Recuperando pensadores para os debates atuais: Darcy Ribeiro e Jaime Fuchs

Indígenas contemplando Quito, no Equador (Wikimedia Commons)

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03 Novembro 2021

 

“A recuperação de pensadores universais surgidos da experiência na região pode ajudar a sistematizar os novos problemas e desafios que se apresentam para nós com a atual crise civilizatória”, escreve Julio Gambina, economista argentino, em artigo publicado por Página/12, 09-06-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

No último dia 26 de outubro, completaram-se 99 anos do nascimento do pensador brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997) e há poucos dias faleceu Jaime Fuchs (1920-2021), intelectual crítico argentino, contemporâneo do brasileiro. A questão vem ao caso em relação à leitura de nossa realidade ao longo do tempo, na região e no mundo, especialmente considerando os desafios para o futuro.

Os dois pensadores refletiram a partir do marxismo, cada um com as marcas militantes e especificidades da história de vida e de seus países.

Em relação a Ribeiro, vale recuperar dois grandes momentos, um relativo a futuros esperançosos vividos em tempos de industrialização dos países na região, processo percorrido (com nuances) especialmente no meio do século, entre 1930 e 1980; o outro, associado à ruptura da bipolaridade do sistema mundial e a hegemonia liberalizante dos anos 1980/1990 até hoje.

Nesse último caso, um tempo de “derrota”, expressão utilizada pelo antropólogo nascido em Minas Gerais, ao considerar a destruição operada sobre a sua atividade como universitário e servidor do Estado do país irmão, após o golpe de 1964 e durante 20 anos de ditadura. É uma temporalidade de análise compartilhada nos estudos de Fuchs, com mais tempo de vida nas condições do fim da bipolaridade mundial.

As esperanças no “desenvolvimento” foram obstruídas pelos sucessivos golpes e o terrorismo de Estado, com sequelas que chegam a nossos dias de empobrecimento social, maior exploração da força de trabalho e pilhagem dos bens comuns nos países da América Latina e o Caribe, provedores de insumos estratégicos ao capital transnacional.

Apesar das coincidências de uma inserção subordinada na economia mundial, entre as preocupações do intelectual brasileiro está a caracterização do povo na região. Ribeiro diferencia os povos “transplantados”, entre os quais destaca a Argentina e o Uruguai, dos “testemunhos”, caso da Bolívia, Equador e México, entre outros, dos “novos”, caso do Brasil e os “emergentes” em relação a Cuba e a expectativa nos anos 1960 quanto à trajetória socialista da revolução. Fuchs concentrará suas análises na dominação da grande propriedade agrícola e na dependência e subordinação do sistema econômico local e regional.

A preocupação central do intelectual mineiro é a possibilidade de uma crítica à “civilização” contemporânea e às “civilizações” em seu interior, com o caso da América Latina e o Caribe. Trata-se de uma análise situada em diversos textos, especialmente entre 1968 e 1972, no exílio pela região e a leitura da realidade a partir de experiências no Uruguai, Chile, Peru e Venezuela, ampliadas em múltiplos debates em diversos países da Pátria Grande.

O tema é a “civilização” resultante da ordem capitalista e a marca das revoluções tecnológicas na estrutura social, o processo de desigualdade gerado e um resgate muito especial do antigo e o novo nas populações indígenas e os novos habitantes produto das migrações. O sentido aponta para os dilemas e confrontos entre o poder e as forças insurgentes (em tempos de bipolaridade mundial), bem como para definir o Brasil, os brasileiros e o seu lugar na região e desta no mundo.

Em Fuchs, a grande preocupação está na concentração e centralização do capital, especialmente da terra, e a transnacionalização da economia e a subordinação a uma lógica global de acumulação.

É de interesse a recuperação intelectual das contribuições para o debate sobre o continente e a dependência, especialmente quando assistimos às incertezas do presente. Uma incógnita pelo presente da pandemia em aparente refluxo, mas com a ameaça das “mudanças climáticas” e a destruição imanente, com um futuro próximo e médio incerto para a vida e a natureza.

Do otimismo no futuro promissor dos anos 1960/1970 às questões atuais de horizontes pessimistas, para onde caminha a civilização contemporânea e qual o papel para a América Latina e o Caribe? É importante a recuperação das contribuições de gerações anteriores de intelectuais comprometidos com o estudo aprofundado de nossas realidades, para pensar circunstancialmente as respostas em nosso tempo de incertezas e imprecisões.

A recuperação de pensadores universais surgidos da experiência na região pode ajudar a sistematizar os novos problemas e desafios que se apresentam para nós com a atual crise civilizatória.

 

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