“A extrema-direita atual é uma cortina de fumaça da plutocracia”. Entrevista com Guy Standing

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16 Janeiro 2026

Em Precariado: una carta de derechos (Capitán Swing), Guy Standing identificou uma classe social que nascia. Era 2011, justamente o epicentro da crise imobiliária que provocou um terremoto econômico e social global. Antes do estouro da bolha, um mundo repleto de promessas de prosperidade era dado como certo. O livro chegou à Espanha em 2014, em plena efervescência da nova política. Com o Podemos à frente, os partidos falavam em regeneração. Aqueles que sofreram com a crise econômica confiaram nos novos partidos e, pouco tempo depois, viram aterrissar a direita à direita da direita como solução a todos os dissabores acumulados e acabaram se juntando no precariado, o grupo sobre o qual o professor Guy Standing se especializou.

A entrevista é de Juan Diego Madueño, publicada por El Mundo, 13-01-2026. A tradução é do Cepat.

Standing é pesquisador da SOAS University of London. Também fundou, e agora é copresidente honorário, a BIEN, uma rede global que busca promover a renda básica universal. É um economista que rebate alguns clichês. Identificou nas políticas neoliberais a causa da dissolução da classe média. Seus trabalhos mais recentes aprofundam as questões que perpetuam a crise do sistema.

A reação de uma direita operária dá um novo sentido ao seu trabalho. Em 2025, o precariado já substituiu, praticamente, a classe média. Guy Standing alerta para o declínio do Estado como garantidor do bem-estar social, uma lacuna por onde entram os discursos com soluções fáceis para problemas complexos. E acontece a transformação do sistema em um curral onde o dinheiro sempre acaba nas mesmas mãos.

Por isso, entre outras coisas, ele entende que é urgente desmantelar esse modelo. O crescimento econômico, diz, pouco melhora o nível de vida da maioria, e a esquerda não oferece soluções para seu nicho clássico de eleitores. Em janeiro, o professor Standing publica Human Capital: The Tragedy of the Education Commons. “O Estado neoliberal cercou os bens comuns da Educação e os privatizou. Trai o Iluminismo”, afirma.

Eis a entrevista.

Quando o precariado irá explodir o sistema?

Em escala global, o precariado já está dinamitando a ordem surgida após 1945, embora faça isto de forma muito diferente. Hoje, o precariado equivale ao que antes se entendia como classe trabalhadora: milhões de pessoas presas à insegurança, com renda instável, sobrevivendo com dívidas e perdendo direitos básicos de cidadania. Esse grupo, no entanto, não é homogêneo, está dividido em três grandes setores.

O primeiro é formado pelos Atávicos, pessoas procedentes do antigo proletariado ou de ambientes operários tradicionais, com pouca escolaridade e muito receptivas a discursos populistas que prometem recuperar um passado idealizado. Essa é a base do slogan de Trump: “Make America Great Again”. Uma falsa promessa que também ganha terreno na Europa e que permite à extrema-direita erodir os restos do Estado de bem-estar social e avançar para formas contemporâneas de neofascismo.

O segundo grupo é o dos Nostálgicos, composto por milhões de migrantes que não se sentem em casa em lugar nenhum, sem um presente claro ou um horizonte de estabilidade. Não apoiam os populismos neofascistas, mas se sentem excluídos e são injustamente apontados como responsáveis pelos problemas sofridos pelos Atávicos. Uma narrativa falsa que hoje constitui uma ameaça real.

O terceiro grupo é o dos Progressistas: pessoas instruídas que sentem que perderam seu futuro ou que nunca o tiveram. Também não votam na extrema-direita, mas não se reconhecem mais nos velhos partidos social-democratas. Querem “explodir o sistema”, impulsionados pela crise ecológica e pelo desejo de uma vida mais equilibrada e culturalmente rica. Seu peso cresce a cada dia e serão eles que marcarão o rumo da política progressista nos próximos anos.

‘Atávicos’, ‘Nostálgicos’ e ‘Progressistas’. O precariado é um grupo diverso. Sendo uma força com potencial para transformar o mundo, como pessoas tão diferentes podem juntas romper o sistema?

O precariado é uma classe em formação. Significa que os três grupos compartilham condições objetivas semelhantes, mas ainda não uma consciência comum ou uma visão compartilhada do que deve ser feito. No entanto, poderiam se unir em torno de uma agenda política que prometa seguridade básica e maior controle sobre o seu tempo.

Qual é a diferença entre proletariado e precariado?

O proletariado era a antiga classe trabalhadora de massas, e a era posterior a 1945, da social-democracia, esteve dominada pelas necessidades e aspirações do proletariado: pessoas com empregos manuais estáveis, em tempo integral. com sindicatos, negociação coletiva e benefícios estatais. Essa classe foi reduzida com a desindustrialização.

O precariado é hoje a classe trabalhadora de massas, de quem é exigida “flexibilidade” e dependência de um trabalho instável e inseguro, mas é definida sobretudo pela sua precariedade: a necessidade de depender dos favores discricionários de proprietários, empregadores, burocratas e familiares.

