Nicarágua. Reconciliação e morte de um padre-ministro. Miguel d'Escoto inaugurou a era dos sacerdotes no governo sandinista

D'Escoto celebra a sua primeira missa depois da suspensão canônica imposta pelo Papa Francisco em 14 de agosto de 2014 | Foto: Tierras de América

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

12 Junho 2017

Miguel d'Escoto faleceu na quinta-feira, exercendo novamente as suas funções sacerdotais tal como ele desejava, com a revogação de sua antiga suspensão a divinis. Ele tinha 84 anos e uma vida integrada com as fileiras da revolução desde a sua juventude. Participou da insurreição sandinista, na Nicarágua, em julho de 1979, sendo o sacerdote de Maryknoll, onde foi ordenado em 1961, precisamente no mesmo ano que surgiu a Frente Sandinista de Libertação Nacional, cujas fileiras ele militou desde o princípio. Logo após, quando a revolução derrubou ao último Somoza, Anastasio, ele fez parte do primeiro governo sandinista como ministro das Relações Exteriores e continuou depois com várias responsabilidades políticas nacionais nos governos liderados por Daniel Ortega, de 1979 até 1990. Isso lhe rendeu uma advertência e posteriormente uma suspensão a divinis, aplicada pelo cardeal Ratzinger na qualidade de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, durante o papado de João Paulo II, no dia 5 janeiro de 1985.

A reportagem é de Alver Metalli , publicada por Tierra de América, 10-06-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.


D'Escoto celebra a sua primeira missa depois da
suspensão canônica imposta pelo Papa Francisco em
14 de agosto de 2014 | Foto: Tierras de América

A recordação do dedo em riste do pontífice polonês repreendendo-o diante dos padres sandinistas no aeroporto Augusto César Sandino, de Manágua, ficou muito longínqua no tempo, nos anos que eram gritados "entre sandinistas e a revolução, não há contradição", em coro e a plenos pulmões na praça de Manágua, durante a celebração de João Paulo II, em seu quarto ano de pontificado. Mas, também muito longe da mentalidade daqueles que receberam aquela censura e, como no caso de d'Escoto, sofreram a excomunhão eclesiástica e buscaram no silêncio a reconciliação.

A última imagem de d'Escoto mostra-o em primeiro plano, atrás do altar, enquanto preside a primeira celebração eucarística, depois que a suspensão a divinis foi revogada, em 14 de Agosto de 2014. Junto a ele, sentado e portando alguns ornamentos coloridos, ou outro rosto familiar da iconografia Sandinista, o sacerdote franciscano Uriel Molina Oliú, fundador do Centro Antonio Valdivieso, uma das forças motrizes da Teologia da Libertação na América Central. A fotografia foi feita pelo fotógrafo do portal do governo da Nicarágua, "El 19 digital", e mostra d'Escoto ancião e sério, solene e ao mesmo tempo feliz pela celebração que finalmente estava presidindo.

"Estou feliz e grato ao Santo Padre por ter retirado esta suspensão a divinis que me impedia de celebrar missas", disse ele emocionado ao cronista do site oficial quando terminou a missa. Depois, ele explicou que a proibição canônica havia sido revogada pelo Papa Francisco em resposta a sua carta em que pedia que houvesse uma permissão para que ele pudesse celebrar missas novamente "antes de morrer".

Quando ele recebeu a notícia de que a suspensão havia sido revogada, o sacerdote reconheceu que havia chorado e acrescentou que Deus havia lhe dado a graça de carregar aquele peso, sem remorso ou ressentimento contra aqueles que haviam imposto a punição, "com muito amor à Igreja; sem celebrar a Santa Missa, mas vivendo uma espiritualidade eucarística".

O portal Sandinista "El 19 digital", da Nicarágua, que havia dado a notícia da revogação da suspensão, anunciou ontem o desaparecimento de d'Escoto dizendo que ele "Partia para outro plano de vida".

Dos sacerdotes que participaram no governo resta vivo apenas o poeta Ernesto Cardenal, com posições muito críticas a respeito de seus antigos companheiros, Daniel Ortega e sua esposa Rosario Murillo, principalmente. Fernando Cardenal, que foi Ministro da Educação entre 1984 e 1990, e não tem laços familiares com Ernesto, embora eles compartilhem do mesmo sobrenome, faleceu no dia 20 de fevereiro de 2016.

Leia mais