30 Setembro 2020
Em março de 2020, depois que o novo coronavírus começou a se espalhar no sul da Califórnia, Aimee Cazares foi demitida de seu emprego como chef de cozinha no resort Loews Coronado Bay, onde trabalhou nos últimos cinco anos. Seu próprio seguro de saúde venceu em maio, e como seu pai era o único membro imediato da família trabalhando quase em tempo integral, Cazares gastou grande parte de suas economias com as contas de hospital de sua tia, que estava em coma por complicações da covid-19.
A reportagem é de Alejandra Molina, publicada por Religion News Service, 29-09-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
Agora Cazares é uma dos milhares de trabalhadores do setor de hotelaria que estão pedindo ao governador da Califórnia, Gavin Newsom, que assine um projeto de lei garantindo que aqueles demitidos devido à pandemia possam retornar aos seus empregos quando as vagas estiverem disponíveis. Os trabalhadores estão se organizando com a ajuda do Unite Here Local 11, um sindicato que representa 30 mil trabalhadores no sul da Califórnia e no Arizona.
Para completar, Cazares, de 26 anos, e sua família se reúnem todos os finais de semana para rezar o rosário, pensando em outras pessoas que, como eles, lutaram com a perda do emprego e sofreram com problemas de saúde pela covid-19.
Mas ela não é a única rezando.
Em uma carta em 24 de setembro, o padre Scott Santarosa, provincial da província Jesuítas do Oeste, com sede em Portland, Oregon, pediu a Newsom para “homenagear o trabalho muitas vezes invisível daqueles que limpam e cuidam de nossos espaços públicos”, assinando a medida em lei. Mais de 50 líderes e padres jesuítas de toda a Califórnia, estado de Washington, do Quênia e do México assinaram a carta.
A carta de Santarosa citava uma homilia do papa Francisco, proferida no dia 1º de maio, festa de São José Operário. “Não obtemos dignidade com o poder, dinheiro ou cultura. Obtemos dignidade com o trabalho”, disse o papa.
Pedindo pela volta dos trabalhadores aos seus empregos, para assim que a economia melhorar, Santarosa escreveu: “A Califórnia mostrará ao mundo o caminho que devemos seguir para se recuperar da crise econômica desta pandemia – honrando a dignidade dos trabalhadores”. O padre também observou que o vírus “afetou desproporcionalmente os pobres, pessoas de cor e imigrantes” e que a queda da economia devastou “os trabalhadores com salários mais baixos que atendem em nossos espaços públicos”.
“Esta obra é sagrada e devemos tratá-la como tal”, afirma Santarosa.
A carta foi entregue pessoalmente ao gabinete do governador pelo padre John P. McGarry, presidente da Jesuit High School Sacramento, que liderou uma procissão de trabalhadores do setor de hotelaria demitidos até o Capitólio.
Cazares, que é católica, espera que a ajuda dos líderes religiosos convença o governador – que no passado invocou sua fé católica e valores jesuítas – a ouvir seus apelos. Newsom é ex-aluno da Santa Clara University, uma universidade jesuíta.
Ser católico, acrescentou Cazares, é defender os “pequenos”.
Cazares, que se formou no Culinary Institute of America, apresentou vários pedidos de emprego enquanto está desempregada. Ela não recebeu um e-mail ou ligação de nenhum empregador. “Ninguém está contratando atualmente, então seria muito estressante não saber onde está o meu futuro”, disse ela.
Outros na situação dela são mais velhos e dedicaram suas vidas ao trabalho. Unite Here 11 destacou as histórias de trabalhadores como Carlos Barrera, 62 anos, um nativo da Guatemala que perdeu o emprego como manobrista no luxuoso Chateau Marmont, em West Hollywood. Ele estava lá há 40 anos.
Ela teme que os negócios comecem a reabrir, e os empregadores de hotelaria demitam as pessoas jovens de seus postos e paguem menos para eles.
Sergio Sorza, um sindicalista da Unite Here Local 11, disse que o grupo de trabalhadores abrange diferentes religiões, e apoia os líderes religiosos a se unirem a eles.
Nos últimos sete dias, enquanto organizadores e líderes religiosos se reuniam nos arredores do Capitólio para exigir que o governador assinasse a lei, muitos ofereciam orações no altar para os trabalhadores.
Se Newson apoiar o projeto de lei, disse Sorza, mostraria “que está verdadeiramente fiel aos seus valores”.
O projeto de lei, conhecido como AB 3216, beneficia os trabalhadores demitidos de hotéis, clubes, centro de eventos ou aeroportos, ou que proviam serviços a escritórios, lojas de varejo e prédios comerciais. Newson tem até quarta-feira, 30-09, para vetar ou assinar o projeto de lei.
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