A África pode ser alimentada pelos seus próprios campos, se o mundo rico souber fazer a sua parte. Artigo de Francesco Gesualdi

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30 Agosto 2022

 

Cresce a dependência das importações de cereais. Mas o futuro pode ser reescrito, ajudando a agricultura local a sair do seu atraso tecnológico. Culturas autóctones e alimentação tradicional podem salvar o continente de estratégias estranhas.

 

O comentário é do ativista italiano Francesco Gesualdi, coordenador do Centro Nuovo Modello di Sviluppo, de Vecchiano (Pisa), na Itália, e um dos fundadores, junto com o Pe. Alex Zanotelli, da Rede Lilliput.

 

O artigo foi publicado em Avvenire, 28-08-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

A crise do trigo desencadeada pela guerra na Ucrânia e o primeiro, recente e fatigante acordo entre Rússia e Ucrânia – nações em guerra e grandes produtoras e exportadoras da commodity essencial – acenderam os holofotes sobre as dificuldades da África de alimentar a si mesma.

 

Em termos absolutos, as importações de alimentos naquele grande continente passaram de 50 bilhões de dólares em 2010 para 67 bilhões em 2019. Mas os valores absolutos nunca conseguem apresentar sozinhos o quadro da situação, e, para entender melhor como é alta a dependência alimentar da África, convém comparar as importações de alimentos com o montante consumido.

 

Segundo cálculos realizados pelo estudioso francês Jacques Berthelot, em média, na África, os alimentos importados representam 17,7% do total consumido. Mas a África é, justamente, um continente vasto, muito diversificado em termos de clima, densidade populacional, qualidade dos solos, razão pela qual é sempre difícil tratá-la como uma entidade única.

 

De um ponto de vista alimentar, a África está dividida em três áreas: África do norte, África subsaariana e África ocidental. Das três, a mais dependente do exterior é a zona norte, com um percentual de alimentos consumidos que provêm do exterior de 29,2%, enquanto nas outras duas área a porcentagem é de 13,1% e 12,6%, respectivamente.

 

O que torna o norte da África tão dependente do exterior é que o seu principal alimento energético é o trigo, cuja produção interna, no entanto, não consegue manter o ritmo do aumento demográfico. As outras regiões se saem melhor porque utilizam uma cesta energética mais diversificada, que, além do trigo e do arroz, também inclui tubérculos, dos quais a África é um grande produtor.

 

Mas os processos de urbanização, que na África são particularmente sustentados, correm o risco de tornar todo o continente semelhante ao norte de África. Hoje, 54% da população africana ainda mora no campo, mas a fuga para as cidades está fazendo aumentar a população urbana em um ritmo de 3% ao ano.

 

A África é o continente com o maior crescimento demográfico: daqui a 2050 espera-se uma duplicação da população, de 1,2 bilhão para 2,4 bilhões de habitantes, com resultados imprevisíveis para as cidades. Vários estudos têm demonstrado que a urbanização sempre é acompanhada por mudanças nos hábitos alimentares, em parte por processos de imitação, em parte por razões de preço.

 

A publicidade empurra para pratos de tipo ocidental, à base de cereais e outros produtos importados. Pode acontecer que eles custem ainda menos do que os locais, como efeito das políticas de apoio implementadas pelos governos dos grandes países produtores para favorecer as suas próprias exportações. Não é por acaso que, mesmo entre os pobres urbanos do Sul global, a desnutrição está assumindo o rosto da obesidade típica de quem consome junk food.

 

Em muitas cidades africanas, as associações de consumidores realizam campanhas para convencer seus concidadãos a preferirem os pratos tradicionais aos ocidentais. Em vez de consumir arroz, trigo ou leite em pó provenientes do exterior, elas convidam a consumir arroz, sorgo, mandioca, milho, leite, aves, peixes de produção local. As palavras de ordem são local versus global, pequeno versus grande, não por instinto nacionalista, mas por espírito de equidade, sustentabilidade, dignidade, porque na África a agricultura ainda ocupa um lugar de destaque.

