#fio de lâmina. Artigo de Gianfranco Ravasi

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21 Abril 2023

Felicidade alcançada, por ti se caminha no fio da lâmina.

Aos olhos és centelha que vacila,

ao pé, gelo tenso que estala...

Nada paga o choro da criança

de quem escapa o balão por entre as casas.

São versos de Ossi di seppia, a inesquecível coletânea poética que Eugenio Montale publicou em 1925, quando tinha 29 anos. As imagens são de uma intensidade única: o caminho no fio de uma lâmina, uma centelha noturna que aparece e desaparece, uma lâmina de gelo que cede sob o pé assim que se pisa.

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 16-04-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O tríptico tem como elo a fragilidade aplicada a uma realidade tão almejada, a felicidade. Um seu colega, poeta de grande sensibilidade, Camillo Sbarbaro, da Ligúria como ele, escrevia: “Felicidade, eu te reconheci pelo farfalhar com que te afastavas". E é verdade: assim que você a degustou e se ilude que finalmente se assentou em seu horizonte dourado, a alegria lhe abandona e seus dedos seguram apenas o pó das asas de uma borboleta fugitiva.

Mas gostaria de deixar espaço - sempre nesta linha - também para a estupenda cena final: trata-se um evento a que todos nós já presenciamos algumas vezes. A criança anda por uma rua segurando na mãozinha o fio de um balão e, na outra, talvez a mão da mãe que acaba de comprá-lo para ela. Basta uma distração, e eis que o balão sobe ao céu, já inalcançável.

O pequenino desata num choro desesperado: é a sua primeira minúscula desilusão que para ele tem contornos quase cósmicos. Em sua maturidade aprenderá que isso é uma espécie de lei, porque somos limitados, as nossas experiências são efêmeras, os resultados muitas vezes inconsistentes, apesar do sucesso inicial. A felicidade com sua fragilidade estrutural é, então, uma das necessárias lições de vida. 

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