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18 Março 2022

 

"Em todas essas ladainhas - já iniciadas na época da Pandemia e que agora continuam - há um Elefante na Igreja sobre o qual não se quer falar. Ou seja... 'DEUS'. Continuamos a rezar e a escrever poesia como se 2000 anos de cristianismo não tivessem passado", escreve Paolo Gamberini, jesuíta italiano, professor de teologia e capelão da Universidade La Sapienza de Roma, em artigo publicado na página do Facebook do autor, 17-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU: 

 

Paolo Gamberini estará aqui no IHU proximamente.

 


Eis o artigo.

 

Em todas essas ladainhas - já iniciadas na época da Pandemia e que agora continuam - há um Elefante na Igreja sobre o qual não se quer falar. Ou seja... "DEUS". Continuamos a rezar e a escrever poesias como se 2000 anos de cristianismo não tivessem passado. 

 

Vivemos uma época em que o monoteísmo cristão e sua forma católica atravessam uma profunda crise. O catolicismo tenta sobreviver às saraivadas da pandemia e agora da guerra na Ucrânia repropondo uma mistura de emoções/poéticas e religião para lidar com uma verdadeira dissonância cognitiva com a realidade.

 

A oração é a forma "típica" de uma religião. Da forma como você ora, expressa o que você acredita. Lex orandi statuat legem credendi. Tanto o Arcebispo de Nápoles como o Papa rezam, rezam, rezam. Consagram, consagram, consagram. Mas eu me pergunto: todo este Kyrie eleison, nos perdoe, tenha piedade... que sentido tem?

 

Mas Deus já não sabe de tudo isso e já não quer o nosso bem? Em palavras dizemos isso, mas em nossos pensamentos e orações, o negamos. Então, eu me pergunto, por que se expressar assim? Disseram-me: Porque a oração revela nosso desconforto. Mas para quem? Para Deus ou para nós? Porque expressa o protesto contra o mal. Mas a quem se dirige este protesto? Para Deus ou para nós mesmos?

 

O que você diria para um cara que você encontra todas as manhãs do lado de fora de sua casa ajoelhado para o oriente. "O que você está fazendo aí?" - perguntamos - e ele responde: "Estou rezando ao sol para que nasça". Convencido de que sua oração é eficaz, pois percebeu que “todos” os dias – pois assim ele rezou – o Sol realmente nasce. Sua fé está mais firme do que nunca nessa sua convicção. Porque ele reza... e o Sol nasce.

 

Assim também fazemos nós quando oramos a Deus para que faça parar a guerra, para que intervenha para tirar a pandemia, para que nos perdoe porque somos maus com o nosso próximo. Estamos convencidos de que somente orando “assim”, Deus vai parar a guerra, tirar a pandemia e nos tornar bons.

 

Mas se Deus é por sua "natureza" bom (Deus é amor), ele não poderá deixar de nos amar "sempre" e "em qualquer caso". Assim como o Sol não pode deixar de nascer todos os dias - e não porque eu almejo que ele nasça - assim Deus me ama e quer sempre o meu bem. E então - aqui está a questão essencial - por que "este" Deus, que é bom por natureza, não faz nada?

 

Resposta, esta também essencial: Deus "não" responde e "nunca" responderá no seu e no nosso lugar. Portanto, a esta oração "ele nunca responderá", não porque não queira responder (sabe-se lá por que motivo...), mas não responde por necessidade interna, poderíamos dizer. Assim como Deus não pode fazer com que o verdadeiro seja falso, que 5 + 2 não seja 7, também Deus não pode fazer com que a sua "onipotência" (em alemão: Allmächtig) seja exercida como se fosse uma "monopotência" (em alemão: Allein-mächtig), poderoso sozinho.

 

A potência de Deus é essencialmente um "tornar poderosas" as criaturas para amar, querer bem uns aos outros, ser aquilo para que foram criadas. Realizar a si mesmo e florescer. Esta é a potência que é atribuída a Deus. E nós, que somos à Sua imagem, somos munidos para agir com esse tipo de potência, que não é "monopotência", poderoso sozinho, mas ser poderoso-com-os-outros, tornando poderosas as outras criaturas.

 

Com guerra e pandemia agora, Deus foi-se embora!

 

Deus não tem nada a ver com a guerra, a pandemia e todas as nossas confusões! Ele não tem responsabilidade, nem deve ser "suplicado" (Kyrie eleison!) para que se envolva "mais" na vida das criaturas. Deus desde sempre está envolvido na vida das criaturas, mas o é "como criatura" e não como um Deus solitário.

 

As criaturas são a mão de Deus, o rosto de Deus, o nariz de Deus, o gosto de Deus, o braço de Deus... As criaturas são "o corpo de Deus". Deus é Deus nunca sem nós. Orar não é um ato "irracional", mas expressa a consciência que somos de natureza divina.

 

Mais do que orações poéticas/emocionais, vivamos “poeticamente” na “póiesis” do agir poderoso com que Deus muniu o ser de nós, criaturas.

 

Da intercessão à conscientização.

 

Ao invés de “Kyrie, eleison”… “tornemo-nos Cristo!”.

 

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