O futuro está no direito: a força não nos salvará. Artigo de Raniero La Valle

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16 Janeiro 2026

"O futuro não reside na força, mas no direito. Quando isso acontecerá? Os cientistas atômicos colocaram os ponteiros do relógio em 89 segundos antes da meia-noite, que todos interpretaram como o fim do mundo. Na verdade, poderia ser o começo, isto é, o momento em que tudo recomeçará e o direito será estabelecido na Terra", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 14-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em um programa de televisão chamado "Em Outras Palavras" (que depois são quase sempre as mesmas), o professor Gustavo Zagrebelsky lembrou o aforismo de que o direito sem a força é impotente e a força sem o direito é tirania. Os presentes então lhe perguntaram o que a Europa deveria fazer, esperando que ele respondesse que deveria formar um exército europeu. Em vez disso, para espanto quase geral, Zagrebelsky respondeu que deve resgatar seus valores de justiça, de liberdade, de igualdade, de constituições, e não se meter a travar guerras. Sem citá-la, ele se referia à famosa "tradição judaico-cristã", que justamente naquela mesma semana relembrava nas igrejas a promessa profética de que o povo de Deus "não se desanimará até que tenha estabelecido a justiça na terra".

Portanto, o futuro não reside na força, mas no direito. Quando isso acontecerá? Os cientistas atômicos colocaram os ponteiros do relógio em 89 segundos antes da meia-noite, que todos interpretaram como o fim do mundo. Na verdade, poderia ser o começo, isto é, o momento em que tudo recomeçará e o direito será estabelecido na Terra: ou seja, deveria haver uma inversão, porque hoje acontece o contrário. Trump, como todos dizem, atônitos, arquivou o direito, considerando sua moralidade suficiente. O que falta na política europeia e mundial é uma resposta proporcional a esse desafio. Mas isso acontece porque não entenderam o que está acontecendo conosco, e todos se comportam como se simplesmente tivessem perdido as eleições nos EUA, e tudo se resumisse a Trump, uma espécie de Meloni em grande escala que será descartado na primeira oportunidade e tudo voltará a ser como era antes. Em vez disso, Trump faz parte de uma América que mudou de identidade: é com os Estados Unidos da América que é preciso lidar.

Mas como mudaram? Lucio Caracciolo afirma que o Império Estadunidense acabou: isso é de fato reconhecido no recente documento sobre a Segurança Nacional dos EUA, que inclusive renuncia à ideia "eterna" da OTAN. Podíamos nos iludir (e eu pessoalmente também) pensando que isso significava um abandono do seu domínio sobre o mundo, reabrindo assim espaços de autonomia para os outros povos (incluindo o nosso) e se pudesse passar para o multipolarismo. Em vez disso, a escolha estadunidense expressa por Trump (MAGA) é o oposto: continuar a dominar o mundo, mas não com todos aqueles gastos organizacionais (guerras em todos os lugares, bases militares, mudanças de regime), mas sim como um Estado-pirata que sai e amealha pilhagens à vontade: conforme a situação, esmagando a Venezuela, apossando-se da Groenlândia, construindo cassinos em Gaza, legitimando o genocídio de Netanyahu, bombardeando o Irã, atacando e tomando petroleiros, dando passe livre à inteligência do superego artificial, retirando-se do sistema da ONU. Mas então a resposta é que, além de escoltar os petroleiros, como se deve fazer com piratas no mar, é preciso instituir de fato, e todos juntos, incluindo Rússia e China, o direito sobre a Terra.

Portanto, resistência não violenta e a transição para a unidade humana: e hoje isso é possível, porque a história sofreu uma ruptura com o nazismo (e o fascismo, com todo o respeito por Meloni), e a época das soberanias absolutas, das Igrejas divididas e dos povos predestinados e escolhidos, dos deuses dos exércitos, chegou ao fim; certamente, levará cem anos para dar-se conta de todas as consequências. Talvez hoje o outro estadunidense, Robert Prevost, esteja tentando, mas todos podemos tentar juntos, e até os piratas seguirão o exemplo, porque, afinal, a América não é apenas aquela.

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