Papa e sultão em busca de tréguas

Mosaico na igreja de S. Tommaso in Formis |Foto: Livioandronico2013 - Wikimedia Commons

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19 Junho 2019

Em Roma, a uma curta distância da Basílica de São Giovanni e Paolo al Celio, uma pequena igreja, S. Tommaso in Formis, carrega no portal um surpreendente mosaico redondo, realizado por volta de 1210 pelos famosos artistas romanos Cosmato. O Cristo solene que está sentado no centro, segura com a mão direita o braço de um prisioneiro branco cristão e com a esquerda outro prisioneiro de pele escura. Esse tipo de manifesto mural que abre o horizonte da redenção destinando-o a todos, cristãos e pagãos, é o emblema ideal de uma Ordem religiosa que naquela época se assomava à tribuna da história, em um momento particularmente dramático para o cristianismo, o dos Trinitários. Em 2 de outubro de 1187 Salah ad-Dîn ("integridade da religião"), o famoso Saladino, sultão do Egito - que Dante representou "sozinho, em parte", ou seja, em orgulhoso isolamento no Limbo, no "nobre castelo" que hospeda os "espíritos magnos" (Inferno, IV, 129) – tinha conquistado Jerusalém, criando perplexidade e indignação em toda a Igreja.

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 16-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

É nesse contexto que se insere a imponente, precisa e original pesquisa que o historiador Giulio Cipollone, professor emérito de história medieval da Universidade Gregoriana de Roma, apresenta nas páginas de uma obra em inglês e árabe. O título é surpreendente e evoca acima de tudo a comum linguagem marcial sacral que percorria os documentos de papas e sultões, mas também atesta a aspiração paralela e ação pela solidariedade e compaixão. Surpreendente é também o fato de que a obra de alta qualidade histórico-crítica, mas ao mesmo tempo de intensa legibilidade, apareça em uma editora árabe que tem sua sede principal no Cairo e uma filial em Bruxelas.

Naturalmente, nos referimos à edição em inglês, intercalada por um evocativo aparato iconográfico confiado a manuscritos da Biblioteca Nacional da França e do Arquivo Secreto Vaticano (além da imagem do mosaico descrita acima). O estudioso, através de sua refinada e interessante escavação documentária delineia diante do leitor um quadro histórico, religioso e jurídico que, apesar da ampla diferença nas coordenadas cronológicas, ainda hoje constitui um paradigma de muitas maneiras atual.

O confronto entre o cristianismo e o islã, de fato, com a oscilação entre a brutalidade de um duelo agressivo e a tentativa de um dueto dialógico, reaparece em nossos dias envolvendo novamente essas duas culturas e suas respectivas crenças. A extraordinária sugestão produzida pelo ensaio, muito vasto, é justamente baseada em um contraponto. Através da análise multiforme de manuscritos e dos eventos dos quais florescem, Cipollone encena as duas visões histórico-religiosas: o complexo cristianismo medieval, de um lado, e a variegada comunidade muçulmana, do outro.

Assim, cria-se uma dupla e complementar perspectiva da leitura que, livre de estereótipos ou tentações apologéticas, delineia uma espécie de grande afresco que não ignora nem mesmo as cenas menores. Nela avança a figura de Inocêncio III, Lotário dos Condes de Segni, certamente um dos grandes papas medievais, celebrado então enfaticamente como um novo Salomão, in omnibus gloriosus, como um contemporâneo o definia.

Ele havia subido ao trono pontifício em 22 de fevereiro de 1198 e permaneceu na memória popular devido àquele seu sonho em que o frade Francisco de Assis sustentava a Igreja vacilante em seus ombros, uma cena imortalizada por Giotto na Basílica Superior de Assis. Os primórdios dos Frades Menores e dos Dominicanos se colocam precisamente durante o seu papado, que duraria oito anos até 16 de julho de 1216.

Mas Cipollone o apresenta por outra sua escolha, a da aprovação da Ordem Trinitária supracitada, que aconteceu no mesmo ano de sua ascensão ao trono de Pedro. Inicialmente tratava-se de um grupo livre que teve como líder carismático Jean de Matha, um magister theologus, portanto um intelectual de origem provençal (havia nascido em Faucon, em 1160), que morreu em Roma em 1213.