O precariado é mais receptivo ao populismo de direita?

Com poucas exceções, apenas os remanescentes do proletariado e os Atávicos do precariado apoiam a extrema-direita. A esquerda precisa se reinventar, oferecendo uma política baseada na seguridade básica e na recuperação dos bens comuns. Nesse contexto, a renda básica é uma vacina social.

Cada vez mais partidos de extrema-direita dizem representar os precários. O Vox está substituindo o Podemos?

Não. A extrema-direita é uma cortina de fumaça da plutocracia. Tenta convencer o precariado de que sua insegurança se deve a outros precários. Mas se deve ao capitalismo rentista. Trump, Musk e Bezos não são seus amigos. A extrema-direita é a resposta equivocada à pergunta equivocada.

Você cunhou o termo há 14 anos. Desde então, o mundo mudou. De fato, o precariado ficou sem representação política. Pelo menos na Espanha, os novos partidos que falavam em regeneração se revelaram uma fraude. Isto levanta duas questões para mim. Canalizar essa raiva pela via democrática clássica é uma utopia? Como o precariado mudou durante esse tempo, abrange cada vez mais pessoas?

O precariado mudou de modo apaixonante. Embora estejamos atualmente ameaçados pelos Atávicos aliados a plutocratas reacionários, essa parte do precariado está em seu ponto máximo ou até mesmo o ultrapassou em termos numéricos. Estão envelhecendo, são mais brancos e mais masculinos. Enquanto isso, os progressistas crescem a cada dia.

É necessário lembrar que as classes e a política de classe atravessam fases. Inicialmente, os líderes - ou aqueles que se apresentam como tais - são “rebeldes primitivos”: definem-se por aquilo a que se opõem, não por uma visão unificada do que defendem. Depois, desaparecem na irrelevância ou na autodestruição.

No entanto, à medida que cresce a parte instruída da nova classe de massas, define-se uma nova visão progressista, baseada invariavelmente na luta pela segurança econômica e o controle do tempo dentro da estrutura produtiva existente. Isto está acontecendo com uma rapidez notável em termos históricos.

O debate se dá em termos geracionais. Muitos adultos culpam a geração anterior por seus problemas econômicos ou trabalhistas. O que está por trás disto é a impotência de não ter acesso a recursos que antes estavam disponíveis. Os jovens têm alguma chance real de ter acesso à riqueza da geração ‘baby boomer’?

Fala-se cada vez mais de uma “herdocracia”: uma minoria que herda riqueza e propriedades e, assim, tem acesso a posições de privilégio. Mas esse é um grupo pequeno. Para a maioria, poupar e conseguir uma casa própria está se tornando cada vez mais difícil. Pensar o conflito em termos geracionais é um erro. O precariado atravessa todas as idades. Muitos idosos fazem parte dele e estão conscientes de que seus filhos e netos também farão. O verdadeiro eixo do conflito não é a idade, mas a classe social.

Tenho a sensação de que a herdocracia é a maneira que o sistema encontrou para se reiniciar. Por um tempo, permite a prosperidade, mas agora volta a se tornar um gargalo pelo qual apenas alguns conseguem passar. O avanço da herdocracia substitui a mobilidade social pelo clássico “nascer na família certa”. O que o torna diferente agora?

A “herdocracia” é apenas um sintoma do capitalismo rentista globalizado atual. Na era posterior a 1945, dominada pela social-democracia, mesmo no campo conservador, a propriedade era buscada como um meio de alcançar uma vida melhor, baseada na segurança do trabalho. Hoje, a propriedade é muito mais um meio para gerar muito mais riqueza. Harold Wilson, o último primeiro-ministro trabalhista progressista do Reino Unido, disse certa vez que o capital financeiro “ganhava dinheiro, enquanto você dormia”.

Por que as promessas de prosperidade não foram cumpridas?

Vivemos em uma era de capitalismo rentista globalizado, definida como uma forma de capitalismo em que cada vez mais renda, riqueza e poder vão para os proprietários do capital financeiro, físico e intelectual, e cada vez menos para aqueles que dependem do trabalho para viver. Nesse contexto, qualquer aumento no PIB ou do crescimento econômico contribui muito pouco para melhorar o nível de vida da maioria, especialmente do precariado em expansão. É essencial desmantelar o capitalismo rentista, como propus em meus livros.

Na Espanha, o Governo se vangloria de indicadores macroeconômicos positivos. Para muitos cidadãos, isto se tornou uma rotina enraivecedora: vivem cada vez pior, enquanto o país parece estar cada vez melhor. Por que a riqueza não chega mais aos trabalhadores?

Como argumento em meu livro La política del tiempo e em outros trabalhos, esses indicadores macroeconômicos são fraudulentos. O conceito original de PIB foi criado nos anos 1930 como uma medida dos recursos disponíveis para a guerra. Precisamos mudá-lo. Além disso, devemos reformar profundamente o sistema de direitos de propriedade intelectual, que concede benefícios monopolistas aos detentores de patentes, mesmo que muitas vezes não tenham feito nada para merecê-los. É complexo, mas, em última instância, o sistema está manipulado em favor dos plutocratas e das elites.