 

Ela contribui com 25% do produto bruto do continente e emprega 50% de toda a força de trabalho. Para efeito de comparação, na União Europeia a agricultura representa 2,5% do PIB e emprega 4,4% dos empregados. E se na nossa parte do mundo as fazendas são principalmente empresas de tipo industrial, na África a agricultura é dominada por pequenos agricultores que produzem em parte para o autoconsumo e em parte para a venda. Geralmente, a produção destinada à venda consiste em cereais, legumes, frutas para as cidades vizinhas, mas em países como Gana, Costa do Marfim, Quênia as culturas preferidas são chá, café, cacau para exportação. Em todos os casos, a terra disponível dificilmente ultrapassa os dois hectares.

 

Em geral, estima-se que os pequenos agricultores na África sejam 60 milhões, o equivalente a 80% de todas as unidades agrícolas. No entanto, as terras sob a sua gestão não ultrapassam 35% do total cultivado. Por outro lado, as fazendas com mais de 20 hectares, embora representem apenas 1% das unidades agrícolas, possuem 15% das terras cultivadas. Além disso, as melhores.

 

Trata-se das grandes multinacionais que administram plantações dedicadas a banana, óleo de palma, abacaxi, tabaco e outros produtos para exportação. As mesmas que continuam desembarcando na África para obter dos governos extensões de terras vertiginosas, até mesmo gratuitamente, muitas vezes para produzir milho para ser transformado em biocombustível para os carros europeus. É o fenômeno da grilagem de terras que está destinado a crescer, considerando que, no continente, ainda existem cerca de 50 milhões de hectares de terras aráveis ainda não utilizadas.

 

A força da agricultura africana está nos seus agricultores, que, no entanto, devem ser postos em condições de produzir mais e melhor. Ou, mais simplesmente, de viver de uma forma mais humana. Muitas vezes, eles detêm apenas meios rudimentares, moram em casas precárias situadas em localidades remotas, sem estradas, sem irrigação, sem energia elétrica.

 

Por isso, acabam obtendo colheitas pobres, mal conservadas, incapazes de chegar às cidades. E, em vez de serem os motores do desenvolvimento do seu próprio país, os camponeses africanos estão à deriva. As estatísticas mostram isto: na África, três quartos dos famintos e dos pobres absolutos se encontram no campo. Por isso, as políticas agrícolas devem necessariamente andar de mãos dadas com as políticas sociais, sabendo que, se as condições gerais dos agricultores melhorarem, as colheitas e, portanto, o abastecimento das cidades também aumentarão automaticamente.

 

O programa poderia começar pela eletrificação, lembrando que na África ainda há 750 milhões de pessoas sem luz, 62% da população. Graças aos painéis solares e às turbinas eólicas, seria possível garantir energia elétrica também aos vilarejos mais remotos, com enormes benefícios em todos os níveis: não apenas no doméstico, mas também no produtivo, devido à expansão dos instrumentos de trabalho utilizáveis, pela maior possibilidade de irrigação, pelo aumento da capacidade de armazenamento por meio do frio, pelas maiores possibilidades de utilização dos meios informáticos.

 

De igual importância é o fortalecimento de todos os serviços comunitários: escolas, centros de saúde, serviços de consultoria veterinária e agrícola. Sem falar da melhoria das infraestruturas rodoviárias, da rede de água, das estruturas agrícolas de gestão comunitária. E, naturalmente, todas as iniciativas do chamado empoderamento, que permitem que os agricultores resolvam por conta própria os seus problemas, por meio de um maior conhecimento técnico, de uma maior autonomia financeira, de uma maior cooperação social.

 

Esse é o programa que devemos apoiar mediante a cooperação internacional, lembrando-nos, porém, que um novo fantasma ronda os campos africanos. É a ameaça das mudanças climáticas, que se apresenta sob a forma da seca, da deterioração dos solos, das pragas inéditas. Para limitar os danos, são necessárias medidas de defesa, conhecidas como políticas de adaptação, que, no entanto, os países do Sul só poderão implementar se nós, ricos, mantivermos as nossas promessas.

 

Ainda antes do Acordo de Paris, estávamos comprometidos em arrecadar 100 bilhões de dólares anualmente para permitir que o Sul do mundo enfrentasse os custos de mitigação e de adaptação impostos pelas mudanças climáticas. Mas, depois de mais de uma década, essa promessa ainda não se concretizou. O nosso compromisso de ajudar a África a se alimentar poderia começar a partir daí.

 

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