A população do Catar de 1950 a 2100. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Bandeira do Catar | Foto: Joe Carlos / Flickr

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21 Novembro 2022

Se a população mundial tivesse a mesma pegada ecológica do Catar, o mundo precisaria de nove planetas para sustentar o consumo global.

O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador de meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 18-11-2022.

O Catar é um pequeno país árabe localizado no Golfo Pérsico, nas costas desérticas da Península Arábica. Possui uma área de somente 11.437 km² (duas vezes o tamanho da cidade de Brasília), mas é um país muito rico em petróleo e gás natural. Foi um protetorado britânico até ganhar a independência em 1971. Tornou-se um emirado absolutista comandado pela família Thani desde meados do século XIX. Nas últimas décadas têm sido um aliado dos Estados Unidos e abriga um grande contingente militar americano na região.

O Catar será a sede da Copa do Mundo de futebol, em 2022. A população catarense era de somente 25 mil pessoas em 1950. Graças à imigração chegou a um milhão de pessoas em 2006 e a quase 3 milhões em 2022. Como a maioria dos migrantes são homens de meia idade que buscam emprego no Catar, a pirâmide populacional tem uma forma bem peculiar, com uma alta razão de sexo masculinizada. Esta razão de sexo deve se manter ao longo do século, pois o excesso de homens continuará sendo uma característica do país.

 

O Catar deu um salto de 1 milhão de habitantes em 2006 para 2,8 milhões em 2019 e apresentou uma ligeira redução para 2,7 milhões em 2022, devido à pandemia de covid-19. São quase 2 milhões de homens e 740 mil mulheres, com uma densidade demográfica de 233 habitantes por km². Segundo a projeção média da Divisão de População da ONU, a população do Catar deve chegar a 4,4 milhões de habitantes em 2100 (como mostra o gráfico abaixo, do painel da esquerda). A população de 15-59 anos aumentou em proporção ainda maior nos últimos 20 anos e deve chegar a 3 milhões de pessoas em 2100 (conforme mostra o painel da direita). Devido ao alto número de imigrantes em idade produtiva, a percentagem da população de idosos vai se manter abaixo de 20% pelo restante do século.

 

Os gráficos abaixo mostram a evolução da taxa de fecundidade total (TFT) e a expectativa de vida. O Catar tinha uma taxa de fecundidade total (TFT) acima de 6 filhos por mulher em meados do século passado. A partir da década de 1970, a TFT caiu rapidamente e ficou abaixo do nível de reposição na década passada e deve se manter abaixo de 2,1 filhos por mulher até 2100 (como mostra o gráfico abaixo, painel da esquerda).

O Catar tinha uma expectativa de vida maior do que seus vizinhos em meados do século passado e chegou a mais de 80 anos em 2019 (expectativa de vida maior do que a dos EUA). Houve uma pequena queda no período da pandemia, mas deve ultrapassar os 90 anos em 2100 (como mostra o gráfico abaixo, painel da direita).

 

A razão de dependência do Catar caiu bastante entre 1960 e 2010 e chegou a incrível 20 pessoas dependentes para cada 100 pessoas em idade ativa. Na última década, a razão de dependência começou a subir, mesmo assim continua baixa e, no máximo vai ficar em 50 pessoas dependentes para cada 100 pessoas em idade ativa. Isto quer dizer que, devido à imigração, o bônus demográfico do Catar vai durar mais de 130 anos, favorecendo o crescimento da economia e a geração de renda.

 

A alta produção de petróleo e gás fez a economia do Catar crescer. O país apresenta uma renda per capita extremamente elevada. Evidentemente, a economia do Catar flutua de acordo com o preço dos combustíveis fósseis. O PIB do Catar representava 0,2% do PIB mundial em 1980, subiu para 0,3% no auge do super ciclo das commodities entre 2008 e 2012 e diminuiu para cerca de 0,25% do PIB mundial atualmente (gráfico abaixo, do lado esquerdo). A renda per capita também variou, passando de algo em torno de US$ 80 mil na década de 1980, ultrapassou US$ 170 mil em 2012, diminuiu para US$ 90 mil com a redução do preço do petróleo e voltou a subir depois da guerra da Ucrânia (gráfico do lado direito). O Catar é um país muito rico, mas, evidentemente, a distribuição de renda é péssima e está concentrada nas mãos de um pequeno clã familiar.

 

Por ter uma alta densidade demográfica e um alto consumo de combustíveis fósseis, o Catar tem a maior Pegada Ecológica per capita do mundo, de 14,3 hectares globais em 2018 (quase o dobro da pegada per capita dos EUA). Mesmo com pegada elevada, o Catar tinha um superávit ambiental em 1980, mas passou a ter um déficit crescente nas décadas seguintes. Em 2018, o déficit per capita foi de 13,35 gha e o déficit relativo foi de 1.451%. Se a população mundial tivesse a mesma pegada ecológica do Catar, o mundo precisaria de nove planetas para sustentar o consumo global. Portanto, uma situação totalmente insustentável.

 

O Catar é, portanto, um país muito rico, mas, ao mesmo tempo, muito desigual e só se sustenta por meio da produção de hidrocarbonetos, o que torna o país insustentável, no longo prazo, em termos ambientais. A própria Copa do Mundo de 2022 se tornou o torneio mais controverso da história da Fifa, com mudança do calendário e questionamentos sobre como o Catar conquistou o direito de sediar a Copa. O péssimo tratamento aos trabalhadores que construíram os estádios e a falta de democracia colocam em dúvida se o país é um local adequado para este tipo de evento.

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