume" a carne, mas da plena manifestação do divino em uma existência humana totalmente transparente ao Mistério. Jesus de Nazaré é então compreendido como uma figura paradigmática da humanidade aberta a Deus, uma revelação exemplar daquilo que todo ser humano é chamado a ser, uma epifania do divino como relação, não como poder.
A fórmula de Gamberini, X = X + Y, onde X indica o divino e Y o humano, pretende expressar precisamente este ponto: a encarnação nada acrescenta a Deus. O divino não cresce, não se transforma, não se completa através do humano. Jesus não é "mais Deus" do que os outros, mas é aquele em quem o humano se deixa penetrar radicalmente pelo Mistério. Outras reinterpretações que interpretam a encarnação numa chave simbólica (Spong, Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo), ou que apresentam Jesus como um "ícone vivo do sagrado" (Borg, O Deus que Nunca Conhecemos), também seguem esta linha.
Sem dúvida, existem elementos positivos nessa visão. Primeiro, ela transcende uma compreensão mitológica da Encarnação, evitando a imagem de um Deus que "desce do céu" ou que interrompe a ordem natural. Segundo, ela valoriza a humanidade concreta de Jesus e restaura a centralidade da práxis e da responsabilidade ética. Terceiro, ela representa uma crítica radical ao sagrado violento e sacrificial. A Encarnação não é interpretada como uma necessidade para a redenção da humanidade, mas como o desmascaramento de imagens idólatras de Deus que legitimam o poder e a violência. Finalmente, ela fomenta uma genuína abertura ao pluralismo religioso, reconhecendo que o Mistério também pode se manifestar por meio de outras figuras históricas e outras tradições espirituais.
Mas a própria fórmula que busca salvaguardar a transcendência imanente do divino levanta uma questão teológica crucial. De um ponto de vista lógico, de fato, X = X + Y só é possível se Y for zero, isto é, se não introduzir nenhuma diferença real e, portanto, se o elemento humano for, em última análise, desprovido de peso ontológico. Uma consequência problemática se segue: se o humano não faz diferença, então a encarnação não é um evento real, mas um simples reconhecimento do que já está sempre dado no Mistério. Nada realmente acontece para Deus; a história não introduz nenhuma novidade; a carne não tem impacto sobre o divino. O risco é que a realidade seja reduzida a um epifenômeno, um lugar de manifestação, mas não de decisão, não de risco, não de novidade autêntica.
Uma segunda questão crucial diz respeito ao próprio conceito de manifestação. A revelação autêntica pressupõe uma diferença real entre o que se manifesta e o que é manifestado. Se o humano não introduz nenhuma alteridade, então não manifesta o divino, mas simplesmente o reflete. Desta forma, a encarnação perde sua dimensão dramática. A vida de Jesus, seu conflito com as autoridades religiosas e políticas, sua morte violenta, correm o risco de serem reduzidos a uma mera mensagem ética ou simbólica. A cruz torna-se uma denúncia do sagrado violento, mas deixa de ser um lugar onde o amor de Deus permanece presente mesmo no abandono e na falha.
Mas a crítica mais profunda diz respeito à relação com Deus. A fé cristã, em sua essência, não é meramente uma experiência de profundidade ou consciência de significado, mas uma resposta a um amor que precede, chama e perdoa. Se Deus for concebido exclusivamente como um Mistério imanente ou uma estrutura da realidade, torna-se difícil imaginar uma relação dialógica. A oração tende a se transformar em meditação; a confiança em autoconhecimento; a fé em consciência.
Contudo, um amor que nada arrisca, que não se expõe ao outro, que não permite que a história o toque, ainda é amor? Nesse sentido, o pós-teísmo parece salvaguardar a absolutidade do divino ao custo de enfraquecer a lógica relacional que está no cerne da experiência cristã. Deus não é concebido como um sujeito relacional; ele não experimenta diferença interna; ele não é um Tu que ama um Tu. Isso torna a Trindade teologicamente supérflua.
A reinterpretação pós-teísta da Encarnação representa um esforço teológico sério e corajoso, capaz de libertar a fé de imagens idólatras de Deus e restaurar a centralidade da humanidade, da história e da responsabilidade ética. Contudo, levada às suas consequências extremas, parece exposta a um risco significativo: o esvaziamento da realidade como um lugar de novidade, de relacionamento e de amor arriscado. Mas como é possível conceber a Encarnação sem um Deus que ama primeiro, que se envolve verdadeiramente com a história, que aceita que a humanidade faz a diferença?
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