A implosão do catolicismo

Foto: Cathopic

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Dezembro 2022

"É preciso que a Igreja se faça pobre de poder mundano, se despoje do poder jurídico. A Igreja deve sentir-se como um "caminho", como os primeiros cristãos a professavam, e pensar-se na forma de 'seguimento', não daquela de uma religião", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 05-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um monge beneditino, verdadeiro irmão e amigo, teólogo refinado e homem de letras reconhecido por seus escritos, François Cassingena-Trévedy, em seu último livro escrito na condição de exílio de seu mosteiro, confessa “estar em constante contato com a sua igreja e com sua época” da qual destaca um evento importante: “o naufrágio de toda uma paisagem religiosa”.

Como cristão, também eu devo confessar que o que mais me perturba no caso da fé é esse naufrágio, que se poderia chamar de "implosão", do catolicismo, esse declínio vistoso do cristianismo, pelo menos no nosso mundo, a Europa. Para um católico que se aproximou da maturidade da vida com o horizonte de uma promissora primavera, anunciada sobretudo pelo advento do Papa João e do Concílio que ele organizou, não é fácil assistir hoje a esse ocaso que não é só o fim da cristandade, mas é também a espoliação de uma Igreja atualmente visível apenas na forma de minoria e em caminho da diáspora.

Não creio que aqueles que alimentaram uma grande esperança de reforma da Igreja e de sua permanência na história desejassem uma Igreja triunfante e maior: o desejo era viver em uma Igreja capaz de escuta da humanidade e, portanto, tão convicta da primazia do Evangelho a ponto de assumir seu estilo, práxis e espírito. Mas não foi assim.

Certamente hoje a Igreja Católica é humilhada por suas contradições ao Evangelho que emergem como escândalos sobretudo financeiros e violações da dignidade da pessoa humana: mas justamente a partir dessa humilhação será possível que se torne humilde? Hoje a Igreja está impedida de dominar a história: mas ela é realmente capaz de acolhê-la como bem-aventurança? Estamos cientes de que, graças ao caminho sinodal desejado pelo Papa Francisco, pedidos de reforma emergem do povo de Deus de forma inédita: mas a Igreja se mostrará mais uma vez irreformável?

Todos os dias nas várias igrejas se vivem escândalos que causam não só desamor, mas também abandono da comunidade cristã e todos somos testemunhas do crescimento exponencial de igrejas fechadas, igrejas vazias, assembleias em que só aparecem cabeças brancas... A espoliação que está acontecendo é vistosa e nos faz sofrer, mas ainda estamos longe de lê-la em sua forma evangélica.

Não se trata apenas de pobreza, de recusa da riqueza e de partilha com os pobres: é preciso que a Igreja se faça pobre de poder mundano, se despoje do poder jurídico. A Igreja deve sentir-se como um "caminho", como os primeiros cristãos a professavam, e pensar-se na forma de "seguimento", não daquela de uma religião.

Então haverá a conversão do catolicismo à catolicidade e desaparecerá o risco de um catolicismo sem cristianismo, de uma religião teísta condenada hoje à autorreferencialidade, às tentativas falaciosas de autopreservação. Então o Evangelho - como a Boa Nova de que a morte não tem a última palavra porque Jesus Cristo, que é o amor vivido ao extremo pela humanidade, a venceu - não permanecerá mais afônico e poderá ressoar claramente em comunidades minoritárias, mas significativas.

Leia mais