Sua experiência, no entanto, o levou a entrar no terrível problema dos prisioneiros cristãos e muçulmanos, resultado dos confrontos daquele período. Assim nascia uma inesperada ordem religiosa desarmada, radicalmente diferente das suntuosas e bem equipadas ordens cavalheirescas: tinha como referência apenas a Trindade, como emblema a cruz vermelha e cerúlea no peito de seus membros e como montaria o jumento, que na Bíblia era o símbolo pacífico do rei messiânico (Zacarias 9: 9-10; Mateus 21: 5).

A missão de seus seguidores era mediar a libertação de prisioneiros ou a troca deles, favorecendo tratativas de paz e as tréguas. Em uma época de tensões ferozes, em que as cruzadas se opunham às conquistas militares muçulmanas, os Trinitários constituíam uma inesperada e corajosa presença de humanidade e paz, um espinho no pé da violência que estava se espalhando. Para endossar esse projeto, que parece respirar quase antecipadamente o espírito dos nossos dias introduzido pelo Papa Francisco, houve outro pontífice, justamente Inocêncio III.

Ele realmente tinha uma sensibilidade diferente, expressa através dos apelos à cruzada pela libertação de Jerusalém, a quarta iniciada com vigor em 1198 e que terminou como um fracasso em 1204 (com a tomada não da cidade santa, mas de Constantinopla!). Em 1213, três anos antes de sua morte em Perugia, ele havia banido uma nova cruzada, que havia tentado levar à atenção dos mais de quatrocentos bispos reunidos no IV Concílio de Latrão de 1215, mas da qual não viu a implementação. No entanto, como mostra a pesquisa conduzida por Cipollone, esse mesmo papa à primeira vista tão combativo e voltado pela libertação da Terra Santa, tinha elaborado uma "política externa" muito mais articulada que não hesitava em seguir o caminho da negociação com os muçulmanos, afim de obter a libertação de prisioneiros e estabelecer períodos de trégua.

Não é por acaso que o subtítulo, mais didascálico, do ensaio é este: Tolerance and the humanitarian Way at the time of Jihad and the Crusades: a new outlook on “the Other” (Tolerância e o caminho humanitário para a época da Jihad e das Cruzadas: uma nova perspectiva sobre “o Outro”, em tradução livre). É neste seu programa tão variado que a presença efetiva dos Trinitários se inseria com suas escolhas de caridade e de confronto pacífico, simbolicamente retratadas justamente no mosaico a partir do qual partimos para essa nossa revisão.

No entanto, o texto de Giulio Cipollone oferece um traçado historiográfico bem mais grandioso, que o leitor seguirá em uma espécie de retorno a um passado que é tudo menos enterrado. Como dissemos e como se pode facilmente adivinhar, nesses eventos remotos - embora em diferentes contextos e tipologias - é possível ver experiências e eventos que estamos vivenciando agora. É, portanto, um apelo para subir a elevada trilha de um confronto paciente e, por vezes, escondido com a presença de um Islã que muitas vezes questiona duramente um cristianismo não infrequentemente incolor. Ela, para superar as vozes tortuosas dos populismos ou aqueles que ainda propõem guerras de religião ou de civilização, precisa de pessoas capazes de imitar aqueles Trinitários que "em nome de Deus" haviam optado por seguir o caminho da redenção, do encontro, de diálogo paciente e generoso.

Uma Ordem religiosa que ainda vive e trabalha, e tem em seu título oficial latino a missão da redenção dos escravos. Está longe de ser uma relíquia de um passado distante, ciente como estamos das novas terríveis e implacáveis formas de escravidão que atingem povos em situação de pobreza, mulheres traficadas para prostituição, crianças-soldados ou precoces trabalhadores e assim por diante. O nome da Ordem, de fato, em latim é a seguinte: Ordo Sanctissimae Trinitatis et Captivorum.

*Giulio Cipollone, When a Pope and a Sultan spoke the same language of war, Mahjar, Cairo - Bruxelas, p. 654

 

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