Teólogos católicos ficaram quietos demais sobre o livro “Building a Bridge”, do padre James Martin?

Capa da 2ª. edição do livro do J. Martin | Foto; Divulgação

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07 Março 2018

"O livro de Martin chama a atenção para o trabalho de muitas pessoas que lutaram pela igualdade LGBT e, a partir disso, tenta apontar um caminho. Cabe a cada um dizer que caminho será e como chegar lá concretamente". 

Capa do livro | Divulgação

O comentário é de Robert Shine, em artigo publicado por New Ways Ministry, 05-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.


Eis o artigo.

O blogue Daily Theology teve um bate-papo interessante sobre o livro do padre James Martin, SJ, Building a Bridge (Construindo uma ponte, tradução livre). O foco da conversa era se teólogos acadêmicos se envolveram o suficiente com um livro que tem provocado grandes controvérsias na Igreja, e também sobre quem deveria fazer teologia pública.

Kevin Ahern, professor de estudos religiosos na faculdade de Manhattan, disse que o livro revelou "uma crise, ou talvez até mesmo uma falha, em nossa teologia pública". Martin, reconheceu Ahern, não é o primeiro teólogo ou ministro a ser atacado por partidários da direita no "Twitter católico". Mas os ataques que o padre jesuíta recebe certamente foram intensos. Ahern escreveu:

"Neste novo espaço on-line de 'Twitter católico', a teologia está operando em vários níveis – ao passo que todos, desde o Papa e os bispos até os cristãos comuns estão se esforçando para entender sua fé em meio a um mundo desafiador. Mas e os teólogos acadêmicos?"

"Apesar de alguns teólogos importantes terem expressado apoio ao padre Martin, a ausência de fortes declarações de apoio dos teólogos acadêmicos, como os que escrevem sobre ética sexual e eclesiologia, foi notável. Fiquei realmente surpreso com o relativo silêncio dos meus colegas enquanto eventos nas universidades (como a faculdade teológica na Universidade Católica da América) eram cancelados. Há muitas razões possíveis para isso, como a falta de tempo, o medo, a falta de engajamento nas redes sociais, um sentimento de que o padre Martin não está dizendo nada novo, uma distância acadêmica da oração, da espiritualidade e das questões pastorais ou não conseguir entender o poder desses grupos de ódio na comunidade católica. É mais fácil fingir que não está vendo, e há uma preocupação legítima de que se envolver em difamação na internet possa dar mais poder às vozes de ódio..."

"Quem está conduzindo a narrativa da teologia pública hoje? Será que os teólogos acadêmicos cederam o discurso público sobre a teologia a alguns poucos acadêmicos, grupos não reconhecidos canonicamente, jornalistas e indivíduos ruidosos com muito tempo disponível?”

Jason Steidl, doutorando em teologia na Universidade de Fordham, respondeu às críticas de Ahern a respeito dos teólogos acadêmicos e seu envolvimento - ou falta de envolvimento - com a teologia pública. Steidl, que se identificou como "um eclesiologista gay profundamente envolvido no ministério pastoral LGBTQ", disse que tem acompanhado de perto o debate sobre Building a Bridge. Ele escreveu:

"Ler o artigo de Kevin me fez pensar nos meus amigos e mentores na academia que têm usado a teologia pública em livros, artigos, palestras, oficinas e conferências apoiando as pessoas LGBTQ há décadas. Eles pagaram um preço alto por seu trabalho, mas optaram por manter-se distante do engajamento público, defendendo o livro Building a Bridge. Por quê? É importante que perguntemos a eles.”

"Pensei em organizações como a New Ways Ministry e a Dignity, que vêm fazendo ministério queer e teologia pública há muito tempo. Muitos também publicaram declarações públicas em apoio ao trabalho de James Martin. Será que contam como teologia pública? Quem decide o que conta como teologia?”

"Pensei sobre um amigo defensor dos LGBTQ e pároco de uma paróquia católica que sofreram constante violência pelos extremistas da direita e a sua diocese, mas continua firme e forte em seu apoio ao ministério LGBTQ aberto. Sua teologia pública comunicou a vida espiritual e a reconciliação para centenas de pessoas queer. Ele desafiou e mudou a igreja local visível e radicalmente. Ele não tem interesse em participar de conflitos na internet.”

