A nova geografia da Igreja a partir do caso Miguel d'Escoto

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08 Agosto 2014

Teve uma notável repercussão a notícia de que o Papa Francisco deu o seu consentimento para que seja revogada a suspensão a divinis do padre Miguel d'Escoto Brockmann, 81 anos, religioso nicaraguense, membro do governo sandinista nos anos 1980.

A reportagem é de Claudio Ferlan, publicada no sítio Mente Politica, 07-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por que uma notável repercussão? Para entender isso, é preciso dar um passo atrás e olhar para a história recente da Igreja latino-americana.

A visita de João Paulo II

Em 1979, na Nicarágua, a revolução sandinista conseguiu depor a longa ditadura da dinastia Somoza. No novo governo, a presença da Igreja local não era nada marginal. Para dar alguns exemplos: D'Escoto tinha assumido o cargo de ministro das Relações Exteriores; o jesuíta Fernando Cardenal, a de ministro da Educação; o seu irmão, Ernesto, a de ministro da Cultura.

Eram os anos em que muitos aderentes da teologia da libertação olhavam para o marxismo como um método eficaz de análise, de promoção da consciência das distorções da ordem estabelecida. Eles a consideravam também como um possível ponto de encontro entre o componente católico e os grupos envolvidos na luta, não necessariamente violenta, contra a opressão das classes desfavorecidas. Leituras que não podiam ser compartilhadas por João Paulo II, dada a história de onde ele provinha.

O papa polonês ordenou que os padres rejeitassem o envolvimento na política. Fernando Cardenal obedeceu à sua maneira: deixou a Companhia de Jesus e o estado clerical. Ernesto e Miguel, ao contrário, quiseram permanecer padres e manter o cargo do governo.

Em 1983, João Paulo II fez uma visita pastoral à Nicarágua. Ernesto Cardenal o acolheu, de joelhos, no aeroporto de Manágua. Wojtyla o repreendeu duramente ao vivo na televisão, contestando-lhe com extrema severidade a participação no governo sandinista e ordenou-lhe, mais uma vez, a renunciar.

Ernesto se recusou e, por isso, foi suspenso a divinis, ou seja, excluído de qualquer trabalho pastoral com os fiéis, proibido de celebrar a eucaristia e a confissão.

Essa viagem, para o papa polonês, não teve o sucesso de sempre: o povo nicaraguense havia se aliado com a revolução e não deixou de fazê-lo saber disso em voz alta e com muitas vaias.

Miguel d'Escoto Brokmann: uma carreira política

A história de Miguel d'Escoto remete à de Ernesto Cardenal, exceto pelo marcante episódio do aeroporto: a mesma intimação, a mesma reação, a mesma consequência. D'Escoto aceitou a sanção canônica, preferindo permanecer como ministro, cargo que manteria até 1990.

Depois, ocupou vários outros cargos internacionais, incluindo a presidência de turno da 63ª Sessão da Assembleia Geral da ONU (de setembro de 2008 a setembro de 2009), onde, escreveu o teólogo da libertação Leonardo Boff, nos seus discursos, ele citava os papas.

Em todo esse tempo, D'Escoto manteve a sua filiação à sua congregação missionária estadunidense (Maryknoll), na qual tinha entrado em jovem idade. Filho do embaixador nicaraguense nos Estados Unidos, Miguel tinha completado a sua formação em Nova York.

Afirmou ter chorado no momento da comunicação da suspensão (1985), não tanto por si mesmo, mas pela sua Igreja, que – palavras suas – "se mostrava tão pequena".

Abandonar o povo nicaraguense significaria – continua – trair a revolução sandinista e os seus mártires, o presidente Daniel Ortega, a própria consciência. Depois, ele afirmou que nunca guardou rancor pela punição imposta por Wojtyla, que não guardava arrependimentos e que não perdeu o amor pela Igreja. Foi um abuso de poder – concluiu –, e eu o aceitei como tal.

O procedimento e as reações

Como hábil diplomata, D'Escoto certamente entendeu que a eleição de Francisco poderia mudar alguma coisa para a sua condição pessoal e para a política vaticana em geral.

Ele escreveu uma carta ao papa, manifestando o seu desejo de "voltar a celebrar a Santa Eucaristia antes de morrer". O pedido obteve uma resposta afirmativa. A primeira reação foi uma dedicação ao seu povo: "Amado povo da Nicarágua, o meu sacerdócio é seu e é para vocês. Estou feliz por voltar a celebrar a missa".

Depois, pediu ao cardeal nicaraguense Miguel Obando Bravo para celebrar juntos. Não deve ser uma mera coincidência que Obando Bravo, 88 anos, tenha sido elevado à púrpura cardinalícia justamente em 1985. E, à época, as relações entre os dois certamente não eram fáceis.

A solução dessa história nos leva a crer que a Igreja está tentando virar a página, superar um passado recente no sinal da reconciliação com uma parte significativa sua, em números e em carisma. E ela faz isso certificando o deslocamento de seu centro, hoje muito mais próximo das – agora apenas supostas – periferias, geográficas e existenciais.