O manicômio majestoso. Artigo de Ronan Belo Júnior

Foto: Tunart | Getty Images Canva

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29 Novembro 2025

"O quadro é claro demais para continuar sendo negado. Padres estão morrendo. Fiéis adoecidos estão liderando. Bispos estão calados. A liturgia tornou-se performance. E a estrutura continua produzindo o mesmo tipo de subjetividade dócil, culpada e silenciosa que Foucault descreveu como fruto de instituições que preferem ordem à verdade", escreve Ronan Belo Júniorpresbítero de Uberaba (MG), em artigo enviado ao Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Eis o artigo.

Hoje mais um padre se suicidou. Mais um. A notícia chega como sempre: rápida, sussurrada e imediatamente engolida pelo silêncio institucional. A Igreja pede orações, mas não pede explicações.

Reza, mas não encara. Consola, mas não questiona. A cada morte, nada muda. A cada tragédia, tudo continua igual. E a pergunta mais urgente, a que ninguém quer pronunciar, explode por dentro: quantos cadáveres serão necessários para admitir que a Igreja está adoecendo seus próprios ministros? O cenário já não pode ser descrito com suavidade. A instituição se tornou um manicômio majestoso.

Majestoso nos símbolos. Manicômio no funcionamento. Um lugar onde a aparência litúrgica convive com o colapso psicológico. Onde a disciplina pastoral esconde o desespero dos que servem. Onde homilias falam de esperança enquanto presbíteros penduram a própria vida no limite. Foucault explicou que toda instituição que precisa preservar sua imagem antes de enfrentar sua verdade cria dispositivos de controle que sufocam o indivíduo. A Igreja, nesse ponto, tornou-se um laboratório perfeito do que ele chamou de “tecnologias de poder”: vigilância, normalização e silenciamento. Padres são treinados para parecer fortes, obedientes, impecáveis. São moldados para funcionar. Não para viver. O sofrimento é visto como falha. A fragilidade, como ameaça. O resultado é um corpo clerical disciplinado até a exaustão.

E quando a estrutura aperta mais do que o humano suporta, o desfecho se repete: suicídio. Enquanto padres morrem, lideranças adoecidas são empurradas para o centro das comunidades. Gente em surto espiritual vira coordenador. Pessoas em tratamento psiquiátrico são colocadas como referência de fé. Delírios são promovidos a carismas. Visões semanais ganham microfone. A emoção descontrolada ocupa funções que exigiriam discernimento e estabilidade. A Igreja confunde barulho com espiritualidade e entrega poder justamente a quem mais precisa ser protegido de si mesmo. E onde estão os bispos? Muitos desaparecem atrás de discursos genéricos, reuniões protocolares e uma lentidão pastoral que chega a ser cruel. Foucault chamaria isso de “governamentalidade”: administrar corpos, não cuidar de vidas. Uma liderança que regula, mas não acompanha.

Que organiza, mas não se envolve. Que mantém a ordem do manicômio, enquanto evita olhar para quem está desabando dentro dele. Nesse vazio, surgem os padres midiáticos. Performam segurança, vendem certezas, disputam atenção e transformam o Evangelho em produto. São líderes que acumulam seguidores enquanto a base eclesial se fragmenta emocionalmente. Não formam consciência. Formam público. São figuras perfeitas para o manicômio majestoso: muito barulho, pouca verdade.

O quadro é claro demais para continuar sendo negado. Padres estão morrendo. Fiéis adoecidos estão liderando. Bispos estão calados. A liturgia tornou-se performance. E a estrutura continua produzindo o mesmo tipo de subjetividade dócil, culpada e silenciosa que Foucault descreveu como fruto de instituições que preferem ordem à verdade.

A questão, agora, é política no sentido foucaultiano: quem governa quem?

A Igreja governa seus ministros ou os destrói? A fé cura ou adoece?

O Evangelho liberta ou disciplina até a morte?

O manicômio majestoso pode continuar funcionando por algum tempo, mas o preço será cada vez mais alto. E hoje, novamente, ele foi pago com a vida de um padre.

A Igreja precisa decidir se quer continuar administrando cadáveres ou finalmente começar a salvar pessoas.

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