Em meio à arquitetura da ecologia selvagem com Anna Tsing

Imagem: Rawpixel CC

Por: Ricardo Machado | 19 Mai 2022

 

Constatar poética e antropologicamente que diante do antropoceno “não há caminho, o caminho se faz ao caminhar” é como dar as mãos a Antonio Machado, autor das aspas, e a Anna Tsing, antropóloga cujo pensamento nos convida a perceber a arquitetura selvagem multiespécies a que fazemos parte. E dar as mãos, neste caso, não somente aos humanos, mas a todas as criaturas, reconhecer a interdependência entre as diferentes espécies e as alianças benéficas e maléficas desta cosmopolítica.

 

“Se nós quisermos sobreviver, ou seja, sobrevivermos juntos e não um contra o outro, precisaremos ouvir os outros, entre as linhas de diferenças e até mesmo entre as diferenças de espécies”, afirma Anna Tsing, durante sua conferência Atlas selvagem: novas ecologias no antropoceno no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

A apresentação, que integra a programação do Ciclo de estudos Decálogo sobre o fim do mundo, ocorreu no dia 17 de maio, às 10h.

 

 

 

Ciência do fracasso

 

O primeiro passo para não repetir um erro é compreender onde ele está. Neste sentido, o primeiro sintoma de que algo não vai bem é reduzir a compreensão dos problemas à pretensa neutralidade técnica, deixar que um grupo restrito de especialistas decida como devemos prosseguir. No fundo é necessário uma ciência do fracasso.

 

“No Japão existe algo que se chama ciência do fracasso, isto é, uma ciência do que está dando errado. Ao invés de simplesmente ouvir aos impulsionadores de projetos, vamos prestar atenção aos habitantes da terra e seus efeitos selvagens”, propõe.

 

Isso pressupõe uma tomada de decisão que não seja reduzível à dimensão tecnocrática e interessada no projeto de desenvolvimento, mas, sim, uma visão holística sobre a complexidade do real. “Precisamos de humanistas, cientistas sociais, artistas e cientistas naturais, ao invés de simplesmente engenheiros e projetistas ou designers”, afirma Tsing.

 

Arte: Feifei Zhou (Reprodução Feralatlas)

 

Ecologias selvagens perigosas

 

A questão de fundo a que nos devemos ater é sobre, como aponta Anna Tsing, “o que constrói ecologias selvagens perigosas em tantos projetos de infraestrutura?”. E levar em conta a profundidade desta pergunta implica deslocarmos o antropocentrismo a que estamos submetidos. “Para entender os efeitos selvagens de nossos projetos precisamos prestar atenção às características estruturais sistêmicas do mundo ao redor de nós”, sugere a conferencista.

 

Isso passa por compreender que muitos dos atuais trabalhos e ações que empreendemos no planeta são radicalmente danosos à vida na terra. Dentre os principais problemas está a aceleração de uma infinidade de processos ao mesmo tempo antrópicos e devastadores. Dentre eles:

 

 

Arquitetos não humanos

 

Os não humanos se adaptam a todo momento às infraestruturas que os humanos constroem. Às vezes tornam-se colaboradores perigosos, como é o caso, por exemplo, do Sars-Cov2, vírus responsável pela pandemia da Covid-19. “O vírus da covid evolui trabalhando junto com resistência política, com o avanço das vacinas, bem como com a sociologia das multidões”, frisa Tsing. “Muitos desses seres passaram de parceiros de condição de vida não humana para pragas”, complementa.

 

“Além disso, especialistas são teimosos, com frequência eles acham que sabem todas as respostas. Consultam somente uma faixa muito estreita de especialização, às vezes mesmo nas suas áreas, e tendem a desprezar tudo o que eles não sabem”, explica a pesquisadora.

 

No cerne do problema, o desprezo de cientistas, universidades e políticas estatais de educação que “conspiram para promover tecnologia e jogam as humanidades, artes e ciências sociais no lixo”, destaca. “Como resultado, as soluções para nossos problemas emergentes perdem aspectos históricos, etnográficos e interpretativos, acrescentando erros às falhas já existentes. Por isso os acadêmicos desprezam os conhecimentos, igualmente empíricos, daqueles de fora da academia, especialmente dos grupos minoritários, como as sociedades indígenas”, amplia.

 

Atlas selvagem

 

É diante deste cenário e com o desejo de superar os desafios impostos pelo modo radicalmente antropocêntrico de pensar, habitar e compreender o mundo, que o Atlas selvagem (feralatlas.supdigital.org) busca reunir a contribuição de vários campos do conhecimento e de tipos de observação empírica.

 

“Esse é o começo de uma ciência do fracasso adequada para enfrentarmos o antropoceno. Não podemos saber o que deu errado se dispensarmos o conhecimento de alguém simplesmente porque não se parece conosco. O site propõe uma viagem conceitual, uma viagem com o desejo de drenar os leitores na ciência do fracasso do antropoceno”, pontua.

 

 

 

Arte: Feifei Zhou (Reprodução Feralatlas)

Cooperações multiespécies

 

Um exemplo interessante de cooperação entre espécies, que pode ser lido no Atlas selvagem, é o caso das cegonhas Malibu, em Kampala, capital da Uganda. Jacob Doherty, antropólogo, descreve como esses animais são odiados pelos urbanistas que pensam as cidades, pois elas defecam sobre os carros, mas são amadas pelas pessoas que trabalham recolhendo material reciclável nos aterros sanitários.

 

“As pessoas que reviram os lixos buscando materiais recicláveis adoram elas. As cegonhas comem os materiais orgânicos, trazendo à tona os itens que têm valor de mercado”, exemplifica Tsing. “Nem todos os efeitos selvagens são benignos assim, precisamos parar de ignorar os perigos. O primeiro passo é prestar atenção a histórias que estabeleceram relações perigosas conosco”, pondera.

 

Por fim, é importante recordar que detonadores do antropoceno, a invasão colonial, o imperialismo, o capitalismo e a aceleração dos eventos antrópicos estão produzindo ecologias perigosas globalmente. “Todos eles acontecem dentro de conjunturas históricas, mas nenhum deles está congelado em um período determinado, cada um deles continua no presente se proliferando ou proliferando seus efeitos selvagens perigosos”, projeta. 

 

Sobre o evento – Decálogo sobre o fim do mundo

 

A proposta do Ciclo de Estudos Decálogo sobre o fim do mundo é discutir, de modo transdisciplinar, os desafios que o novo regime climático do planeta impõe às nossas formas de pensar, conceber e habitar o mundo. Dividido em dez conferências, a programação do ciclo retoma questões políticasfilosóficas e teológicas sobre a vida no antropoceno, considerando o ocaso e, em certo sentido, o fim/esgotamento da Modernidade.

 

No centro da crise, o sentido e a autorreferencialidade do ser humano em um mundo em que cada vez mais somos governados pelo que nos habituamos chamar de natureza. Trata-se, portanto, de um debate que leva em conta o deslocamento da política para a dimensão cosmopolítica. Repensar a condição humana diante do novo regime climático e a ameaça da sexta extinção em massa, justamente da espécie humana, pode ser o ponto inicial da discussão aqui proposta.

  

Assista as conferências já realizadas no Decálogo do fim do mundo

 

O mundo é um grande olho que vemos e que nos vê

 

 

 

Verdades pragmáticas em mundo irreconciliavelmente diverso 

 

 

 

 Manifesto a favor da antropologia multiespécies e das ecologias emergentes

 

 

 

Fraternidade e fratricídio no tempo presente

 

 

 

A guerra e a sociedade da autodestruição

 

 

 

 

Leia mais

 

 

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