Vulnerabilidade e sinodalidade

Padres nas periferias africanas | Foto: CNBB Sul

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10 Junho 2023

"O processo sinodal não tem apenas a tarefa de escutar as feridas dos desiludidos e dos distantes (às vezes implicitamente afastados), mas de reconstruir o sentido de comunidade a partir dessas feridas: para que o elemento relacional na Igreja seja liberado de fáceis idealismos que lhe tiram vida e dinamismo". 

O artigo é de Roberto Oliva, presbítero da Diocese de San Marco Scalea, Itália, publicado por Settimana News, 06-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

O processo sinodal em curso não pode deixar de acolher a realidade das múltiplas vulnerabilidades dentro e fora da Igreja. É basicamente a provocação que o Papa Francisco lançou aos representantes do Sínodo e aos Bispos italianos no último dia 25 de maio: “O Sínodo nos chama a ser uma Igreja que caminha com alegria, humildade e criatividade dentro desse nosso tempo, na consciência de que todos somos vulneráveis e precisamos uns dos outros. E gostaria que um processo sinodal levasse a sério esta palavra "vulnerabilidade” e que se falasse disso, com senso de comunidade, sobre a vulnerabilidade da Igreja. E acrescento: caminhar tentando gerar vida, multiplicar a alegria, não apagar os fogos que o Espírito acende nos corações”.

Este comentário sobre a vulnerabilidade foi expresso na terceira sugestão: ser uma Igreja aberta. Aqui ecoa sua advertência da Evangelii gaudium: “A Igreja é chamada a ser a casa sempre aberta do Pai” (n. 47). Foi justamente o jesuíta K. Rahner quem esclareceu o significado de uma Igreja aberta em Trasformazione strutturale della Chiesa come compito e come chance (1972). O teólogo alemão, à luz do Vaticano II, considerava impensável um retorno nostálgico a formas eclesiais obsoletas (o famoso voltar para trás de que fala frequentemente o Papa Francisco): “não podemos ficar no gueto, nem podemos voltar para trás” (K. Rahner).

Essa saída do gueto não visa uma identidade eclesial líquida, mas renovada em seu caráter sinodal, porque as vulnerabilidades – longe de se tornarem alvos – são oportunidades de encontro entre pessoas que precisam umas das outras. Estar aberto significa aceitar o risco de ser também vulnerável: caminhar em atitude de constante confronto sem fugir dos desafios da história.

A própria palavra vulnerabilidade (do latim vulnus, ferida) evoca a possibilidade de ser ferido pela realidade e pelos outros: ser vulnerável tem a ver com a própria necessidade de cuidado que está contida em cada ser humano. Uma necessidade que o próprio Jesus quis partilhar assumindo, sem reduções, a natureza humana com a sua carga de vulnerabilidade: “Cristo não ajuda em virtude da sua omnipotência, mas da sua fraqueza” (D. Bonhoeffer).

O processo sinodal não tem apenas a tarefa de escutar as feridas dos desiludidos e dos distantes (às vezes implicitamente afastados), mas de reconstruir o sentido de comunidade a partir dessas feridas: para que o elemento relacional na Igreja seja liberado de fáceis idealismos que lhe tiram vida e dinamismo. A vulnerabilidade constitui, portanto, a pré-condição pessoal e estrutural da Igreja sinodal que, se aceita, me permite viver com serenidade a necessidade do outro, sem abordagens ou estilos autorreferenciais.

Além disso, a vulnerabilidade requer ser acolhida como dimensão essencial da Igreja que não vive para si mesma, mas para o Pai e para testemunhar a sua própria misericórdia. Nesse sentido, as vulnerabilidades podem se tornar oportunidades de encontro e sendas de humanização entre os cristãos.

Enquanto a vulnerabilidade permanecer refém de uma moral cristã numa perspectiva legalista (que por vezes degenera na hipocrisia), não haverá espaço para todos na comunidade eclesial, mas as vulnerabilidades serão alvo constante de facções, rancores e vinganças sorrateiras.

O antropólogo Stefano De Matteis deixa-se sugestionar pela lagosta para descrever o valor transformador da vulnerabilidade: "O dilema da lagosta reside precisamente nisto: largar as couraças, compreender o quanto são provisórias, deixar de se entrincheirar naquelas certezas que agora causam apenas sofrimento e expor-se ao risco, tendo coragem e força para escolher a vulnerabilidade. Vulnerabilidade que se revela um momento de força extrema e fundamental. Um passo decisivo. Porque produz mudanças e preanuncia a reconstrução de uma nova vida" (Il dilemma dell’aragosta. La forza della vulnerabilità, p. 9, Stefano De Matteis).

Como exemplo, citemos apenas o caso presbiteral. Uma Igreja sinodal precisa da integração da vulnerabilidade na teologia do sacramento da ordem e no ministério presbiteral para superar definitivamente o enfoque clericocêntrico. O modelo sagrado e infalível do padre, de fato, esconde uma consideração da comunidade e da opinião pública altamente arriscada, em que não há lugar para a vulnerabilidade na vivência humana do presbítero.

Eventualmente as expectativas das comunidades eclesiais geram um modelo presbiteral alheio a qualquer fragilidade, desde que seja capaz, sempre e em qualquer situação, de escolhas claras e relações íntegras. Não há omissão pior para a Igreja do que não aceitar o desafio da vulnerabilidade: uma oportunidade desperdiçada nas encruzilhadas das existências humanas e nas contradições de todos os tempos.

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