“O próximo papa poderia convocar um concílio”. Entrevista com D. Erwin Kräutler

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07 Dezembro 2023

Já durante o Sínodo para a Amazônia em 2019, Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, no Brasil, se comprometeu com reformas. O prelado de origem austríaca lança hoje um olhar crítico sobre o processo sinodal: “Nada resultará disso”.

A entrevista é de Jacqueline Straub e editada por Grégory Roth, publicada por cath.ch, 05-12-2023.

O bispo de 84 anos fala sobre a violência policial, a falta de padres, a necessidade de sacerdotes do sexo feminino e o fato de muitas vezes se apresentar como um homem casado

Dom Erwin. (Foto: CNBB)

Eis a entrevista.

Você nasceu e foi criado em Koblach, Vorarlberg. Como os habitantes da aldeia veem o bispo que você se tornou quando o encontram na rua?

Aqui sou simplesmente Erwin. Recentemente estive no hospital. Um homem idoso da aldeia vizinha estava deitado ao meu lado. Quando ele me perguntou onde eu morava, eu disse: “no Brasil”. Ele então me disse: “Dom Erwin também mora no Brasil”. Isso me fez sorrir. Mais tarde, é claro, revelei-lhe minha identidade.

Depois de dois anos na Áustria, você voltou ao Brasil. O que é tão importante para você na Amazônia?

Simplesmente pessoas. E é aí que eu pertenço. Embora Vorarlberg também seja muito bonita, claro.

Como foi o seu ministério como bispo 'globe trotter'?

Eu estava em minha casa episcopal apenas algumas semanas por ano. O resto do tempo passei conhecendo o povo da Amazônia. Viajei em um pequeno barco, onde pude montar minha rede. Na maior parte do tempo, passei dois dias numa comunidade: ali celebrei a Eucaristia e crismei jovens. Depois saí novamente, para tentar visitar o máximo possível. Mesmo que as pessoas só vejam um padre, em média, uma vez por ano.

Como você foi recebido pelas comunidades?

Sempre foi uma festa. Fui abraçado por toda a aldeia. E sempre me perguntaram onde está minha esposa. Quando jovem bispo, disse uma vez que não era casado. Então o chefe da aldeia olhou para mim de forma estranha. Ele simplesmente não conseguia entender, porque o conceito de solteiro não se enquadra na realidade de suas vidas. Então, depois, eu sempre falava que minha mulher estava longe, muito longe. Os aldeões acharam uma pena eu ter vindo sozinho, mas pelo menos não houve mais reações estranhas.

O senhor mencionou o fato de que muitas comunidades só veem um sacerdote uma vez por ano. Como mudar isso?

Na minha diocese, 80 a 90% dos católicos só celebram a Eucaristia uma vez por ano. É um escândalo. A solução seria ordenar padres entre homens e mulheres que se formaram nas comunidades eclesiais. Poderiam assim celebrar a Eucaristia todos os domingos.

Durante o Sínodo para a Amazônia, você pediu precisamente isso, com vários outros bispos...

Sim, porque o Papa Francisco havia declarado a nós – os bispos – antes do Sínodo: “Façam-me propostas corajosas”. Mas, no fim, ele não aceitou, o que me frustrou e decepcionou muito. Durante o Sínodo, 80% dos bispos votaram a favor dos viri probati e do diaconato feminino. É inconcebível que o Papa Francisco não o tenha mencionado na sua exortação apostólica. Um confrade muito tradicional me disse: “Tenho quatro homens casados que posso ordenar imediatamente. Não entendo por que nossos pedidos não foram implementados”.

Qual é a sua opinião sobre o atual processo sinodal da Igreja?

Nada resultará disso. Além dos custos, nada foi feito. O problema é que nem todos os temas de reforma são abordados. Na minha opinião, as reformas do futuro seriam inicialmente a ordenação de homens casados e depois o diaconato feminino. A ordenação de mulheres seria o próximo passo.

Francisco diz que as mulheres não devem ser ordenadas para serem protegidas do clericalismo.

Para mim, isso é incompreensível. Existem homens não ordenados na Amazônia que são muito mais clericais do que as mulheres que lideram comunidades. Não conheço nenhuma mulher 'clericalizante'. Nenhuma.