Podemos falar de uma conspiração das elites ou é cedo demais para explicações conspiratórias?

Não se trata exatamente de uma conspiração. É o reflexo do poder acumulado e do fracasso progressista em enfrentá-lo. Os social-democratas são uma força esgotada.

Lendo e ouvindo-o, parece que nosso sistema atingiu seus limites com o “capitalismo rentista”. Qual seria a alternativa? Quais são os perigos de desmantelá-lo?

Como argumentei em meus livros, chegamos a um ponto crítico na Transformação Global, com o perigo real de um novo fascismo. Trump e seu entorno estão acelerando essa deriva, e a extrema-direita europeia copia seus gestos. O primeiro passo é reconhecer que estamos diante de uma crise existencial e oferecer à classe trabalhadora de massas - o precariado - uma agenda baseada em um novo sistema de distribuição de renda que garanta uma seguridade básica real.

Como a renda básica universal se encaixa na cultura do esforço?

É vital abandonar preconceitos. O sistema de distribuição do século XX quebrou. Precisamos reciclar a renda excedente do capitalismo rentista por meio de uma renda básica para todos os residentes legais. Podemos chamá-la de dividendos comuns: uma parte da riqueza coletiva criada pelas gerações passadas. Se alguém diz que só deve ser paga pelo trabalho, então, deveria apoiar a abolição da herança. Como o Papa Francisco compreendeu, os bens comuns pertencem a todos nós. A ideia de que a renda básica reduz o trabalho é um preconceito. Os experimentos mostram o contrário.

Avançamos para um mundo de ricos e pobres, sem classe média? E se é este o caso, os Estados podem fazer algo para impedir esta direção?

Na verdade, temos uma estrutura de classes fragmentada: no topo, uma plutocracia absurdamente rica de bilionários; abaixo, uma elite bilionária; um assalariado declinante (o que você provavelmente chama de classe média, com emprego estável e aposentadorias generosas); um proletariado em desaparecimento; e um precariado em crescimento. Abaixo do precariado, há uma subclasse de pessoas que morrem prematuramente nas ruas de nossas cidades.

É claro que os governos poderiam impedir essa fragmentação. No entanto, teriam que enfrentar o capitalismo rentista e reformar o Estado de bem-estar social, tributando aqueles que se apropriam de nossos bens comuns e redistribuindo a renda na forma de uma renda básica crescente.

Quais forças impulsionam essa divisão, sem meios termos?

As finanças globais. É o rabo que abana o cachorro. BlackRock, Goldman Sachs, J.P. Morgan e outros gigantes financeiros, em aliança com as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício, a grande indústria farmacêutica e a ainda maior indústria armamentista estão saqueando nossas economias e sociedades.

No debate público, há uma disputa entre a geração ‘baby boomers’, que veem os jovens como preguiçosos, e os jovens que veem os nascidos em um contexto favorável como meros afortunados. É possível a reconciliação?

Rejeito as análises que colocam gerações umas contra as outras. Desviam a atenção dos verdadeiros problemas estruturais. Em minhas palestras sobre o precariado em muitos países, vejo pessoas idosas que fazem parte do precariado e muitas outras que entendem que seus filhos e netos estão entrando nele. Detesto essa divisão em caixas geracionais absurdas. O que importa é a classe.

Para muitos jovens instruídos, é frustrante compartilhar a posição social com trabalhadores migrantes. Não existe um remédio?

Sim, existe. Começa pelo reconhecimento de que o imigrante não é o inimigo, nem a causa da insegurança do universitário. A verdadeira causa é um sistema econômico que concentra renda, riqueza e poder em uma diminuta plutocracia e uma elite autossatisfeita.

Publica agora ‘Human capital: the tragedy of the education commons’. Você argumenta que a educação mudou. Por quê? O que aconteceu?

A ideia preciosa da educação nasceu na Atenas clássica como um bem comum, um bem público, um meio para aprender a ser humano, a cultivar a empatia, o respeito pela verdade e o refinamento moral. Nos últimos 50 anos, a educação tornou-se uma indústria, um bem privado voltado para o sucesso material. O Estado neoliberal cercou os bens comuns educacionais e os privatizou, mercantilizou e financeirizou. Está traindo os valores do Iluminismo. Essa é a base do meu livro.

O que você propõe para preservar sua essência?

Muita coisa poderia ser feita, e com relativa facilidade, mas a esquerda precisa acordar. A prioridade é deter e reverter a infiltração das finanças, especialmente do capital privado. O precariado estará na vanguarda desse contramovimento porque precisa de uma forma mais emancipadora de aprendizagem ao longo da vida.

A herança é a única via para alcançar o nível de vida das gerações anteriores?

Não, não e não! A alternativa passa pela recuperação dos recursos comuns e a redistribuição da riqueza por meio de uma renda básica, concebida como um direito de cidadania.

Por que os sindicatos perderam a capacidade de representação?

Foram concebidos para o capitalismo industrial e para o proletariado clássico. Não souberam se adaptar à realidade do precariado.

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