Francisco e o encontro com o Grão-imã que se curvou diante das vítimas do Bataclan

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06 Fevereiro 2019

A viagem do Papa Francisco nos Emirados Árabes Unidos tem despertado a atenção e alguma perplexidade. Alguns argumentaram, inclusive no próprio Vaticano, que teria sido mais apropriado incluir na viagem o Qatar (próximo do Irã e hostil à Arábia Saudita) ou o Omã (que ajudou a Santa Sé a proteger o pessoal religioso no Iêmen). O Papa, em vez disso, escolheu uma visita pontual: o motivo é a busca de interlocutores muçulmanos representativos e, especialmente, a relação com o Grão-imã de Al Azhar, o egípcio Al Tayyib, organizador do encontro inter-religioso, em Abu Dhabi.

O artigo é de Andrea Riccardi e publicado por Corriere della Sera em 05-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Além disso, a visita do Papa aos Emirados está dando apoio a 900 mil católicos, todos emigrados, e lhes confere forte visibilidade, negada na vida cotidiana. Algo está acontecendo entre os muçulmanos. No mundo sunita, traumatizado pelo extremismo, está em curso um processo de recompactação, que gira em torno da figura de Tayyib. Nomeado para a liderança de Al-Azhar, em 2010, pelo presidente Mubarak, que tinha se valido do controle político sobre o governo estabelecido por Nasser, o Grão-imã trabalhou para independizar a nomeação de seu sucessor da influência do Estado e fortalecer a autoridade internacional da instituição.

Nos últimos anos, Al-Azhar recuperou destaque no mundo sunita que, após a abolição do califado em 1924 por parte de Atatürk, não tem mais um centro ou um ponto de referência, enquanto fervilham líderes religiosos autoproclamados, como o "califa" Al Baghdadi e outros.

Tayyib usufrui de autoridade entre os muçulmanos, como chefe da mais prestigiada universidade islâmica, enquanto conduz uma cautelosa linha reformista. Na vertente externa, ele lidera o diálogo com o Ocidente e o cristianismo. Em 2017, recebeu o Papa Francisco no Cairo e estreitou com ele um diálogo pessoal e espiritual.

Al-Azhar é um dos pilares da estratégia de Tayyib. O outro é o Conselho Muçulmano de Anciãos, fundado em 2014 e presidido pelo imã, que reúne várias personalidades islâmicas do mundo. A instituição promove a Global Conference of Human Fraternity nos Emirates, da qual participa o Papa. Não existem apenas muçulmanos e cristãos, mas também judeus (como o rabino Skorka, amigo do Papa), e representantes das religiões orientais. São presenças que vão além do exclusivo reconhecimento muçulmano dos monoteísmos. A presença dos encontros no "espírito de Assis” – desde o encontro inter-religioso realizado por João Paulo II em 1986 - fez com que penetrasse, pelo menos um pouco, uma abertura às religiões inclusive no mundo islâmico.

Mas o cerne da reunião nos Emirados é o encontro entre o Papa e Tayyib com seu Conselho Muçulmano de Anciãos. A personalidade deste último é complexa. Sua posição sobre Israel é dura. Mas também é um firme opositor da Irmandade Muçulmana, como foi visto durante a presidência de Morsi e emerge da linha teológico-política de Al Azhar. Opositor do terrorismo, ele foi se curvar diante das vítimas do ataque ao Bataclan, em Paris. Na realidade, o imã tem uma bagagem espiritual muito diferenciada: ele vem de uma família sufi de tradição mística, que lidera uma confraternidade em Luxor. O mundo sufi, com sua devoção popular, é uma barreira ao radicalismo.

A viagem do papa a Abu Dhabi e o encontro com o Grão-imã fortalecem o papel "universal" deste último. A Igreja, desde o Vaticano II, procura figuras representativas entre os muçulmanos e tem dificuldade em encontrá-las. Tayyib é um líder através do qual o Papa quer estabelecer um diálogo (não formal) com o Islã ou parte dele. Tudo isso se enquadra no projeto de contribuir para a paz e a convivência no Oriente Médio, tanto que, justamente na Península Arábica, Francisco convidou a "banir toda aprovação da palavra guerra."

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