João Paulo II, no entanto, disse que não poderia haver mulheres sacerdotes.

O Papa polaco infelizmente não percebeu que as mulheres hoje têm um estatuto completamente diferente. No passado, não havia nem mulheres nos estudos de teologia. Hoje o mundo é diferente e precisamos de mulheres, inclusive em cargos oficiais. Não é lógico que sejam os homens muito velhos que concebam a teologia das mulheres.

Como você percebeu este período sob o pontificado de João Paulo II?

A primeira vez que o encontrei, ele me perguntou quantos padres eu tinha. Eu respondi: 16. Ele me disse que era pouco para essa área grande e me perguntou como eu me organizava. Expliquei-lhe que também havia leigos que faziam funcionar as comunidades eclesiais de base. Quando ele me disse que achava bom que a Igreja estivesse ao lado dos pobres, isso me irritou, porque sabia que ele havia lutado durante muito tempo contra a Teologia da Libertação.

Como bispo, você ficou do lado dos pobres. Quando você se sentiu mais em perigo?

Sobrevivi a um ataque dirigido a mim, mas não ao meu motorista. Foi incrivelmente doloroso. Da mesma forma, quando uma freira próxima foi assassinada por causa do seu compromisso com os pobres, fui ameaçado de morte por causa do apoio que tentei dar aos investigadores.

Por que os criminosos vêm atrás de você?

O meu compromisso com os pobres e com o ambiente não agrada aos poderosos que os exploram. Por outro lado, denunciei pessoas influentes em Altamira por abuso sexual de crianças e prostituição infantil. Uma adolescente da minha diocese foi estuprada por homens de alto escalão. Os pais conversaram comigo sobre isso. Fui à polícia. E depois do meu depoimento os canais de televisão já estavam em frente à delegacia. Eu disse diante das câmeras que esses homens eram monstros. À noite, o delegado veio me ver e me disse que eu estava sob proteção policial. A princípio não aceitei, mas ele me convenceu de que os criminosos queriam tirar minha vida. Desde 2006, sempre houve dois policiais ao meu lado.

Outros compromissos fizeram de você alvo de pessoas poderosas?

Sim, quando defendi os indígenas contra a construção de uma barragem [a de Belo Monte, (nota do editor)]. Ou quando os trabalhadores agrícolas não eram pagos há nove meses, apesar de terem entregue a colheita, organizavam um bloqueio na estrada. Não fui a favor da ação deles, mas apoiei-os nesse aspecto. Quando a polícia chegou, ficamos sentados na rua, ombro a ombro. Mesmo quando usaram gás lacrimogêneo – e havia muitas mulheres, mulheres grávidas e crianças – as pessoas mantiveram-se firmes. A polícia me tirou do grupo e me espancou. Então o povo gritou: “Deixe-o, ele é nosso bispo”.

Qual foi o seu maior momento como bispo?

O melhor momento foi certamente quando os direitos dos povos indígenas do Brasil foram consagrados na Constituição. Porque lutei por isso durante muitos anos. Àqueles que pensam que a Igreja não deveria ser política, digo-lhes que, mesmo que permanecesse calado, continuaria a ser político. Em qualquer caso, quando se trata de luta pelos direitos humanos, é preciso ser político.

Como a mudança deve ocorrer na Igreja?

Experimentei o Concílio Vaticano II quando era jovem. Foi uma primavera para a Igreja. Esta primavera é necessária novamente. A Igreja não pode cancelar as iniciativas que o Papa Francisco lançou. Mas caberá ao próximo papa convocar um concílio.

Bento XVI declarou que o futuro da Igreja não está mais na Europa, mas em outros continentes. O que você acha?

Quando celebro uma missa dominical na catedral com 400 pessoas, pergunto-me onde estão os milhares de outros fiéis. No Brasil as coisas também não estão tão florescentes – mesmo que alguns reacionários aqui afirmem o contrário. Além disso, na América Latina, muitos católicos estão a recorrer às seitas porque não têm acesso à celebração da Eucaristia – devido à falta de padres causada por Roma. É hora de as coisas finalmente mudarem.

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