COP28, combustíveis fósseis no banco dos réus. O mundo tenta escrever o veredito final

Foto: UN Climate Change | Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Dezembro 2023

O adeus ao carvão, ao gás e ao petróleo está escrito preto no branco. Pela primeira vez na história das Conferências da ONU sobre o clima (COP28). O único precedente remonta a dois anos atrás, em Glasgow, quando no documento final, após uma exaustiva maratona de negociações, foi inserido o termo “fontes fósseis” para as quais era solicitada a "redução gradual". A COP28 no Dubai poderia ir mais longe. Mas ainda é apenas um rascunho. Em duas das três formulações - uma com mais nuances, a outra mais firme – fala-se de parar. A comunidade internacional, porém, poderia optar pela terceira, da qual a cláusula é cancelada.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 06-12-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

A próxima semana será crucial para medir a vontade concreta de cortar as emissões, a fim de conter o aquecimento dentro do limiar de equilíbrio de 1,5 graus. Como a opção de publicar o texto de 193 artigos com 24 horas de antecedência, no dia dedicado à energia, a transição dos combustíveis fósseis é o tema principal da cúpula. O chamado balanço global ou “global stocktake” pela primeira vez faz um balanço sobre a aplicação dos acordos de Paris pelos 197 Países signatários mais a União Europeia (UE). Como antecipado em setembro pelas próprias Nações Unidas, houve progressos na redução de CO2. No entanto, não são suficientes em comparação com a gravidade da crise climática em curso. Com os atuais compromissos, as temperaturas aumentarão num valor entre 2,4 e 2,8 graus até o final do século, quase o dobro em relação ao nível que a ciência considera como sustentável. Além de fotografar a situação existente, a COP28 tem como principal tarefa indicar novos objetivos para a próxima década, a fim de corrigir o rumo. O ponto delicado é como fazê-lo.

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) considera indispensável a saída – obviamente gradual – dos combustíveis fósseis. Até 2050, explicam os pesquisadores internacionais mais renomados no tema, o emprego do carvão deverá ser zerado e o de petróleo e gás reduzido em 60 e 70 por cento, respectivamente. Mais uma confirmação chegou ontem do último relatório do Projeto Global de Carbono, um grupo de dezenas de estudiosos com mais de noventa instituições internacionais que monitorizam a evolução do dióxido de carbono, o principal gás com efeito estufa.

Nos últimos 17 anos, a indústria de combustíveis fósseis aumentou constantemente a quantidade liberada na atmosfera, com exceção de 2008, o ano da crise econômica, e 2020, durante a pandemia.

Em 2023 – o mais quente da história – haverá um novo aumento de 1,1%. Neste ritmo - conclui o Projeto global de carbono – o limite de 1,5 graus torna-se uma miragem. A ciência, no entanto, deve acertar as contas com a economia. Ou melhor, com os interesses bilionários ligados à extração de hidrocarbonetos: 4 trilhões de dólares em lucros em 2022, mais que o dobro da média de anos anteriores de 1.500 bilhões. A aposta em jogo para os países produtores é enorme. Isso explica a mobilização recorde de lobistas enviados pelas empresas de combustíveis fósseis a Dubai: 2.456, quatro vezes mais que os presentes na cúpula anterior de Sharm el-Sheikh. Apesar dos anúncios, nenhuma das nove grandes companhias mundiais têm planos concretos para a suspensão das perfurações, como demonstra a análise do Net zero tracker, consórcio independente do qual faz parte a Universidade de Oxford. Das 69 empresas monitorizadas, apenas três pretendem interromper a produção. O restante pretende continuar ou expandir. Incluindo a Abu Dhabi national oil company (ADNOC), liderada pelo sultão Ahmed al-Jabar, CEO e, ao mesmo tempo, presidente da COP28.

Carvão, petróleo e gás já se tornaram o ponto central da diplomacia ambiental. As diferentes formulações do artigo 35 – como resulta do rascunho – refletem a divisão da comunidade internacional. A primeira versão do ponto C pede, em termos inequívocos, "a eliminação justa e ordenada das fontes fósseis", como gostariam 106 nações, primeiramente os Estados insulares. A segunda fala em “acelerar os esforços” para a parada. A terceira reflete o ponto de vista das petro-potências– da Arábia Saudita à Rússia e aos EUA em posição ambígua –: a ideia delas é fazer desaparecer do documento final qualquer referência aos combustíveis fósseis, incluindo o fim dos “subsídios ineficientes” aos hidrocarbonetos, aproximadamente sete bilhões de dólares. Maior consenso recebe a primeira parte do artigo 35 que triplica a capacidade das energias renováveis e duplica a eficiência energética até 2030. “Sem acabar com os fósseis, será apenas greenwashing”, trovejaram também ontem os ativistas, presentes em grande número em Dubai, onde, no entanto, só podem manifestar-se dentro do Centro de Exposições. Mesmo assim, os limites impostos pelos Emirados não os desanimaram. Desde o início da COP, os protestos são diários. Em Sharm el-Sheikh, seu papel foi determinante para dar luz verde à criação do fundo para ajudar os países pobres a enfrentar os impactos do aquecimento global. “Desta vez – dizem – estamos ainda mais determinados”.

Leia mais