17 Agosto 2024
"Ele que prefere que você ame ao próximo do que ame a ele, mas o mandamento de amar a Deus é o primeiro e não o segundo. Por quê? Porque tudo começa do amor", escreve Paolo Ricca, teólogo, pastor valdense italiano e professor emérito da Faculdade Valdense de Teologia, em artigo publicado por Sant'egidio, movimento internacional de leigos, baseado na oração, na solidariedade, no ecumenismo e diálogo, 26-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
O artigo foi publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 06-02-2024.
Eis o artigo.
Meditação do pastor valdense Paolo Ricca, na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Naquele tempo aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada.”
Queridos irmãos e irmãs, hoje, 25 de janeiro, termina a Semana de Oração pela unidade dos cristãos. Na realidade, os cristãos já estão unidos no essencial. O fato de eu estar aqui, sou um pastor valdense, estar aqui para comentar diante de vocês, comunidade católica, a Palavra de Deus, é um pequeno sinal, mas muito real, muito eloquente do fato de que os cristãos já estão unidos no essencial. Só que não acreditam, esse é o problema. Eles não acreditam na sua unidade, acreditam na sua divisão, estão convencidos de que estão divididos e, em vez disso, estão unidos. E então a oração desta noite terá que ser esta: Senhor, convença os cristãos de que já estão unidos. Amém. O tema desta semana, como vocês já sabem, é o tema mais lindo que poderia existir. Não há tema mais lindo do que esse, é o que vocês ouviram na leitura há poucos minutos, ou seja: Ame ao Senhor seu Deus, ame ao seu próximo como a si mesmo. Deus não nos pede mais nada, o próximo não nos pede mais nada, tudo não nos pede mais nada além de amar, além deste amar.
Não temos mais nada a desejar além deste amar. Tudo quer ser amado, o céu, a terra, os animais, as flores, as estrelas, o firmamento, tudo precisa ser amado. Também não precisamos de mais nada, não precisamos de mais nada, e ao longo de nossas vidas não somos nada além de pedintes de amor. Amar é o sentido da vida, é o conteúdo da vida, é o valor da vida.
Não há nada mais, nada melhor, nada mais verdadeiro, nada mais profundo, nada mais cristão e nada mais humano do que amar. Ame, como dizia Santo Agostinho, ame e depois faça o que quiser. Mas ame!
Mas paremos por um instante nesta palavra de Jesus, com a qual Jesus resumiu toda a fé judaica, toda a sua fé, toda a fé cristã, todo o cristianismo, toda a fé humana, ele a resumiu nestas duas palavras: ame a Deus e ame ao seu próximo.
Vamos nos debruçar por um instante nessa palavra. Jesus combina o amor a Deus e o amor ao próximo, mas os combina de uma forma muito singular. Na sua opinião, é possível amar ao próximo sem amar a Deus? Sim, é possível. No nosso tempo temos muitos exemplos. Pensem em Gino Strada, que repetidamente falou que não acreditava em Deus, mas amava ao próximo. Médicos Sem Fronteiras, Anistia Internacional, muitas associações de direitos humanos, em quase todo o mundo, são associações, comitês que não se referem diretamente a Deus, não se preocupam em falar e pregar e acreditar em Deus, mas amam ao próximo.
É possível amar ao próximo sem amar a Deus, mas não é possível amar a Deus sem amar ao próximo. E se você não pode amar ao Deus que você não vê, pelo menos ame ao próximo que você vê. Deus não vai ficar chateado, Deus não é susceptível, não tem ciúmes porque você ama ao homem e não ama a ele. E você não busque álibis dizendo: mas eu não posso amar ao próximo porque não amo a Deus. Não, não, você pode muito bem amar ao próximo sem amar a Deus, e Deus fica feliz mesmo assim.
Ele fica feliz mesmo assim. Por quê? Porque Deus prefere que você ame ao seu próximo, do que ame a ele. Deus se importa mais que o próximo seja amado do que ele seja amado. É por isso que é possível amar ao próximo mesmo sem amar a Deus. Então, vejam essa forma particular com que Jesus combinou os dois mandamentos, ligando-os estreitamente e ao mesmo tempo mantendo-os distintos, para que ninguém encontre a desculpa de não amar a Deus, para não amar ao próximo.
Mas, ao mesmo tempo, Jesus diz que o amor a Deus está em primeiro lugar. O primeiro, não é o segundo, é o primeiro. E por quê? Vamos tentar entender porque é o primeiro e não o segundo. Ele que prefere que você ame ao próximo do que ame a ele, mas o mandamento de amar a Deus é o primeiro e não o segundo. Por quê? Porque tudo começa do amor.
Tudo começa no amor, nós também. Por que vocês acreditam que estão neste mundo? Por que vocês acreditam que nasceram? Por acaso? Não, vocês sabem. Todos nós, todas as pessoas que existem e que vivem nasceram de um ato de amor, um ato de amor dos nossos pais. Se nossos pais não tivessem se amado, nós não existiríamos, não estaríamos vivos, não estaríamos neste mundo. Somos todos filhos do amor, filhos de um amor, amor humano além de amor divino, amor humano, sim, mas filhos do amor. Tudo começa do amor, a vida começa do amor. O amor cria, a indiferença não cria nada, a indiferença é estéril. O ódio destrói, destrói tudo, destrói por fora, destrói por dentro e nós vemos nestes dias, nestas terríveis semanas, vemos a força destrutiva do ódio. Quanto pode destruir, quanto pode aniquilar. Assustador!
O amor, ao contrário, edifica, o amor constrói, onde há amor, há vida, a vida floresce, a vida refloresce. Tudo começa e tudo recomeça com o amor. Por isso é o primeiro, porque é a fonte de tudo, tudo vem daí.
Essa é a primeira razão pela qual o amor a Deus está em primeiro lugar. Mas há uma segunda razão, e o apóstolo Paulo a revela quando diz que três coisas perduram: a fé, a esperança e o amor, mas a maior delas é o amor. Então a fé pode ser grande, tão grande que pode mover até montanhas, Jesus disse; a esperança pode ser grande, tão grande que pode resistir a todas as derrotas e sair vitoriosa de todas as decepções. Mas o amor é maior. É maior que a esperança, que é grande; é maior que a fé, que é grande. O amor é maior. Por quê? Porque a fé é viver diante de Deus, a esperança é viver na expectativa de Deus, mas o amor é viver em Deus. A fé e a esperança nos aproximam de Deus, mas o amor nos leva para dentro Deus: quem ama está em Deus e Deus está nele.
Por isso é maior, porque um dia a fé acabará porque se tornará visão, veremos o que agora apenas cremos. A esperança um dia acabará, porque se tornará realidade, o que agora esperamos se tornará um fato que constataremos, que veremos. Mas o amor nunca acaba, é o começo e é o fim. Tudo começa do amor, tudo continua eternamente com o amor. Por isso é maior, porque é eterno. A primazia do amor é a primazia da eternidade. Primeiro mandamento, maior de todos os mandamentos. Somos filhos e filhas desse começo e desse fim. É por isso que Jesus não nos pede nada mais do que amar. Amém.
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