Ucrânia: o caminho de Francisco. Artigo de Alberto Melloni

Mais Lidos

  • “Com Francisco cumpre-se a profecia de Arrupe”. Entrevista com Pedro Miguel Lamet

    LER MAIS
  • Somos todos aspirantes a cristãos. Entrevista com Paolo Ricca

    LER MAIS
  • Wim Wenders, Dias Perfeitos – 2023. Artigo de Faustino Teixeira

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

26 Fevereiro 2022

 

O caminho da profecia requer que se confesse que o modo como as Igrejas ignoraram ou absorveram a divisão, a brutalidade, a egolatria faz parte da guerra, é a porta da guerra. Poluiu os corações, que não são menos perigosos do que os canhões e são mais difíceis de desarmar.

 

A opinião é de Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado em La Repubblica, 25-02-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Nuvens de incenso pairam sobre a guerra russa. O antigo incenso do mito da Terceira Roma, convencida de ser chamada a salvar a verdadeira fé. O incenso acre da terra disputada entre o nacional-catolicismo polonês, o uniatismo ucraniano e a ortodoxia russa que disputam os rios históricos e místicos dos eslavos.

Por isso, pode-se dizer que a guerra foi travada no perímetro das Igrejas muito antes que nos campos de batalha. Ela se revelou incontrolável diante dos altares antes que nas fronteiras. E já foi perdida pelas Igrejas, convencidas de que podem ler o conflito com parâmetros moralistas (a modernidade, as armas, o relativismo) em vez de buscarem no conflito o nexo entre os 'ódios beluínos' ('odi belluini', no original) que as dividem e que se infiltram nos episcopados, nos mosteiros, nas culturas.

Por isso, mais do que a obediência tardia ao preceito evangélico sobre a oração, o jejum que inicia a Quaresma latina, ao qual o papa convidou os não cristãos, conterá a humilde confissão da falta de fé e da miséria espiritual que assolou os discípulos de Jesus. Prontos para abençoarem as bandeiras do nacionalismo ou as do maneirismo pacifista, a fim de não olharem lucidamente para as próprias responsabilidades.

A primeira delas é se libertarem do postulado de que o escândalo da divisão dos cristãos e das Igrejas tem um peso histórico na geração do mal que envenena o mundo com lutos e injustiças. Esse postulado havia levado as Igrejas do século XX a desejarem a unidade que lhes foi ordenada pelo Senhor: hoje, resta uma certa cortesia entre os chefes das Igrejas, alguns intelectualismos teológicos e algumas caridades interconfessionais anti-intelectualistas, muitas vezes realizadas em favor das câmeras.

A comunhão no mesmo cálice entre Igrejas reconciliadas foi arquivada com sofismas e realismos decepcionantes. E a guerra, nessa perspectiva, voltou por isso; e por isso está impregnada de caldos “religiosos” tão antigos quanto os regimes da cristandade.

A guerra voltou – milagre de Giorgio La Pira – em uma coincidência com o encontro de diálogo mediterrâneo promovido pela Igreja de Florença, onde falarão Mario Draghi, Sergio Mattarella e sobretudo Francisco. E lá o papa fará uma dessas coisas acontecer.

De fato, é possível que o pontífice confeccione um vibrante apelo pela paz – que é para a Igreja de Roma aquilo que o mito neoconstantiniano da Terceira Roma é para a Rússia.

Francisco também poderia se limitar a citações clássicas (“nada se perde com a paz” de Pio XII, “nunca mais a guerra” de Paulo VI) e reivindicar que falou em tempos insuspeitos da “terceira guerra mundial em capítulos”.

Ou poderia tentar o caminho da profecia. Em uma página negligenciada da Fratelli tutti, Bergoglio condenou corajosamente a posse das armas atômicas (indo além de João XXIII) e se apropriou da tese que custou a sede ao cardeal Lercaro, segundo a qual o caminho da Igreja não é a neutralidade, mas a “profecia”.

Profecia cristã: que não tenta adivinhar o amanhã, mas aplica a inteligência penitente às coisas de ontem e de hoje. Seria, portanto, uma “profecia” de lembrar que a guerra que só hoje nos perturba já matou 14 mil pessoas; seria profecia reconhecer que, quando Kirill, patriarca de Moscou e de todas as Rússias, decidiu desertar o Concílio pan-ortodoxo de Creta em 2016, ninguém, exceto Bartolomeu, captou o porte trágico desse gesto.

É profecia dizer que a ruptura da comunhão entre Moscou e Constantinopla após a autocefalia concedida a Kiev já era uma guerra, e que a tragédia daquele cisma foi minimizada e subestimada pelas burocracias ecumênicas também em Roma.

O caminho da profecia, portanto, requer que se confesse que o modo como as Igrejas ignoraram ou absorveram a divisão, a brutalidade, a egolatria faz parte da guerra, é a porta da guerra. Poluiu os corações, que não são menos perigosos do que os canhões e são mais difíceis de desarmar.

Se Francisco tomar o primeiro caminho, o mundo o aplaudirá: graças ao céu este papa agrada a todos, e todos os inimigos da Igreja gostam que ele os subestime. Se ele tomar o segundo caminho, terá inventado uma forma de exercer e de redesenhar o ministério de Pedro e um caminho ao perdão, à paz.

Quando ele pede “rezem por mim”, Francisco tem razão.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Ucrânia: o caminho de Francisco. Artigo de Alberto Melloni - Instituto Humanitas Unisinos - IHU