"Pensei nos meus amigos LGBTQ católicos que são casados, cuja presença em uma paróquia católica profetiza contra a homofobia sistêmica e o preconceito institucional. O Deus a quem eles servem publicamente não tem nada que ver com as condenações da extrema-direita. Sua teologia é pública, também, e exige que a Igreja reconheça a bondade do seu amor que vem de Deus.”

"Pensei nos meus amigos queer que se perguntam em voz alta sobre experiências sexuais à luz da fé católica. O que significa ser LGBTQ e católico? O que concede e o que rouba a vida espiritual? As comunidades queer estão observando essas perguntas pela primeira vez. Os teólogos vão escutar?”

"Pensei em jovens queer na catequese perguntando aos professores de religião por que a Igreja Católica odeia as pessoas LGBTQ. Como esses adolescentes podem participar de uma comunidade religiosa que os exclui e exclui seus amigos? Muitos desafiaram os bispos diretamente. O Jesus que esses jovens conhecem não tem nada que ver com homofobia e transfobia. Esses corajosos jovens profetas nos oferecem teologia pública sem cerimônia."

Steidl disse, também, que tinha feito sua própria teologia pública a partir da sua experiência em comunidades LGBTQ. E é nesses círculos, argumentou o teólogo, que Deus estava circulando, e não em debates públicos. Building a Bridge, em sua opinião, está fazendo muito bem. Para concluir, Steidl sugeriu que os teólogos acadêmicos que acreditam que fazer teologia pública é papel deles sejam moralizados:

". . . . Os [T]eólogos precisam prestar atenção no que está acontecendo nas comunidades católicas queer. Eles precisam ouvir com atenção e respeito o longo histórico de luta que continua dentro e fora da academia e do debate público. Se escutarem com atenção, vão descobrir que as reflexões sobre as experiências queer chamam a Igreja a um diálogo que vai muito além dos limites da doutrina tradicional católica... Basicamente, ouvir as vozes queer vai desafiar os teólogos a ir além de Building a Bridge para chegar até as montanhas e vales da experiência queer. Lá, as teologias da comunidade excluída prosperam à margem da Igreja.

Lá, o ministério que provoca mudanças de vida e concede a vida desafia as teologias de extrema-direita que perpetuam o status quo, que é pecaminoso e prejudicial. Lá, Deus está trabalhando. Os teólogos precisam prestar atenção."

Uma observação da academia é que uma crítica de Building a Bridge foi publicada em uma das principais revistas, Theological Studies, onde o livro é descrito como "suave, gracioso e atraente".

São verdadeiros os argumentos de Ahern como de Steidl. Houve relativo silêncio da academia em relação ao livro de Martin e às discussões que promoveu. Não é surpreendente que muitos teólogos não se envolveram criticamente com uma obra que tem um foco pastoral, e não acadêmico. Mas muitas pessoas, talvez consideradas teólogos não profissionais, estão fazendo teologia pública em relação ao livro de Martin. E Steidl traz o importante argumento de que essas contribuições são importantes pela profunda sabedoria que oferecem à Igreja. A teologia católica atual precisa ouvir muito.

Em vez do direto envolvimento com o livro, o melhor testemunho que os teólogos católicos podem dar é fazer teologia pública sobre algumas das questões levantadas em Building a Bridge. Ambos Ahern e Steidl reconheceram as críticas, algumas bastante raivosas, que Martin recebe, e que suas palestras foram canceladas. Os teólogos podem responder a tais realidades com seu trabalho, como: como levar o discurso eclesial para além dos impasses aparentes e levantar novas questões; como responder de forma eficaz, preservando a ética da universidade quando a direita on-line tenta suprimir a discussão. As orientações da academia poderiam beneficiar a Igreja a respeito disso em grande medida.

O livro de Martin chama a atenção para o trabalho de muitas pessoas que lutaram pela igualdade LGBT e, a partir disso, tenta apontar um caminho. Cabe a cada um dizer que caminho será e como chegar lá concretamente. O livro está certamente abrindo a mente e cicatrizando feridas das pessoas. Mas colocá-lo em prática, ao encontrar e buscar o caminho a seguir, é um trabalho muito mais difícil. Parte desse trabalho exigirá que teólogos acadêmicos escutem mais e se expressem mais em sua teologia pública.

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