A diplomacia de Francisco não é política (mas é arriscada). Artigo de Marco Ventura

Encontro ecumênico na Mongólia. (Foto: Reprodução | Vatican News)

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19 Setembro 2023

"Mesmo na ação diplomática da Santa Sé, mesmo quando o Pontífice fala como chefe de estado com outros chefes de estado, mesmo quando assina acordos internacionais, a Igreja permanece fiel à sua alteridade. Não tem uma 'agenda política', não se identifica com uma cultura ou uma nação, rejeita a 'ideologia' nas relações entre os povos e dentro de si mesma, como Francisco especificou na coletiva de imprensa no avião que o levava de volta a Roma", escreve Marco Ventura, professor de Direito canônico e eclesiástico da Universidade de Siena, em artigo publicado por La Lettura, 17-09-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Deus ama a pequenez e adora realizar grandes coisas através da pequenez.” Francisco lembrou isso no último 2 de setembro aos fiéis reunidos na catedral de Ulaanbaatar em nome da pequeníssima comunidade católica mongol, cerca de 1.500 fiéis.

A viagem à Mongólia que começou no dia 31 de agosto e terminou no dia 4 de setembro resumiu a diferença da Igreja Católica. Mesmo na ação diplomática da Santa Sé, mesmo quando o Pontífice fala como chefe de estado com outros chefes de estado, mesmo quando assina acordos internacionais, a Igreja permanece fiel à sua alteridade. Não tem uma “agenda política”, não se identifica com uma cultura ou uma nação, rejeita a "ideologia" nas relações entre os povos e dentro de si mesma, como Francisco especificou na coletiva de imprensa no avião que o levava de volta a Roma. A Igreja não é “uma empresa funcional", disse Francisco em 2 de setembro, "não cresce por proselitismo". “A Igreja é outra coisa", acrescentou: não se define pela sua "função", mas pela sua "comunhão". Então, insistiu o pontífice, os governos “não têm nada a temer da ação evangelizadora do Igreja", porque ela "conhece apenas a força humilde da graça de Deus e de uma Palavra de misericórdia e de verdade, capaz de promover o bem de todos”.

A mensagem vale em especial para os dois grandes vizinhos da Mongólia, a China (ao sul) e a Rússia (ao norte). O risco que a diplomacia do Vaticano está assumindo a esse respeito é altíssimo. Na viagem de retorno Francisco tentou tranquilizar. Por um lado, as autoridades chinesas estão retribuindo a confiança Vaticano com alguma liberdade concedida aos crentes. Por outro lado, as palavras do Papa aos jovens russos sobre a sua herança cultural não pretendem legitimar o imperialismo de Putin. Contudo, permanece evidente a hostilidade do governo russo e daquele chinês que negou aos bispos das regiões próximas à Mongólia a permissão de se encontrar com o Papa. Ao mesmo tempo, cresce a impaciência das vítimas, a começar pelos católicos agredidos na Ucrânia e pelos perseguidos na China. Mas, precisamente, “o Igreja é outra coisa." O seu horizonte vai além da geopolítica mundana.

No seu discurso às autoridades civis no Palácio do Estado em Ulaanbaatar, Francisco assumiu o provérbio mongol “as nuvens passam, o céu permanece”. Ele expressou aos jornalistas no voo de retorno a sua sintonia com a procura, por parte das autoridades mongóis, do "terceiro vizinho" além de Pequim e Moscou.

Francisco sente exatamente isso para a Mongólia, um “terceiro vizinho”, e por sua vez a Mongólia sente o mesmo pela Santa Sé, mas também o Vietnam, citado na coletiva de imprensa. O consequente abraço à cultura mongol é o outro risco não temido por um Papa capaz de comparar a luz que desceu do alto para fecundar a mítica rainha Alungoo à luz divina que tornou mãe a Virgem Maria. Inspirado pelo “imenso e claro céu azul que se contempla na Mongólia”, Francisco indicou precisamente em Maria o exemplo da alteridade da Igreja. “Porque hospedou dentro dela Aquele que nem os céus, nem os céus dos céus podem conter", disse o Papa em Ulaanbaatar, Maria é "na sua pequenez maior que o céu."

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