Um pontífice no G7. Artigo de Fulvio Ferrario

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05 Junho 2024

"A razão é muito simples: o Cristianismo é uma realidade constitutivamente plural, o Catolicismo Romano é sem dúvida a expressão numericamente maioritária, mas não a única. É verdade que Roma avança constantemente uma pretensão exclusivista, ou seja, acredita ser a única detentora da plenitude cristã. Precisamente tal atitude, porém, impede (ou deveria impedir: muitas vezes se registam preocupantes incertezas, especialmente do lado protestante) às outras realidades cristãs de se sentirem representadas pelo 'Big Brother' vestido de branco", escreve Fúlvio Ferrario, teólogo italiano e decano da Faculdade de Teologia Valdense, em Roma, em artigo publicado por Confronti, junho-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A participação do Pontífice romano no G7 liderado pela Itália, que se realizará na Puglia de 13 a 15 de junho, não deveria constituir uma surpresa inesperada, mas continua a ser um evento de considerável importância.

A surpresa não é absoluta por vários motivos. Em primeiro lugar, o Vaticano é um poder político no tabuleiro de xadrez mundial. É à sua maneira, claro, mas a pergunta sarcástica atribuída a Stalin: “Quantas divisões tem o Papa?”, e míope. O peso geopolítico do poder romano é medido em termos diferentes. Pelo menos no Ocidente, a aprovação direta ou indireta do papa, bem como a colaboração da sua diplomacia, agrada a qualquer um: depende do preço, obviamente, mas o de uma passarela internacional não é muito alto, pelo contrário.

Em segundo lugar, estamos em Itália e, precisamente, na Itália de liderança pós-fascista: um papa na lapela de Meloni constitui uma oportunidade muito tentadora, que foi aproveitada.

Por fim, não surpreende que o convite tenha sido aceito. O esforço da propaganda romana tende a apresentar o Papa como a única verdadeira autoridade espiritual global é, sem dúvida, um palco como o G7 é funcional para tal imagem. Muitas vezes, é preciso dizer, o “magistério” pontifício produz um o consenso tão inevitável quanto não influente nas políticas concretas (e no caso dos bons votos, tradicionalmente dados com grande generosidade: paz, justiça, responsabilidade no uso dos recursos etc.).

No próximo G7 se falará sobre inteligência artificial. O pontífice, é preciso dizer, (também) dispões sobre esse tema de consultoria particularmente competente e experiente. Mas, além do fato de que, além de infalível e invariavelmente profético, ele é apresentado por seus arautos (mesmo "leigos") como praticamente onisciente, o jogo midiático não exige conteúdos substanciais ou originais, mas sim visibilidade, que é garantida.

Que um dos poderosos da terra se sente à mesa dos outros poderosos e compartilhe seus rituais e, portanto, totalmente normal: pode causar perplexidade em alguns, mas como dizia Giulio Andreotti, que de poder era um grande especialista e à sua maneira também de papas, “o poder desgasta quem não o tem”. De fato, o papado é fresco como uma rosa.

O que, na minha opinião, não pode ser reconhecido a essa grande instituição é a pretensão de falar em nome de todo o cristianismo (ou, até mesmo, das "religiões"). A razão é muito simples: o Cristianismo é uma realidade constitutivamente plural, o Catolicismo Romano é sem dúvida a expressão numericamente maioritária, mas não a única. É verdade que Roma avança constantemente uma pretensão exclusivista, ou seja, acredita ser a única detentora da plenitude cristã. Precisamente tal atitude, porém, impede (ou deveria impedir: muitas vezes se registam preocupantes incertezas, especialmente do lado protestante) às outras realidades cristãs de se sentirem representadas pelo “Big Brother” vestido de branco.

A questão, claro, é imediata e, do lado católico, é muitas vezes colocada sem muitos eufemismos: talvez haja, em algum lugar, outra instância cristã que possa ganhar uma visibilidade (geralmente, em vez de visibilidade, se fala de “autoridade”, mas aí o discurso se complica, como já foi observado) até mesmo comparável ao do bispo de Roma? Traduzindo: quem pensaria em convidar para o G7 o Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas, isto é, de um organismo cuja política, e não raramente os membros das próprias igrejas que fazem parte, ignoram até a sua existência?

Aqui, porém, as questões se multiplicam: pouca relevância para a diplomacia das grandes potências, muito mais para a igreja cristã. A primeira diz respeito exatamente a essas duas realidades e certamente não é nova: é possível ser igreja e potência diplomática ao mesmo tempo?

A segunda: o que significa “visibilidade” na linguagem especificamente cristã?

A terceira aplica-se, ainda mais, a certas assembleias protestantes que conheço: qual é, para usar palavras de um teólogo do século XX, a palavra realmente eclesial, isto é, não geral-genérica, a ser dita ao “mundo”? Poderíamos continuar, mas por enquanto pode ser suficiente.

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